Há uma anedota que diz que as fábricas da Indústria 4.0 precisarão apenas das máquinas, de um homem e de um cachorro. “As máquinas estarão lá para efetuar todos os processos da cadeia de produção, o homem estará lá para dar comida ao cachorro, e o cachorro estará lá para garantir que o homem não toque nas máquinas (risos)”.

A piada acima foi lembrada por Marcos Troyjo, co-diretor do BRICLab, da Universidade de Columbia, que esteve presente no fórum A Indústria 4.0 – A era da manufatura avançada, evento realizado pela Amcham (American Chamber of Commerce for Brazil, Câmara Americana de Comércio para o Brasil, em tradução livre), na capital paulista, e exemplifica bastante o que é o conceito desta mudança, chamada também de a 4ª Revolução Industrial.

De maneira simplificada, a Indústria 4.0 é o nome dado às transformações que ocorrem nas empresas no processo de “digitização” (transformar o negócio para digital, mudando seu modelo de negócio e fluxo de valor, se aproveitando de novos processos, sistemas, ferramentas e meios de colaboração para alterar a forma de atuar frente ao mercado) de grande parte de seus ativos e que engloba algumas tecnologias para automação e troca de dados, e utiliza conceitos de sistemas ciberfísicos, IoT (Internet das Coisas, na sigla em inglês), computação em nuvem, produção sob demanda, proximidade com clientes, nanotecnologia, inteligência artificial, robótica, big data, analytics, computação quântica e cognitiva, entre outras.

Para Troyjo, três coisas se destacam no mundo hoje. Uma tendência ao protecionismo comercial dos países, como uma espécie de “desglobalização”; o divórcio entre geração de valor e geração de empregos, pois, atualmente, nem sempre o crescimento de uma marca está atrelado ao crescimento do emprego gerado; e a 4ª Revolução Industrial.

Sobre esta última, Deborah Vieitas, CEO da Amcham Brasil, diz que para consolidar o cenário desta indústria, será essencial atitude organizacional diferenciada, pois as relações trabalhistas e sociais vão se modificar, o que exige mudanças nas políticas antigas, “por isso nós, da Amcham, vemos com bons olhos as reformas trabalhistas atuais, e precisamos de mais. O Brasil deve ingressar na Indústria 4.0 para aumentar a competitividade e, para isso, devemos conscientizar o poder público, em especial o Legislativo, de que mudanças serão necessárias”.

No lugar de manufatura, “mentefatura”

Troyjo concorda com Deborah e enfatiza que essa mudança de integração de tecnologias será tão intensa e profunda que teremos de mudar mesmo o termo “manufatura”, pois estaremos na era da “mentefatura” ou melhor, da “talentofatura”, pois estes serão os verdadeiros diferenciais. “Assim como o capitalismo foi baseado no par capital/força de trabalho, teremos agora a base do talento, é uma era de “talentismo” em lugar de capitalismo”.

E todas essas alterações terão profundo impacto na sociedade, ou seja, a Indústria 4.0 não muda apenas as coisas – os produtos e os processos – ela muda as pessoas, por meio de nanotecnologia, conexões, inteligência artificial, e modos novos de se relacionar entre si, com empresas, marcas, etc. “É um movimento que integra o setor primário a outros, é uma “metaindústria” para além da indústria. E devemos nos perguntar: como fazer novas políticas e estratégias industriais nesse cenário? Que tipo de educação precisamos ter nesse mundo novo, smart, ágil e integrado?”, questiona o co-diretor do BRICLab.

Para os especialistas, o grande investimento deve ser exatamente em educação e preparo das pessoas. Isso porque o a técnica para trabalhos mais mecânicos e repetitivos já estará dominada, abrindo espaço para a criatividade humana e habilidades as quais as máquinas não podem copiar.

O papel humano e a qualidade

A esse respeito, Márcio Girão, diretor de Inovação da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), coloca que a 4ª Revolução Industrial vai tirar as pessoas de fábricas, tirar motoristas de carros, “as pessoas vão ser substituídas por robôs, sensores e algoritmos.

De acordo com ele, fato é que o Brasil terá de evoluir das commodities e se industrializar cada vez mais, pois só assim o país deixará de ser refém do mercado externo e evoluir na qualidade de seus produtos e componentes, com pessoas nos lugares certos.

Para Celso Luis Placeres, diretor de Engenharia de Manufatura da Volkswagen para América do Sul, produtividade e qualidade crescem juntas. Ele conta que os principais componentes utilizados nos veículos da empresa hoje têm 100% de rastreabilidade e isso tem a ver com assertividade e segurança.

“Automação e informação traz repetibilidade e melhoria nesse processo. No entanto, veja, o homem não foi feito para repetição, então, automatizando esses processos, melhoraremos o tipo de trabalho das pessoas”.

Liderança ganha papel ainda mais importante

“Parece que o novo paradigma é a humanização das máquinas, no relacionamento entre elas e com os humanos. Assim, parece uma revolução mais calorosa e traz descentralização dos trabalhos. As pessoas, nessa indústria 4.0 não interferem mais em processos, mas sim no sistema e é dessa forma que devem moldar o pensamento.  O processo, em si, a máquina faz”, diz Daniel Rosa, CEO da Unidade Steering da Thyssenkrupp.

Rosa completa dando um recado bem direto sobre todas as mudanças que estão em andamento: “a preparação para a indústria 4.0 deve ser muito grande e a liderança é fundamental para estabelecer uma cultura voltada para essa revolução”.

Conteúdo produzido por Moraes Mahlmeister Comunicação. Texto de Renan De Simone; edição e revisão de Juliana de Moraes. Publicado pelo site do Sincodiv-SP Online.

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