Normalmente costumamos escrever cartas para o futuro. Elas relatam o passado, mas a ideia é que alcancem pessoas depois, sejam nós mesmos ou pessoas que nunca vamos conhecer e que, de alguma forma, precisamos que saibam daquele relato, nem que seja por um pequeno conforto emocional temporário.
Essa carta é para mim mesmo, mas no passado. Vai que por um buraco de minhoca ela me alcance, dentro de um livro velho na prateleira da antiga biblioteca da minha escola. Não sei o quanto aquela criança entenderia ou se deixaria levar em devaneios, mas é curioso pensar. Eis a carta:
Sinto informar para a criança que eu fui um dia que você nunca se tornou um cavaleiro do zodíaco, na verdade, até hoje, não temos nenhuma comprovação de que eles existem, mas algumas cenas lendárias permanecem sendo citadas por aqueles que viram e acompanharam com fervor. Você também não ganhou nenhum poder ao estilo X-Men e nem virou o Homem-Aranha, mas ambos permanecem vivos na nossa cultura, arrastando muita gente para assistir, garantindo ótimas mochilas escolares e fantasias para festas.
Sinto muito em dizer que você não beijou as pessoas que achou que beijaria nos seus 13 e 14 anos. Você teve muita vontade, se sentiu triste em muitos momentos e até um tanto sozinho, a gente sabe que estar rodeado de pessoas em determinada época da vida é diferente de ter uma companhia feminina romântica. Você vai estar acima do peso a sua vida toda e não, você não será forte, nem musculoso, nem rápido, mas vai conseguir se virar. Não será atleta de nada, mas tudo bem, pois esse nunca foi seu sonho.
Você não vai conseguir realizar o sonho de trabalhar com seus amigos de infância, cada um vai seguir seu próprio caminho em atividades diferentes. Na verdade, vocês nem farão faculdade juntos.
Eu iria te contar que você não conseguiu abrir o Jurassic Park, que a gente avançou bastante na parte de pesquisas genéticas, mas que você nunca se envolveu muito com isso, nem com a perseguição de alienígenas ou descobrindo fantasmas. Mas acho que você já desconfiava que não conseguiria essa parte.
Você não fez ou escreveu um filme propriamente dito, mesmo tendo aqueles rascunhos todos na parte final das tuas folhas de fichário e cadernos. Você não será um ator, um astronauta e nem mesmo aquelas profissões que você achava incrível como dono de uma banca de jornal ou de uma locadora. Esse último negócio, inclusive, tende a desaparecer praticamente por completo. Agora as pessoas alugam patinetes e bicicletas. Isso deve ser estranho para você pensar, especialmente porque era muito legal ter sua própria bicicleta, patinete e decorá-los com algo que te representasse. Hoje eles carregam logomarcas de bancos e aplicativos… que são coisas tipo programas de computador com funções específicas.
O mundo perdeu um pouco de algumas coisas legais, como tempo para conversa, leitura em papel e todo mundo reunido na casa de amigos para ver um filme e depois termos uma noite de jogos. A gente assiste as coisas mais sozinhos e, esses aplicativos que eu falei alugam as coisas o tempo todo, você não é mais dono dos filmes ou jogos, tudo é uma assinatura, tipo as TVs por assinatura, se parar de pagar, não poderá rever aquele filme incrível que gosta tanto ou que é tradição de Natal.
Você também não se tornou redator de história em quadrinhos e praticamente não compra mais gibis e HQs nas bancas de jornal, que diminuíram bastante pela cidade, inclusive.
No entanto, de tantas coisas que mudaram e que você não foi e não fez, te digo que vai aguentar muita pancada da vida, mais do que achou que um dia suportaria, e vai continuar de pé. Vai trabalhar até tarde e entregar coisas num prazo apertado e, de alguma forma estranha, vai ter certo orgulho disso.
Vai chorar sozinho muitas vezes, por vários motivos, por pessoas que ama, que amou, que te decepcionaram ou por pessoas que te queriam mal… Só por querer. E você vai entender que isso às vezes acontece e nem sempre é culpa sua… Mas você vai seguir sentindo bastante culpa e muitas vezes deslocado no mundo. Como se não fosse daqui realmente.
Vai doer… e mesmo não sendo musculoso e atlético, mesmo sem ter superpoderes, de alguma maneira você vai aguentar.
Entre os dinossauros, alienígenas e fantasmas que não encontrará, cá entre nós, você ainda segue guardando bastante curiosidade disso tudo e de muito mais, desconfio até que seja um dos motivos que te fazem manter a magia acesa na sua cabeça.
Você nunca vai parar de pensar e imaginar coisas, e isso vai te fazer muito bem e muito mal. Vai ser um tipo de talento que usará e um tipo de maldição que vai te preocupar e te assolar, mesmo quando não quiser, assim como sua memória.
O tempo vai te incomodar. A aceleração dele, a falta dele… vai sentir falta de se deitar numa rede, de se sentar em uma cadeira na varanda ou de ir pra laje olhar o céu e simplesmente sentir por uma hora aquela brisa noturna que tanto te move. A cidade ficou mais iluminada, mas nem por isso mais bonita. Andar de carro à noite agora é mais fácil pra você, mas não tão gostoso. Tem muita gente circulando o tempo todo e isso tira aquele ar onírico que você sempre gostou na noite.
As manhãs e as noites são barulhentas e as tardes… Bem, elas seguem lindas, mas nem sempre você vai conseguir admirar do jeito que você gosta.
No entanto, lembra da sua vontade de escrever um livro? Pois é… Você realizou. Você não é um autor famoso ou conhecido, mas sei que no teu coração o desejo não era esse, você sempre quis escrever. Na verdade, você já escreveu 5 livros com histórias puramente da sua cabeça. Fora os que escreveu para e sobre outras pessoas.
E você não trabalha com seus amigos de infância, mas mantém contato com todos eles praticamente, e tem um orgulho danado da vida que cada um e cada uma construiu. Além disso, no trabalho, você fez o oposto: fez amizade com as pessoas com quem está ali batalhando diariamente e isso vai te dar forças e motivação, mais do que você um dia imaginou.
Você diminuiu o tanto que lê coisas no papel, mas ainda é apaixonado por livros e quadrinhos e não perde uma oportunidade de admirá-los. A sua imaginação ainda funciona… talvez mais do que deveria.
No seu primeiro livro você escreveu uma frase que ao longo do tempo você pode até esquecer de vez em quando, mas que vai recuperar de quando em vez porque ela carrega uma verdade: a vida, por mais problema que se tenha, vale a pena!
Você vai duvidar disso, vai ter o coração machucado a ponto de acreditar que não vale a pena seguir. Vai fazer coisas que acreditou que nunca faria, boas e más, mas vai saber reconhecer erros e pedir perdão, e isso vai te dar lições, pessoas e um pouco de sabedoria talvez. Que em alguns dias você vai esquecer, mas estará sempre ali.
De tudo que fará e que deixará de fazer, saiba que você vai amar muito. Seu coração não consegue não amar sua família, amigos, amigas, pessoas dos mais diversos locais e jeitos, cada um especial a seu modo. E mesmo isso pode te trazer problemas, mas vai valer a pena.
Quero te contar mais e tanto, mas acho que os fatos em si não vão te dar a dimensão de tudo o que vai fazer o seu peito se encher e se esvaziar. E talvez eu não queira também tirar o gostinho de novidade quando algumas coisas ocorrerem. De mais a mais, assim como você, eu também não sei de muita coisa, mas sigo caminhando e peço que faça o mesmo, nem que seja por uma mórbida curiosidade sobre a vida. Te peço isso, deixe forte esse olhar de criança no peito, pois é ele quem vai nos sustentar ao longo de toda a vida.
Ainda não achei uma carta do nosso eu futuro pra mim, mas sigo, de vez em quando, abrindo velhos livros em bibliotecas!

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