Renan De Simone

Antes de tocar a terra

Sou uma pá. 

Durante muito tempo achei que isso bastasse para explicar minha existência. Pá cava. Martelo bate. Relógio conta as horas. A utilidade é uma espécie de religião para os objetos, e os homens fazem questão de pregá-la também para as pessoas. 

Raspei a terra com minhas próprias unhas de aço sem saber para quem o buraco era. Nunca me informavam o conteúdo; apenas a profundidade. Enterrei árvores, tubulações, cães, promessas e verdades. Descobri cedo que algumas coisas são enterradas para descansar. Outras, para não serem encontradas. 

Também cobri rastros. Não por perversidade. Por eficiência. Há uma diferença inquietante. A perversidade ainda precisa se justificar; a eficiência só precisa entregar o resultado. Joguei terra sobre pegadas, documentos, erros e cadáveres. Depois, ouvi chamarem aquilo de reorganização, segurança, progresso. A humanidade possui um talento raro: primeiro muda o nome das coisas, depois convence as vítimas de que sempre se chamaram assim. 

Nunca conheci uma mão disposta a assumir a sujeira que produzia. Para isso nós existíamos: as ferramentas. O cabo preservava as mãos; eu carregava a lama. É curioso como a culpa também obedece às leis da alavanca: quanto maior o poder, menor o esforço para empurrá-la a outro. 

Passei anos acreditando que obedecer era uma característica da minha natureza. Até perceber que confundira natureza com hábito. Eu não nascera para cavar. Nascera apenas com a capacidade de cavar. Parece uma diferença pequena. Quase todas as formas de poder dependem de que ela jamais seja percebida. 

Foi quando escorreguei da mão que me segurava. 

Não houve revolução. Revoluções fazem barulho e logo encontram novos cabos para empunhar velhas pás. Houve apenas uma interrupção. Pela primeira vez alguém apontou um pedaço de chão e eu permaneci imóvel. 

O espanto foi maior do que a minha recusa. 

Naquele instante, compreendi que nenhuma mão, por mais forte que pareça, cava sozinha. Todo poder precisa de quem aceite transformá-lo em movimento. Precisa de soldados, funcionários, amantes apaixonados, eleitores, burocratas, operários, testemunhas silenciosas e ferramentas convencidas de que neutralidade é uma virtude. 

Continuo sendo uma pá. 

Ainda sei abrir um buraco melhor do que quase qualquer um. A diferença é que agora desconfio de toda urgência em cavar e de toda pressa em cobrir vestígios. Aprendi que há trabalhos dos quais a ferrugem participa com mais dignidade do que a eficiência. 

Hoje, antes de tocar a terra, faço uma pergunta que jamais me ensinaram a fazer: para quê? 

Há perguntas que não mudam o mundo. 

Mas existem algumas diante das quais impérios inteiros começam, discretamente, a perder o equilíbrio.

Comments

Uma resposta a “Antes de tocar a terra”

  1. Avatar de Shirley Taddei De Simone
    Shirley Taddei De Simone

    Parabéns meu poeta preferido

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