De jeito simples, fala mansa que se alteia apenas para dar ênfase às suas histórias, com seus óculos de aros grossos que emolduram um olhar atento e de sorriso simpático, assim é Araquém Alcântara, fotógrafo que, como define, busca por suas imagens a beleza da natureza e a natureza dos homens.

Autor de 44 livros (entre eles: Terra Brasil e Sertão sem fim), Araquém é um dos precursores da fotografia de natureza no Brasil e um dos mais importantes fotógrafos deste gênero no mundo, sendo referência nacional e internacional, não apenas pelos seus cliques, mas em especial pelas aventuras que vive para consegui-los.

O fotógrafo foi o primeiro a documentar todos os parques nacionais do país e já esteve nos locais mais remotos do Brasil, dos sertões às florestas. “Devo ter visto a morte de perto umas quatro vezes ou mais, e só sei viver indo até locais onde os homens ainda não chegaram. Até morrer, vou estar no mato!”, confessa.

Nascido em Florianópolis (SC), o aventureiro foi morar em Santos (SP) aos sete anos de idade, onde cresceu e se desenvolveu profissionalmente, a princípio como jornalista e, a seguir, como o fotógrafo que teria o nome conhecido muito além da zona portuária onde começou.

No Bate-papo exclusivo com o Sincodiv-SP Online, a seguir, ele fala sobre o desenvolvimento de sua carreira, a influência da atividade profissional na relação com a família e, principalmente, conta “causos” de quem é movido por aventura.

Sincodiv-SP Online: Seu desejo quando jovem era o de ser jornalista e/ou escritor, como surgiu, então, a paixão pela fotografia e aventura?

Araquém Alcântara: Passei a adolescência lendo aventuras que tinham espaço nos sertões brasileiros, acho que isso contribuiu para o que sou. Em 1970 ingressei na Faculdade de Comunicação de Santos e em pouco tempo trabalhava na sucursal do Estadão e Jornal da Tarde.

Apesar de tudo correr bem, percebia que a palavra escrita já não fazia tanto sentido para mim, faltava algo. Eu já não me expressava como desejava.

Uma noite fui ver uma sessão do filme A Ilha Nua, de Kaneto Shindo. Um filme quase sem história, ou palavras. Um casal vivendo com dois filhos numa ilha inóspita, onde tarefas corriqueiras ganharam outro sentido aos meus olhos: buscar água, preparar a terra, a comida, a canoa, os pássaros nas pedras, os remos contra as ondas. A força e a beleza da pura imagem. Sai dali inspirado, pronto a começar a me comunicar pela imagem.

Com uma câmera emprestada, de início, as primeiras imagens que fiz foram das “prostitutas do cais”. Logo comecei a captar o sentimento do porto, as histórias de Santos. Fotografava urubus e pessoas. A cada imagem que fazia da natureza ou mesmo dos oprimidos, percebia que a fotografia era espiritual. Como qualquer linguagem, ela é uma ponte para entender as coisas e evoluir como Homem.

Sincodiv-SP Online: E como seguiu essa trajetória?

Araquém Alcântara: Tudo tem um pouco a ver com a ideia de Tolstói de que quem canta bem a sua aldeia, faz um canto universal. Comecei a trabalhar no meu horizonte provável, como freelancer para os jornais e logo as oportunidades surgiram.

Eu morava em Santos e soube que na cidade de Cubatão, bem próxima, algumas crianças haviam nascido sem cérebro ou com alguma outra deformidade, e diziam que era por conta da poluição. Fui até lá para conferir e fazer um trabalho contra aquilo e descobri que o homem é um “fazedor de desertos”, como bem descreveu Euclides da Cunha. Ali, ganhei um olhar de sustentabilidade, voltado para a ecologia e vi que as coisas não poderiam caminhar dessa forma.

Sincodiv-SP Online: E ali começou sua paixão pela natureza?

Araquém Alcântara: Aquilo aumentou minha paixão, pois ela havia nascido muito antes por conta do meu pai, Manuel Alcântara, pescador conhecido como velho Queco.

Meu pai me ensinou a encontrar a sintonia com a natureza desde cedo. Quando eu tinha cinco anos, o velho Queco me levou numa viagem com ele em um navio de cabotagem (de navegação curta, que não perde de vista a costa) e aquilo me tocou. Ali, vendo as belezas de fora da terra, foi que nasceu meu amor pela natureza.

Sincodiv-SP Online: O seu livro Terra Brasil (mais de 85 mil cópias vendidas) foi o trabalho que te deu maior visibilidade. Você o considera o grande trabalho de sua carreira até o momento?

Araquém Alcântara: O Terra Brasil foi um projeto que levou cerca de 12 anos para se realizar e me impulsionou a outro patamar de reconhecimento. Foi a fama conseguida com ele (o livro de foto mais vendido do país) que permitiu que eu articulasse melhor outros projetos. Devo muito ao Terra Brasil, mas acredito que meu grande trabalho, o mais instigante até agora, tenha sido o Sertão sem fim.

Sincodiv-SP Online: Por quê? E quanto tempo levou para concluí-lo?

Araquém Alcântara: Levei em torno de quatro anos para finalizar o Sertão sem fim, e considero-o interessante não só pelas paisagens, mas por mostrar as pessoas que vivem nesses locais inóspitos, por retratar a vida desses sertanejos. Outro fator que o deixou mais palatável foi que, já na era digital, decidi fazer o trabalho todo em filme, com equipamento tradicional, o que deu um tom especial à experiência.

Sincodiv-SP Online: Suas imagens mostram belezas escondidas ou mesmo coisas cotidianas para as quais nem todos olham, mas também fazem denúncias de um Brasil oprimido. Você considera o seu trabalho jornalismo ou arte?

Araquém Alcântara: Eu trafego pelas duas dimensões e escolher uma delas depende da percepção de quem vê.

Muitas vezes, meu trabalho é artístico, mas não deixa de colocar o dedo na ferida. O importante é entender que a foto não se encerra em si mesma, ela deve provocar algo. Ajudar a ampliar o conhecimento, causar reflexão.

Eu fotografo a beleza, quero mostrar a natureza de um Brasil desconhecido, mas também faço uma fotografia da natureza dos homens.

Sincodiv-SP Online: Para realizar seus projetos mais aventureiros você se coloca praticamente em exílio. Qual foi a sensação da primeira vez que fez isso?

Araquém Alcântara: De paz. Pude refletir melhor sobre a vida, perceber que estava cercado de coisas maravilhosas e que enxergava tão pouco no dia a dia. Foi como entrar em sintonia com algo maior. Entretanto, dias depois sobreveio a solidão. Acho que o homem é feito para trafegar entre esses dois mundos, precisa de pessoas e de um contato direto com a natureza.

Sincodiv-SP Online: Hoje ainda existe essa sensação de solidão? Como ficam as relações profissionais e familiares? Como se estruturou para poder realizar tais aventuras?

Araquém Alcântara: Eu ainda atuo como freelancer, mas hoje, por conta da visibilidade que ganhei, meu trabalho tem mais valor. São os trabalhos do dia a dia que me permitem bancar projetos maiores e mais audaciosos. Também tenho parceiros e apoiadores, como a Editora Abril e a revista National Geographic, que me dão respaldo para me “ausentar” do mercado.

Eu ainda sinto solidão em alguns momentos. Existe uma diferença entre passar uma semana e um mês na mata. Sinto falta de minhas duas filhas e meus dois netos. Minha vontade era a de que elas me acompanhassem, desde cedo, nessas aventuras, mas não tive filhos homens e as minhas duas fugiram da raia, então me lasquei (risos).

Sincodiv-SP Online: Entre seus desejos de ser escritor e jornalista, pode-se dizer que alcançou os dois e ainda mais. Hoje você se sente realizado?

Araquém Alcântara: De jeito nenhum! Chegar à realização é o mesmo que morrer. Ou eu tô vivo, ou “eu-tanásia” (risos). Sinto-me feliz, posso dizer que alcancei muita coisa, mas ainda há muito o que fazer.

Sincodiv-SP Online: Então fale dos próximos projetos.

Araquém Alcântara: Estou com foco em algumas frentes novas. No momento estou me estruturando para conteúdos voltados ao mercado externo. Meu trabalho é sobre o Brasil. Sou um intérprete do país, mas quero adaptar conteúdos para outros mercados. Estou preparando workshops e palestras para um novo público.

Também estou envolvido num projeto cinematográfico que tem a Amazônia como palco. O filme é dirigido pelo francês Thierry Ragobert e se chama Amazônia, Planeta Verde. As filmagens acontecem na região do Monte Roraima, local que já visitei diversas vezes, inclusive, estou ajudando a equipe de filmagens a se localizar e locomover pelo local. A estreia do longa está prevista para o segundo semestre de 2013.

Ainda no âmbito do cinema, também estarei como entrevistado num filme nacional chamado Eu Maior, projeto brasileiro que reúne especialistas de diversas áreas que falam sobre a busca do autoconhecimento e da felicidade.

Além desses, tenho planos de estruturar uma espécie de caravana pelo Brasil afora para levar palestras que incentivem jovens de locais remotos a buscarem seus sonhos, especialmente na área da Fotografia.

Sincodiv-SP Online: Podemos dizer que sua disposição não diminuiu, então?

Araquém Alcântara: Sinto a mesma disposição de antes para caminhar pelo mundo e realizar um monte de coisas.

Sincodiv-SP Online: Os interesses continuam os mesmos desde o início da carreira?

Araquém Alcântara: A maioria deles sim, apesar de estar mais voltado agora para o autoconhecimento e para a partilha de experiências, quero beneficiar pessoas, ensinar. Já fui aprendiz e hoje sou tido como um mestre, ou seja, ainda tenho muito a aprender, mas atualmente posso trabalhar apenas naquilo que gosto, sem precisar me preocupar com outras coisas que garantiriam apenas minha sobrevivência, por assim dizer.

Sincodiv-SP Online: Quer dizer que as aventuras continuam?

Araquém Alcântara: Sim! Quem está viajando está pronto para descobrir, e o meu caminho é andar.

Sincodiv-SP Online: Nem os perigos te fazem desistir? Imagino que em tantos anos já tenha enfrentado algumas situações complicadas.

Araquém Alcântara: Devo ter visto a morte de perto umas quatro vezes ou mais, e só sei viver indo até locais onde os homens ainda não chegaram. Até morrer, vou estar no mato! Já peguei malária várias vezes e tive outros tantos infortúnios, mas lembro bem de dois episódios extremos que me ocorreram entre 1996 e 1997, durante expedição para fotografar os sete parques nacionais da Amazônia.

Eu estava fazendo um trabalho com tribos, próximo ao Monte Roraima. Precisava sair da aldeia Manalai onde estava, para visitar uma outra, mas o acesso tinha de ser por canoa. O índio que seria nosso guia não estava no local indicado e decidimos, eu e mais duas pessoas, seguir por conta própria.

Descíamos o rio Cotingo quando a canoa se perdeu na correnteza e começamos a ser arrastados para a cachoeira. A queda era enorme. Queríamos pular da embarcação e nadar até a margem, mas eu não conseguiria sem estragar o equipamento que carregava. Por sorte, encontrei dois sacos plásticos na minha mochila e embrulhei meu material fazendo uma espécie de bolsa de ar que eu esperava que flutuasse se tivesse que nadar.

Mais alguns momentos se passaram e não conseguíamos corrigir o curso da canoa. A queda ficando cada vez mais próxima… Quando falaram de saltar, sugeri que o fizéssemos mais próximo da queda, parecia loucura, mas pouco antes da cachoeira, o rio geralmente se estreita e a margem fica mais próxima, acumulando pedras nas quais se pode segurar. A ideia deu certo e saltamos da embarcação quando estávamos a pouco menos de 30 metros da queda. Caímos de pé na margem, tivemos algumas pequenas escoriações, mas sobrevivemos. Conseguimos salvar até mesmo a canoa antes que caísse.

A outra situação foi durante um voo na mesma região do Monte Roraima. O piloto que iria nos levar de uma aldeia à outra se atrasou e chegou quando o tempo parecia estar se fechando. Mesmo sob os meus questionamentos e de mais dois passageiros, ele quis fazer o voo naquela tarde.

Estávamos no ar, dentro de um monomotor, quando o tempo fechou e começou uma tempestade fortíssima. Lembro até hoje das gotas grossas escorrendo pelo vidro do pequeno avião e dos raios cruzando os céus. Fizemos um pouso forçado no meio duma vegetação baixa e o avião ficou inutilizado.

Fomos encontrados dois dias depois por um cavaleiro de uma fazenda da região que nos levou ao local até sermos resgatados para continuar a aventura.

Sincodiv-SP Online: Perdeu dois dias por conta desse acidente…

Araquém Alcântara: Nada é perdido. Lembro que logo após a descida do avião, depois de verificarmos se estavam todos bem, olhei para a mata de um verde vivo e vi uns bichinhos de luz própria, uma espécie de vaga-lume. Naquele momento, fiquei paralisado pela beleza do local e me senti bem de novo.

Sincodiv-SP Online: Você parece ser guiado pela intuição. Considera ter um lado místico muito forte?

Araquém Alcântara: Sim, sou místico. Acho que as coisas acontecem por um motivo. Nenhum encontro é à toa. Sou emotivo também, choro fácil e me sensibilizo. Sigo minha intuição desde jovem, e até agora tem dado certo.

Sincodiv-SP Online: Existe algum fato que presenciou e não conseguiu explicar?

Araquém Alcântara: Sim, o episódio da mãe-de-fogo.

Sincodiv-SP Online: Como foi?

Araquém Alcântara: Era final da década de 70. Eu e mais dois companheiros fazíamos o trabalho que resultaria no livro da Jureia (região de Peruíbe – SP), denunciando a depredação da Mata Atlântica por caçadores e madeireiros. Estávamos já há 12 dias no local e certa noite saímos do refúgio em que nos encontrávamos para pescar.

Chegamos à praia, era noite escura, de lua nova. Um dos companheiros, uma mulher, disse que iria dar uma volta e estava se afastando de nós quando vi no céu um objeto cilíndrico enorme, com extremidades que espiralavam e giravam.

Ele tinha luz própria e era multicolorido. Chamei o companheiro Vandir, caiçara que conhecia as histórias locais e ele disse que era a mãe-de-fogo, ou o tucano-de-ouro – uma espécie de bola de fogo com cauda de cometa que brilhava por alguns segundos no céu. Naquela oportunidade, porém, a aparição durou cerca de cinco minutos.

Longe do abrigo, sem equipamento, só pudemos, os três, admirar o fenômeno. Foi a coisa mais linda que eu já vi. Ele se moveu lentamente e desapareceu atrás do pico do Pogoçá.

Poderia ser uma nave, ou mesmo uma das figuras do folclore local, mas era lindo e enorme. De alguma forma senti que estava ali por um motivo e fazendo o trabalho certo. O fenômeno foi quase como uma confirmação daquilo que eu intuía. Sou assim, místico, emotivo.

Acho que é algo que está no meu DNA.

Sincodiv-SP Online: No DNA?

Araquém Alcântara: Meu pai era pescador, muito ligado à natureza e místico. O velho Queco não apenas me mostrou o caminho certo, mas também me acompanhou em muitas aventuras. Como na vez em que fomos para a região da Jureia, na década de 80, para protestar contra os planos de construção de duas usinas nucleares no local, pretendidas pelo governo militar.

Saímos de Peruíbe, andamos uns 36 quilômetros a pé e só paramos em plena Jureia, na praia de Grajaúna, onde as tais usinas seriam construídas. Naquele local lindo, meu pai agarrou uma foto que mostrava os cadáveres das vítimas de Hiroshima e eu fiz a foto.

Como que por mágica o material correu o país e intensificou o movimento contra a construção das usinas. Meu pai aparecia na imagem como um profeta de um desastre futuro que não aconteceu por conta dos protestos. Hoje a praia da Grajaúna faz parte da reserva ecológica da Juréia.

Sincodiv-SP Online: Fale um pouco mais de Manuel, seu pai.

Araquém Alcântara: O velho era um ser especial. Aos dez anos saiu de casa, em Itajaí, Santa Catarina, para correr mundo. Foi um pouco de tudo, cozinheiro de navio, caçador de tesouros na costa, andarilho. Seu único luxo era manter os sapatos mais ou menos em dia para poder entrar nos cinemas. Em Santos, era pescador, sempre amante da natureza.

Meu pai me ensinou muita coisa, foi um marco na minha vida, não só pessoal, obviamente, mas também ajudou a trilhar os meus caminhos profissionais. Meu pai faleceu há cerca de 15 anos, com 86 anos.

Sincodiv-SP Online: O que aprendeu, afinal, em todas essas andanças?

Araquém Alcântara: Respeito pela natureza, buscar o que se gosta e denunciar aquilo que é errado. Aprendi que sempre vale a pena conhecer locais onde ninguém pisou e descobrir novos mundos. Na vida, o que importa é estar feliz. E estar feliz significa batalhar duro. O sucesso vem do suor.

Conteúdo produzido por Moraes Mahlmeister Comunicação. Entrevista realizada e redigida por Renan De Simone, editada por Juliana de Moraes. Publicado pelo site do Sincodiv-SP Online em março de 2012.

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