Há uma piada antiga, dessas que parecem ter sido inventadas durante uma conversa entre dois amigos com sono, naquele ponto em que a sensação de cansaço já funciona quase como o efeito do álcool e em que tudo é engraçado. Ela é sobre um homem que vinha andando tranquilamente pela rua quando avistou outro homem com duas bananas enfiadas nos ouvidos.
Eram bananas maduras, curvas, ostensivas, uma em cada ouvido, como se o sujeito tivesse colocado um real esforço naquilo.
Intrigado, o primeiro homem se aproximou e perguntou:
— Por que você está com duas bananas enfiadas nos ouvidos?
O outro respondeu:
— Quê?
O homem repetiu, um pouco mais alto:
— Eu perguntei por que você está com duas bananas enfiadas nos ouvidos!
— Quê?
Já impaciente, o primeiro gritou:
— POR QUE VOCÊ ESTÁ COM DUAS BANANAS ENFIADAS NOS OUVIDOS?
Foi então que o outro, irritadíssimo, respondeu aos berros:
— FALE MAIS ALTO! VOCÊ NÃO VÊ QUE EU ESTOU COM DUAS BANANAS ENFIADAS NOS OUVIDOS?
A piada nonsense funciona porque, como toda piada boa, termina onde começa a filosofia. Rimos do homem das bananas, mas a verdade é que passamos boa parte da vida enfiando frutas metafóricas nos próprios ouvidos e reclamando do volume do mundo. Ou tentando descobrir o porquê dos ouvidos alheios estarem preenchidos.
Há quem chame isso de teimosia, há quem chame de convicção. Em certos círculos, chama-se opinião, às vezes de relacionamento, em outros, liderança. Será que seria insanidade? Já que, segundo Erasmo, a loucura é um patrimônio da humanidade…
A questão que se coloca — e se impõe com a delicadeza de uma banana no canal auditivo — é a seguinte: o que é pior? Ser louco e saber disso, ou agir como louco acreditando ser a última sentinela da razão?
O louco consciente, se me permitem a expressão, tem ao menos a elegância do aviso prévio. É como uma casa com rachaduras aparentes. Você entra sabendo onde pisa. Ele diz: “Não repare, hoje estou meio fora de mim”, e a frase, ainda que não resolva o problema, oferece um mapa. Há uma honestidade quase nobre em reconhecer o próprio desarranjo.
Já o ensandecido sem ciência de si é mais perigoso. Não por ser mais louco, necessariamente, mas por se imaginar lúcido. Ele não tem bananas nos ouvidos; ele tem certezas. E certezas, ao contrário das bananas, raramente amadurecem. Apodrecem direto. É como o homem da bíblia que tem a trave no olho, mas olha apenas ao cisco alheio. Analisa o outro, o psicologiza, descobre seus profundos problemas… E nem arranhou a superfície de si mesmo.
O homem que sabe estar perdido talvez aceite uma bússola. Já aquele que se julga mapa, bússola e ponto de chegada costuma levar consigo um pequeno séquito de náufragos.
Conhecemos todos alguém assim. Às vezes no trabalho, na família, às vezes no espelho às sete da manhã, logo depois do café. Pessoas que não escutam, mas exigem explicações. Que interrompem a conversa para reclamar da falta de diálogo. Que criam o incêndio, ligam para os bombeiros e depois reclamam do barulho da sirene.
Não são, necessariamente, más. Esta é a parte mais incômoda. A insanidade cotidiana raramente vem vestida de vilania. Ela aparece em um texto cheio de conselhos que cai no seu e-mail, em uma postagem coach nas redes, de camisa social, com agenda cheia, dizendo “vamos alinhar” enquanto desalinha a alma de todos ao redor, ela vem como “a chave”, “o código”, mas trava, em vez de abrir portas.
Há também os pequenos surtos. O sujeito que buzina no congestionamento como se o barulho abrisse uma passagem no tecido da realidade. A pessoa que manda “só mais uma observação” em um e-mail de trinta parágrafos. O cidadão que entra no elevador, no metrô por em um estabelecimento antes de deixar os outros saírem, com a confiança de quem descobriu uma nova física dos corpos.
Ninguém se considera insano nessas horas. Somos todos, em nossa autobiografia íntima, vítimas da falta de bom senso alheio.
O problema é que a loucura dos outros nos parece sempre mais óbvia, fácil de resolver, de perceber. A nossa, quando aparece, ou é de um tipo decorativa, quase estética, ou vem acompanhada de justificativas sólidas. Eu não estou gritando; estou sendo claro. Eu não estou exagerando; estou contextualizando. Não sou louca, estou dando conselhos de vida que aprendi vivendo na minha cabeça. Eu não estou com bananas nos ouvidos; estou apenas usando uma fruta como dispositivo temporário de proteção acústica e emocional.
A insanidade, portanto, talvez não seja o contrário da razão. Talvez seja a razão apaixonada demais por si mesma. Um raciocínio que perdeu o pudor. Uma lógica embriagada que, ao tropeçar, declara que o chão é que se moveu.
E o que fazer quando encontramos alguém assim?
A primeira tentação é gritar. É natural. O homem da piada também gritou. Acreditamos que, se aumentarmos o volume, a quantidade, as cores, os estímulos, então finalmente seremos compreendidos. Mas há ouvidos obstruídos que não sofrem de audição, sofrem de arquitetura moral. A base está prejudicada. Gritar diante de certas bananas apenas confirma, para o bananeiro, que o mundo é histérico. E a depender de quem está gritando à sua frente, o jogo se inverte e às vezes é bom colocar as bananas nos ouvidos.
A segunda tentação é arrancar as bananas à força. No entanto, além de deselegante, costuma produzir mártires. Nada fortalece mais a insanidade do que a oportunidade de se declarar perseguida. E são tantos perseguidos, tantos coitados, tantos sofredores cheios de razão. Periga faltar banana. Ou talvez esteja faltando e este seja o problema.
Talvez o melhor seja começar com uma pergunta simples, sem demasiada esperança:
— Você percebe que está com bananas nos ouvidos?
E aguardar. Não se esqueça de gesticular de leve, sem sobressaltos, pois é preciso mais de um tipo de linguagem quando um dos canais de comunicação está obstruído.
Se a pessoa responder “quê?”, há ainda uma chance. Se responder “que bananas?”, convém recuar alguns passos. Se disser que as bananas são, na verdade, uma inovação estratégica, talvez seja hora de procurar outra calçada.
Agora, se a pessoa disser que não há bananas… Silencie, cale-se. E convém verificar seus próprios ouvidos para que se certifique de não estar comendo o mesmo ato do próximo.
A vida exige de nós uma diplomacia frutífera. Nem todo absurdo merece combate. Alguns merecem distância. Outros, silêncio. Uns merecem compaixão, porque todos nós já fomos, em alguma tarde infeliz, o homem das bananas.
A diferença está em descobrir se somos capazes de rir quando alguém aponta para nossas orelhas.
No fundo, talvez a sanidade não consista em nunca enlouquecer. Isso seria pedir demais a uma espécie que inventou o horário comercial, a reunião de condomínio, as redes sociais que afastam a sociedade e o grupo de WhatsApp da família. Sanidade talvez seja apenas a capacidade de, em determinado momento, apalpar a própria cabeça e dizer:
— Espera. Tem alguma coisa aqui.
E então, com alguma vergonha, mas também com certo alívio, retirar as bananas.
O mundo não fica imediatamente melhor. Continuará barulhento, contraditório, cheio de pessoas pedindo que falemos mais alto enquanto cultivam suas próprias obstruções tropicais. Mas já é alguma coisa escutar de novo. Mesmo que, ao longe, alguém ainda grite:
— Quê?

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