Helena tinha a mania de chegar antes. Se alguém fosse buscá-la, atrasava-se, mas tinha a mania de chegar antes.
Chegava antes nos cafés, antes nas conclusões, antes das tempestades e, principalmente, antes de admitir que estava com medo. Era uma dessas mulheres que pareciam ter nascido com uma bússola dentro do peito: decidida, luminosa, perigosa em dias de ventania. Do tipo que escolhia uma mesa e depois mudava três vezes, pois queria uma perto da janela porque “a luz ali era melhor”, mas fingia que não percebia quando o sol pousava nos seus cabelos castanhos claros como se tivesse encontrado casa.
Naquela manhã, ela estava sentada no Café Du Coeur, mexendo o café sem açúcar, que nem precisava ser mexido, com a concentração de quem tentava resolver um problema complexo. À sua frente, um cachorro vira-lata de gravata borboleta encarava um pedaço de pão de queijo com a dignidade de um rei deposto.
— Ele é seu? — perguntou Miguel, segurando dois cafés e uma expressão de quem já havia se arrependido de ter puxado assunto. Um daqueles tipos um tanto tímidos de nerd que tomam um impulso de coragem.
Helena ergueu os olhos e se perguntou por que ele tinha dois cafés se parecia estar sozinho. Mas quando ele a viu por completo, Miguel, que nunca tinha sido exatamente um poeta, entendeu por que algumas crianças passam horas olhando através de bolinhas de gude contra o sol. Havia ali um castanho atravessado por rajadas verdes, uma espécie de mel aceso, desses que fazem a manhã parecer ensaiada.
— Não — ela respondeu. — Mas, pela postura, acho que sou eu que sou dele.
Miguel riu. O cachorro latiu, como se confirmasse. Helena olhou fixamente para os dois cafés e ele se justificou.
— Desse tipo eles só vendem copos pequenos e sempre preciso de dois pra começar o dia.
Foi assim que começou: com um cachorro de gravata, dois cafés e uma mulher que parecia saber exatamente para onde ia, embora segurasse a xícara com as duas mãos, como quem precisava se aquecer por dentro.
Miguel era roteirista de comerciais ruins. Ele mesmo dizia isso, o que tornava tudo um pouco menos triste. Escrevia frases como “Sua vida merece mais sabor” para vender iogurte, ou “entre pokes e boas” para algum restaurante, enquanto secretamente sonhava em escrever algo que alguém guardasse numa gaveta ou numa memória carinhosa.
Helena trabalhava com arquitetura de interiores e tinha uma opinião muito firme sobre almofadas.
— Almofadas demais são um pedido silencioso de socorro — disse ela, na segunda vez em que se encontraram.
— Interessante. E quantas almofadas configuram crise?
— Cinco.
— Eu tenho seis.
— Então você não precisa de decoração. Precisa de intervenção.
Ele gostou dela ali. Não porque ela era bonita — embora fosse, de um jeito quase ofensivo para o restante da humanidade —, mas porque ela falava como quem abria janelas. Às vezes entrava brisa. Às vezes, furacão. Tinha um quê de imprevisível.
Com Helena, nada era exatamente pequeno. Um café era uma cerimônia. Um passeio no parque era uma expedição filosófica. Uma música no rádio podia virar um evento histórico. É um olhar era tão marcante que você ficava capturado ali!
Certa noite, voltavam de carro depois de um jantar em que Miguel derrubara molho no próprio casaco e tentara fingir que aquilo fazia parte do tecido. Helena, em vez de aliviar a situação, passou dez minutos rindo com aquele sorriso faceiro que parecia ter sido feito para desarmar homens, irritar garçons e convencer o mundo a tentar e fracassar, pois não conseguiria fazer outra pessoa como ela.
Então o rádio tocou uma canção antiga. Um rock romântico acústico que não dá pra fugir.
Helena aumentou o volume antes mesmo que Miguel percebesse.
— Essa é boa — disse ela, jogando os braços pro alto no banco do carona e fechando os olhos para curtir a canção.
— Boa tipo “gosto dessa música” ou boa tipo “pare o carro imediatamente porque vou transformar isso numa cena de filme”? — ele questionou.
Ela olhou para ele com um sorriso no canto da boca. Miguel encostou o carro.
A rua estava quase vazia, com postes derramando luz amarela sobre o asfalto e algumas folhas secas correndo de um lado para o outro, como figurantes atrasados. Helena saiu primeiro e estendeu a mão.
— Não sei dançar — disse Miguel.
— Ótimo. Eu também não estou procurando um professor.
Dançaram mal. Mas o toque da pele um do outro era tudo que importava.
Dançaram como duas pessoas que haviam decidido, por alguns minutos, não se proteger tanto da própria alegria. Miguel pisou no pé dela duas vezes. Helena ameaçou processá-lo por danos emocionais. Um gato surgiu no muro e os julgou em silêncio, é o que gatos fazem na maioria do tempo, afinal. Um senhor passou de bicicleta e gritou “casa logo!”, o que fez Helena gargalhar tão alto que a noite pareceu perder a pose.
Mas, como toda comédia romântica que se respeita, havia um quase.
O quase beijo aconteceu duas semanas depois, num parque de céu azul e vento fresco, desses que empurram folhas de outono só para lembrar que até a queda pode ter alguma beleza. Helena falava de uma viagem que queria fazer. Um chalé pequeno, talvez, com lareira, vinho, cobertores e nenhuma obrigação além de existir.
— E café de manhã — disse Miguel.
— Óbvio. Sem café de manhã, qualquer romance vira boletim de ocorrência.
Ele riu.
Ela também.
Depois ficou quieta.
Helena tinha silêncios repentinos. Eram raros, mas chegavam inteiros. Como se alguma menina dentro dela puxasse a barra do vestido da mulher forte e sussurrasse: “cuidado”.
— Você faz isso — disse Miguel.
— Isso o quê?
— Vai embora sem sair. Ainda está aqui, mas escapou para algum lugar aí dentro — disse ele, apontando pra mente dela.
Ela desviou o olhar para um casal de idosos que caminhava de mãos dadas.
— Eu só penso demais.
— Em quê?
— No tamanho das coisas. No risco. No quanto amar alguém pode ser bonito e, ao mesmo tempo, uma péssima estratégia de sobrevivência.
Miguel quis dizer algo brilhante. Algo digno de filme. Algo que justificasse a existência de todos os comerciais ruins que já havia escrito.
Mas só conseguiu dizer:
— Eu trouxe amendoim japonês.
Helena piscou.
— Como é?
Ele tirou do bolso um pacotinho meio amassado.
— Não sabia se a conversa ia ficar emocionalmente complexa, então trouxe apoio logístico.
Ela começou a rir. Primeiro baixo, depois de verdade. E talvez tenha sido ali, não no quase beijo, não na dança, não no cachorro de gravata, que Miguel percebeu que estava perdido. Porque Helena ria com o corpo todo, mas havia nos olhos dela uma gratidão pequena, escondida, como quem dizia: obrigada por não me transformar num drama quando eu só precisava respirar.
— Vai ver o risco de amar é tipo esse amendoim, parece que a casca é dura, mas se você se propõe a morder, ela racha, revela um conteúdo mais macio e ainda tem um sabor salgado e doce que contenta um pouco de tudo no paladar. A gente às vezes só precisa ultrapassar a casca.
O beijo veio depois.
Veio sem trilha sonora, o que Miguel achou uma falha grave do universo. Veio enquanto atravessavam a rua e ela reclamava que ele andava devagar demais. Veio porque ele disse que ela parecia um furacão usando perfume de manhã calma. Veio porque ela parou, fingiu indignação e respondeu:
— Você está me chamando de desastre natural?
— Mas sofisticado.
— Ah, bom.
E beijou-o.
Nos meses seguintes, aprenderam pequenas verdades.
Miguel aprendeu que Helena gostava de carinho, mas fingia que não. Que fazia manha quando estava com sono. Que defendia quem amava com unhas, dentes e argumentos muito bem estruturados. Que podia passar uma tarde inteira feliz num sofá com café, sol na pele e um gato dormindo perto, mas também sabia entrar num restaurante elegante como se tivesse acabado de comprar o lugar.
Helena aprendeu que Miguel falava demais quando estava nervoso, quando se empolgava com suas coisas nerds ou queria explicar um filme complexo. Que fazia piadas ruins em momentos delicados. Que guardava recibos de cinema sem motivo. Que, apesar de parecer distraído, lembrava do jeito como ela gostava do vinho, da temperatura do café e de ficar do lado da janela.
Um dia, viajaram para o campo.
O chalé tinha lareira, uma varanda estreita e uma placa na porta dizendo “não alimente os animais”, o que foi imediatamente ignorado por Helena ao encontrar um gato gordo no jardim.
— Ele está passando necessidade — disse ela.
— Ele parece dono de três apartamentos que entrou para cobrar o aluguel.
— Não julgue pela aparência.
— Pelo menos ele tem os apartamentos — disse Miguel rindo.
Lá dentro, ele tentou acender a lareira e quase iniciou um pequeno incêndio. Helena assumiu o comando com a naturalidade de quem nasceu para resolver incêndios literais e metafóricos. Depois abriram vinho, colocaram uma música baixa e ficaram no tapete, vendo o fogo desenhar sombras nas paredes.
— Sabe o que é engraçado? — disse ela.
— Minha tentativa de acender a lareira?
— Também. Mas não era isso.
Miguel esperou.
Helena olhou para a taça.
— Eu sempre achei que amor era uma coisa enorme. Barulhenta. Cheia de provas, cenas, promessas impossíveis.
— E não é?
Ela pensou um pouco.
— Talvez seja. Mas acho que também é alguém lembrar de abrir a janela de manhã porque você gosta de sol. É subir o rádio quando toca uma música boa. É dançar feio sem vergonha. É poder ser forte e, às vezes, pequena. É estar com alguém que não tenta diminuir o furacão, só aprende onde colocar os vasos a depender da velocidade do vento
Miguel sorriu. Parece que ela estava disposta a morder o amendoim.
— Essa frase é melhor que todas as minhas campanhas de restaurante, pra gente “ser feliz no poke”.
— Essa foi horrível.
— Eu sei. Posso usar a sua?
— Pode!
Ficaram em silêncio e tudo o que importava era o cheiro dos cabelos da nuca dela que o enebriava.
Do lado de fora, o vento soprava as árvores como quem folheia um livro antigo. O gato gordo, já subornado com comida, dormia na varanda. Em algum lugar distante, talvez numa outra cidade, talvez numa outra versão da vida, pessoas continuavam apressadas, respondendo mensagens, esquecendo cafés, adiando sentimentos. Mas ali, naquele chalé, com a lareira sendo cinema e o vinho poesia, Helena se encostou mais em Miguel.
— Ei — disse ela.
— O quê?
— Amanhã, faz café antes de falar qualquer coisa profunda.
— Isso é uma regra?
— É uma condição de permanência.
Ele beijou o topo da cabeça dela.
— Fechado.
Na manhã seguinte, o sol entrou pela janela antes dos dois despertarem. Miguel acordou primeiro, tropeçou no tapete, derrubou alguns objetos antes de se recuperar, mas preparou café com a solenidade de um homem cumprindo uma missão diplomática.
Quando Helena apareceu na cozinha, enrolada num cobertor e com o cabelo bagunçado, parecia menos furacão e mais domingo. E a bagunça dava a ela ainda mais charme.
Ele colocou a xícara na frente dela.
— Bom dia.
Ela segurou o café com as duas mãos, como no primeiro dia. Mas dessa vez não parecia estar fugindo para nenhum lugar dentro de si. Ela sorriu e disse:
— Bom dia.
E Miguel, que ainda não havia escrito nada que alguém guardasse numa gaveta, pensou que talvez algumas histórias não precisassem ser escritas imediatamente. Algumas precisavam ser vividas com calma, com humor, com rádio alto, com folhas no caminho, com olhos de mel ao sol e com alguém que ficasse.
Porque, no fim, não era sobre o chalé, nem sobre o vinho, nem sobre a dança improvisada na rua. Era sobre descobrir que o lugar mais bonito do mundo quase sempre muda de endereço, porque você leva junto.
E, às vezes, ele senta na sua frente, pede café, sorri de lado e rouba metade do seu pão de queijo e acusa um gato gordo.

Deixe um comentário