A gente pode criticar a bermuda com camisa, uma agressão à moda que, em alguns casos, deveria até ser prevista em lei. Pode reclamar daquele tênis que não combina com absolutamente nada, do cabelo que parece ter sido penteado pelo vento, da barba que já passou da hora de ser aparada e daquele humor duvidoso que eles insistem em chamar de engraçado.
A gente pode dizer que eles são barulhentos. Que cantam pela casa como se ninguém dormisse no ambiente. Que nos acordam com ideias completamente doidas, geralmente quando ainda estamos tentando entender que dia da semana é.
Podemos reclamar também da ansiedade quando chega a hora de viajar. De repente, eles viram coordenadores de logística: “Vamos! Já está tudo pronto?”. Cinco minutos depois, já estão na porta, enquanto o resto da família ainda procura carregador, documento e dignidade. E, claro, querem organizar todas as malas dentro do carro, porque, aparentemente, existe uma engenharia superior de bagagens que só eles conhecem.
Eles se arrumam em cinco minutos. A gente não entende como. E, pior: às vezes ficam bons. Podemos implicar com tudo isso. E provavelmente vamos continuar implicando.
Mas aí a vida aperta.
E é justamente nessa hora que a gente descobre que, por trás da bermuda com camisa, da barba mal aparada, das piadas duvidosas e da mania de querer resolver tudo do próprio jeito, fazendo gambiarras que duram para sempre, existe um homem em quem a família confia.
É o esforço deles que muitas vezes sustenta a casa. É a coragem deles que aparece quando alguma coisa dá errado. É a disposição de levantar, trabalhar, resolver, tentar de novo — mesmo calado, ou quando ninguém está vendo — que faz a diferença.
E tem aquele sorriso.
Aquele sorriso de orgulho quando olham para os filhos. Um sorriso que talvez eles nem percebam, mas que muda alguma coisa dentro de quem está sendo olhado. Porque existe uma força enorme em perceber que alguém que a gente ama se orgulha da gente.
É o sorriso deles que comemora nossas conquistas. É o abraço deles que acalma. É a palavra deles que, mesmo quando vem acompanhada de uma bronca, costuma carregar a certeza de que existe alguém ali por nós.
E quando a vida exige uma decisão, quando aparece um problema, quando é preciso encontrar uma solução, não é o “Enzo” com pose ensaiada, bigodinho de festa junina, cabelo impecável, ou o cara com tatuagem no pescoço que elas chamam.
Chamam os pais, ou quem está nesse papel!
Porque, no fim, talvez seja isso que a gente constrói sem perceber: a confiança de quem sabe que, quando tudo parece complicado, existe alguém disposto a colocar a mão na massa, puxar a cadeira, pensar junto e dizer: “Deixa comigo, vamos resolver, isso não é o fim do mundo”!
A gente pode continuar reclamando da roupa, do cabelo, da barba, do barulho, das cantorias, das ideias malucas e daquela mania insuportável de querer organizar todas as malas do carro. Mas, quando a vida fica séria, é para nós que eles olham.
E talvez não exista homenagem maior para um pai do que essa: ser aquele em quem os filhos e a família confiam quando precisam de alguém.
Mesmo que, convenhamos, ele ainda esteja usando bermuda com camisa ou aquele tênis de 1980.

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