Eu me lembro dela como se lembra das coisas que não deveriam ter acontecido: com uma mistura indecente de saudade e vergonha. Ela chegou sem pedir licença.
Não houve jantar, flores, música lenta ou aquela liturgia ridícula que inventamos para chamar de amor. Não houve sequer tempo suficiente para que eu descobrisse seus defeitos. Talvez tenha sido justamente isso que me enganou. O amor, quando é verdadeiro, costuma exigir tempo para destruir a fantasia. Ela não me deu esse tempo. Foi imediata.
Um olhar e alguma coisa em mim já tinha decidido por nós dois.
Ela tinha a arrogância das coisas perigosas. Não precisava prometer eternidade porque parecia capaz de me oferecer algo muito mais convincente: alguns minutos em que a eternidade caberia inteira dentro de mim. E eu sabia que havia qualquer coisa de errado.
Éramos dois cúmplices de um crime que ainda não tinha sido cometido. E, mesmo assim, eu queria. Se há pessoas que passam pela nossa vida como quem bate à porta, ela era daquelas que arrombavam com um chute.
Entrou sem cerimônia, sem pedir documentos, sem perguntar meu nome, salário ou profissão. E, quando percebi, já estava dentro de mim. Certas paixões não acontecem no coração. Acontecem em lugares mais primitivos, honestos, talvez. Mais perigosos, definitivamente.
Ela me fez acreditar que eu era invencível.
De repente, tudo parecia mais nítido. As luzes tinham outra temperatura. Os sons pareciam nascer de dentro das paredes. O mundo, aquele mesmo mundo que horas antes parecia uma máquina cansada repetindo seus movimentos, havia recuperado alguma espécie de milagre.
Eu ri. Um riso como de uma epifania.
Não porque houvesse alguma coisa engraçada. Ri porque estava vivo, ou achei que estava por alguns instantes.
Ela tem esse poder. Fazia o sangue correr como se tivesse recebido uma notícia urgente. Fazia o corpo esquecer seus limites, a prudência parecer uma superstição inventada por gente que nunca havia conhecido o prazer de perder o controle.
E eu me apaixonei. Claro! Todo homem é um pouco idiota diante daquilo que o faz esquecer quem era antes.
Ela não dizia “fica”. Dizia, sem palavras, “mais um pouco”.
E eu obedecia. Era assim que funcionava nosso romance. Ela me dava vertigem e eu chamava de felicidade. Roubava meu juízo e eu chamava de liberdade. Fazia meu coração disparar e eu chamava de desejo.
Talvez seja essa a grande mentira de algumas paixões: a gente troca o nome das coisas para poder continuar vivendo dentro delas. Mas eu sabia que havia um preço.
Todo prazer absoluto vem acompanhado de uma pequena nota de rodapé escrita em letras miúdas que ninguém quer ler.
Mas naquela noite eu não estava interessado em letras pequenas. Queria o excesso. Aquele segundo impossível em que o mundo parece finalmente fazer sentido.
Queria esquecer que tudo termina e que teria e recomeçar novamente, as manhãs são bênçãos e preguiças.
E ela era perfeita para fazer-me esquecer. Por algum tempo, foi.
Depois veio o silêncio.
Não aquele silêncio bonito que existe entre duas pessoas que já disseram tudo e estão confortáveis na quietude. Era um silêncio diferente. Um silêncio que parecia ter sido deixado dentro do corpo.
Ela começou a desaparecer. Ou talvez fosse eu quem estivesse desaparecendo.
Aquela euforia toda, aquela sensação quase divina de ter encontrado uma porta secreta para algum lugar onde os homens comuns não entram, começou a cobrar seu preço.
O corpo, que antes parecia uma catedral iluminada, virou uma casa depois da festa. Copos vazios. Luzes acesas em locais onde não deveria, revelando aquilo que desejamos esconder.
Ninguém em casa…
Foi então que percebi a verdade mais cruel sobre ela: ela nunca tinha me amado. Ela só sabia me fazer esquecer de mim. E existe uma diferença monumental entre essas coisas. Ainda assim, não consigo dizer que me arrependo.
Talvez porque certas experiências sejam tão absurdamente intensas que o arrependimento parece pequeno diante delas. Talvez porque exista alguma perversidade em nós que prefere uma noite extraordinária a uma vida inteira de noites iguais.
Ou talvez eu simplesmente ainda esteja tentando transformar uma estupidez em história de amor. Porque é mais bonito dizer que uma mulher entrou em minha vida e mudou tudo.
O difícil é admitir que, naquela noite, eu coloquei alguma coisa no meu corpo e deixei que ela encontrasse o caminho até onde eu guardava meus fantasmas.
Poderia dizer que ela tinha olhos brilhantes, mas eram as luzes. Poderia dizer que ela me abraçou, mas era o sangue correndo depressa demais.
Poderia dizer que ela me beijou… Mas era a substância atravessando a fronteira entre o que eu era e aquilo que, por alguns minutos, pensei que poderia ser.
Poderia dizer que fizemos amor, mas isso seria apenas mais uma mentira bonita. O que aconteceu foi muito mais estranho.
Deixei-a entrar e ela correu por mim. Como um rio clandestino, rápido demais para ser detido, atravessando cada pequena represa do meu corpo, carregando consigo uma promessa que eu não sabia se era de paraíso ou de ruína.
Naquela noite, eu vi o crime. Sabia que estava morrendo de vontade de ficar chapado, alto. Éramos dois do mesmo tipo: eu e ela, feitos para o excesso, para a vertigem, para aquela espécie de felicidade que precisa pedir desculpas na manhã seguinte.
E, quando tudo terminou, quando a noite começou a perder suas cores e o mundo voltou lentamente a ser apenas o mundo… fiquei sozinho.
Ou quase.
Porque ainda havia alguma coisa dela em mim. Alguma coisa que pulsava, que corria. Alguma coisa que, por alguns minutos, tinha transformado minhas veias em uma estrada para o impossível.
Foi então que compreendi. Eu nunca tinha visto o amor dela. Tinha visto apenas o seu rastro, seu fluxo. Seu caminho secreto por dentro de mim. E talvez seja essa a lembrança que ainda me persegue: não o rosto, não o toque, não o nome. Mas aquele instante absurdo em que percebi, tarde demais, que ela não estava ao meu lado. Ela estava dentro de mim, onde eu simplesmente a vi fluir. E ali eu soube… Aquela tinha sido a única vez que sentiria aquilo, pois todas as outras vezes seriam apenas uma tentativa de repetir a primeira vez que a provei!

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