Graduado pela Escola de Educação Física de São Carlos e pós-graduado pela USP (Universidade de São Paulo), Nuno Cobra Ribeiro é um dos maiores expoentes do trabalho de desenvolvimento humano no Brasil e também no exterior.

Seu método de “alcançar o cérebro através do músculo” começou a ser edificado ainda na adolescência, após experiências peculiares que o fizeram estabelecer uma promessa: dedicar a vida a fazer as pessoas descobrirem a imensa força que têm dentro delas (e não sabem).

O método de Nuno Cobra consiste em trabalhar o corpo de forma a se modificar o pensamento e quebrar antigos paradigmas que atravancam o desenvolvimento das pessoas. “Vivemos numa sociedade castradora, que afirma nossos erros e derrotas e se esquece de nossas conquistas. Ao longo dos anos isso se instala em nosso subconsciente e reflete em nossos atos diários. Passamos a acreditar que não somos capazes”, afirma o professor e autor do bestseller A Semente da Vitória, livro que entra na centésima edição e já vendeu mais de 500 mil cópias.

Treinador de personalidades como Christian Fittipaldi, Ayrton Senna e o empresário Abílio Diniz, Nuno Cobra, apesar de rejeitado pelo academicismo até meados da década de 1990, se consolidou como profissional e já conta com mais de 40 anos de trabalho. Falando de saúde, preparação física e motivação, o professor é o personagem do nosso Bate-papo deste mês e você confere a entrevista na íntegra a seguir.

Sincodiv-SP Online: Como se deu a criação de seu método de trabalho?

Nuno Cobra: Comecei a desenvolvê-lo ainda muito jovem, quando aprendi, na prática, que as coisa podiam ser diferentes. Eu era uma criança muito fraca, tímida, com medo de tudo e insegura. Minha mudança se deu em São José do Rio Pardo, na década de 1950, quando conheci Pedro Pexexa, um ferreiro que era também líder de um grupo de pescadores. Pexexa e seu grupo começaram a me ajudar a trabalhar minha parte física.

Eu subia em cipó de árvores, pulava de um galho para outro, nadava nas águas geladas do rio, manejava canoas rio acima com varejão (aquela vara comprida de bambu que serve para tocar as pedras do fundo do rio e locomover a pequena embarcação). Tudo isso modificou meu corpo, fiquei mais forte e, naturalmente, também transformei meu comportamento. Agora eu estava mais seguro, corajoso, sociável, passei a ser uma pessoa extremamente positiva. Perdi o medo da vida.

E, foi depois disso, quando tinha de 16 para 17 anos, que comecei a formular meu pensamento a respeito do método que desenvolvi. Ainda me lembro do momento em que, jovem, parei sobre a ponte pênsil, que liga São José do Rio Pardo com a ilha São Pedro, e olhando aquelas águas bravias do rio, que corriam agitadas, eu fiz uma promessa: a de que eu iria dedicar a minha vida a fazer as pessoas descobrirem essa força imensa que elas têm dentro delas e que não sabem, seja porque foram anuladas pelos pais, pela escola, pela religião, por toda aquela podação e ideia de pecado.

Sincodiv-SP Online: No que consiste a filosofia desse método?

Nuno Cobra: Consiste no fato de que somos perfeitos. Nosso corpo é feito para funcionar de maneira milimétrica, sem erros. Nada acontece sem uma razão. Se o corpo funciona perfeitamente, você tem uma força, física e mental muito grande e é capaz de grandes feitos. A ideia é alcançar o cérebro através do músculo. Ao se treinar e se preparar, você passa a fazer coisas que antes acharia impossíveis para seu corpo, mas que hoje consegue realizar sem problemas. Com essa constatação, fica mais fácil se desprender também das amarras mentais e ter sucesso em diversas áreas.

Sincodiv-SP Online: E o que são essas amarras psicológicas?

Nuno Cobra: É uma espécie de terrorismo psicológico, que é feito com as crianças pelos pais e pela sociedade, que se instala no subconsciente e afeta o resto de sua vida. Imagine que você chega em casa com o boletim, por exemplo, e recebe broncas se existe ali alguma nota vermelha. Em compensação, as boas notas conseguidas não são lembradas, nem mencionadas.

Sem querer, os pais e as instituições sociais vão podando, castrando as crianças e elas crescem sem aquela força original que lhes pertence. Todos nascemos para sermos vencedores.

Expressões como “você não consegue”, “não é possível”, “eu vou desistir de você, nem o guarda-roupa você consegue arrumar”, que parecem tão inocentes, são as que criam essa incapacidade nas pessoas quando crianças e elas as carregam pelo resto da vida.

Não adianta, depois de anos, te dizerem que você precisa ser forte, corajoso e etc. O estrago já está feito. Você adquiriu as amarras de modo subconsciente, então não é um discurso objetivo que alterará isso. Mudar o relacionamento com seu corpo e sentir-se capaz de coisas que antes não pareciam possíveis atuam diretamente nessa percepção, porém de modo subjetivo. Você não sabe se é capaz, mas você sente que é, e isso faz toda a diferença!

Sincodiv-SP Online: Então isso também tem a ver com uma crença espiritual, de que todos nascem capazes?

Nuno Cobra: Sim e não. Eu sou uma pessoa espiritual e acredito em Deus, mas quem tem um lado preferencialmente científico sabe que o universo é perfeito e atua em sincronia, desde as diferentes forças gravitacionais até as movimentações dos astros.

O organismo humano também é assim. Se você ingere álcool ou alguma substância que faz mal a ele, depois de um curto período de tempo, ele se recupera praticamente sozinho. O corpo é feito para funcionar bem e tudo isso é resultado de uma equação matemática de produção química e funcionamento mecânico que ocorre dentro de nós, desde nossa respiração até as batidas do coração.

O organismo tem um equilíbrio muito perfeito. Seja fruto de Deus ou de poeira cósmica, por assim dizer, temos uma energia e uma força muito grande em nós e fomos feitos para funcionar de maneira perfeita. O meu trabalho é resgatar isso através da sensação de poder, afinal, o homem é um animal emocional.

Sincodiv-SP Online: Se nosso corpo nasceu para ser perfeito, por que, então, somos afetados por doenças?

Nuno Cobra: A doença é uma conquista. Isso soa estranho, mas, como já disse, a capacidade de recuperação do corpo é incrível, ou seja, para se adquirir uma doença é preciso batalhar muito e fazer muita coisa errada durante muito tempo. Só assim conseguimos estragar a ordem de nosso corpo. Isso, claro, tirando as limitações mais graves, doenças e problemas de nascença.

Foi por conta dessas reflexões e de meu método que eu acabei marginalizado do academicismo que, nos idos de 1960, não aceitava minhas ideias e me considerava louco.

Trabalhei à margem e mostrei como as coisas funcionavam. Só começaram a prestar atenção ao que eu dizia depois de 1997, quando a neurociência trouxe novas constatações. Ainda assim, sofri preconceito até quase o ano de 2005, quando passaram a considerar com seriedade o que fiz ao longo de todos estes anos: trabalhar com a inteligência da emoção.

Sincodiv-SP Online: Hoje em dia existe uma busca pelo corpo “perfeito” que nem sempre é inspirada pela saúde, mas, em estereótipos de beleza colocados por influência da mídia, como as modelos, por exemplo. Todos podem alcançar o mesmo padrão corpóreo ideal? Quais são os riscos dessa busca?

Nuno Cobra: Primeiro é preciso entender que o padrão ideal é justamente respeitar a harmonia do corpo de cada um. Cada pessoa tem o seu biotipo e isso deve ser levado em conta. O formato, capacidade de ganho muscular ou explosão dependem muito de cada corpo. O ideal pode ser alcançado, mas será diferente para cada pessoa.

Quanto à busca por um corpo perfeito, tem muita coisa errada. Sei que é uma das poucas soluções das cidades grandes, mas sou totalmente contra academias; pessoas fechadas entre paredes, se exercitando de modo artificial e respirando num ambiente com ar-condicionado.

Eu costumo dizer que “malhar” é para Judas em Sábado de Aleluia. Seu corpo tem de ser tratado com carinho. Quanto mais próximo do natural, melhor. Procure se exercitar ao ar livre, em praças, parques ou mesmo caminhar pelas ruas. É muito melhor e mais produtivo, pois exercita grupos inteiros de músculos e não individualiza esse trabalho muscular. Você adquire uma “força inteligente”, que é prática e útil.

Quanto às modelos citadas como exemplo, acho aquele padrão corpóreo de péssimo gosto. Admiro o esforço que elas fazem para manter aquela forma, mas manter tais medidas reduzidas às vezes agride o corpo. Os estilistas querem colocar as roupas em varetas e não em pessoas. Isso é terrível! Algumas garotas chegam à anorexia por viver nesse meio ou tentar alcançar esse status.

Muitos jovens que se inspiram em modelos da mídia se trancam nas academias e querem apenas desenvolver uma musculatura visível para chamar a atenção. Nessa busca, acabam procurando drogas ou outros produtos que afetem a química do corpo de maneira artificial. Acho isso muito ruim e uma questão de saúde pública. Deveria haver campanhas contra isso nas escolas, hospitais, mesmo nas academias, em postos de saúde e também nos canais de mídia.

Mas, vale dizer, que se a busca pelo corpo ideal for sinônimo de busca por saúde, ótimo – desde que o limite de cada um seja respeitado e não se incorra em excessos!

Sincodiv-SP Online: Já que falou em limites, algumas pessoas acham que o esforço em excesso é a única maneira de se superar e acabam exagerando nos exercícios. Nesse caso, quantidade é qualidade? Qual é a medida ideal de exercícios?

Nuno Cobra: O exercício deve ser sistemático e gradativo. Ou seja, deve ter uma sequência lógica, uma evolução. A disciplina é necessária, mas se torna satisfação. Devemos nos impor algumas alterações na rotina. Além de fazer o que se gosta, é necessário também aprender a gostar do que se faz. Eu uso o exemplo da cerveja. Ela não tem um sabor agradável para quem a toma pela primeira vez, mas as pessoas se acostumam e adquirem o hábito de tomá-la. Depois de um tempo, isso se torna prazeroso. O mesmo acontece com os exercícios.

Dessa forma, a medida ideal de exercícios é aquela que é prazerosa, que te motiva e que te permite um tempo suficiente de descanso, afinal, a busca pela harmonia do corpo está no equilíbrio, inclusive entre o esforço e o descanso.

Sincodiv-SP Online: E quanto ao estresse, o que é exatamente? Numa vida agitada, sem tempo e cheia de trabalho sempre ouvimos falar a respeito. Se o corpo deveria ser perfeito, onde ele se encaixa?

Nuno Cobra: O ser humano é uma composição única, que tem energia e atua nas áreas físicas e psicológicas, sem falar da espiritual. O estresse pode atingir estes dois níveis: corpo e mente. A princípio, o estresse é benéfico, pois nada mais é do que a capacidade que sua mente e corpo têm de alcançar altos padrões de produtividade e eficiência em um curto espaço de tempo.

O estresse, de maneira primitiva, funcionava para fugir de predadores, caçar ou se dedicar à alguma solução mais complexa e é muito importante para a vida. Sua mente e seu corpo ficam mais ativos por uma série de químicas liberadas em sua corrente sanguínea, é uma elasticidade de atuação. O prejudicial é quando se fica numa situação constante dessa natureza.

Além disso, fica uma dica. Para aqueles que trabalham demais ou se preocupam muito com as coisas, saibam que o pensamento ocupativo (quando você precisa executar uma tarefa e se empenha nela) é muito benéfico, mas o pré-ocupativo, ou seja, antes de precisar realizar a tarefa, não faz bem.

O cérebro não diferencia o momento de execução de algo ou o pensamento de execução, sendo que seu corpo entra num estado de estresse antes mesmo do trabalho ser realizado e, como consequência, aumenta muito as chances de se desgastar facilmente.

Um exemplo simples de como a pressão e a preocupação podem desmotivar foi o jogo do Brasil contra a Holanda na Copa do Mundo desse ano. O time brasileiro fez um primeiro tempo fantástico, mas entraram preocupados para a segunda parte e perderam a partida. Provavelmente, o técnico exigiu o gol rapidamente e isso prejudicou o desempenho.

Quem entra num jogo e diz, “tenho que vencer”, terá muita dificuldade e é provável que não consiga, mas aquele que entra dizendo “vou fazer o que eu sei e fazer bonito”, com certeza será o vitorioso.

Sincodiv-SP Online: Qual o mínimo de tempo para se obter resultados após o início da prática de exercícios? Qual é o melhor horário para praticar?

Nuno Cobra: O meu método visa o máximo de aproveitamento no mínimo de tempo possível, mas tudo depende do empenho das pessoas. Não sou um treinador pessoal que fica gritando enquanto o aluno se exercita. Pelo contrário, monto um programa que ele leva para casa e pratica quando pode e onde quer. Se você adquire o hábito de se exercitar, começa a sentir prazer imediato e isso te impulsiona.

Segundo estudos, o melhor horário para os exercícios é na parte da manhã. Isso porque seu corpo se ativa totalmente e você terá um dia muito mais produtivo. Fazer exercícios à noite não é recomendável, pois o corpo fica acelerado e dificulta o estado de sono.

Para atletas, no entanto, o momento de maior produtividade do corpo acontece quatro horas depois de despertarem, ou seja, se a pessoa acordar às seis da manhã, por volta de dez horas será seu melhor horário para os exercícios. Isso nem sempre é possível para os não esportistas profissionais, mas é o ideal.

Sincodiv-SP Online: Qual seria sua dica, então, professor, para quem deseja começar a se exercitar e tentar alcançar esse potencial interno através do músculo?

Nuno Cobra: Fazer pouco e fazer sempre. Não é preciso muito, nem excesso para dar certo. Se você faz demais, você não vai fazer sempre, pois seu corpo não se recupera adequadamente e você se cansa só de pensar no trabalho físico.

Muitas pessoas não se exercitam regularmente, outras se exercitam demais. Aqueles poucos que se encontram no meio disso, no equilíbrio, é que são os vitoriosos e descobrem seu verdadeiro potencial!

Conteúdo produzido por Moraes Mahlmeister Comunicação. Entrevista realizada e redigida por Renan De Simone, editada por Juliana de Moraes. Publicado pelo site do Sincodiv-SP Online em setembro de 2010

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