Renan De Simone

As três sextas-feiras

Sexta-feira sempre foi um dia mágico. Não importa a fase da vida, ela carrega consigo aquela sensação de liberdade iminente, de possibilidade de fazer algo diferente. Mas, em cada etapa, essa expectativa muda de forma. Na infância, adolescência e vida adulta, as sextas assumem significados distintos, mas sempre trazendo um gosto especial de que o fim de semana está logo ali, com nuances diferentes.

Nostalgia? Talvez, sou nostálgico por natureza. No entanto, o mais curioso é que, olhando para trás, não se trata de qual momento foi “melhor” que outro, e sim de entender que cada um teve seu brilho único, enquanto era vivido.

Na primeira sexta-feira, lá na infância, o encanto estava na simplicidade. Eu esperava, claro, pelo fim de semana, mas não porque queria fugir da escola, sim, eu sou estranho, sempre gostei de ir à escola. A relação com professores, amigos e aquele ambiente todo me fazia bem (bastante mal algumas vezes também, mas, ora, nada na vida é 100%, né?). O que eu aguardava com mais ansiedade era o fim da tarde, quando meus pais chegavam do trabalho.

À época, eu ficava na casa dos meus avós logo depois da escola e era lá que meus pais me buscavam, a mim e a meu irmão. Ou eles iam para lá e pedíamos pizza, e à noite se dava ao redor da mesa dos meus avós, ou saíamos todos juntos – eu, meu irmão e meus pais – para comer na padaria. Lembro do cheiro dos lanches, especialmente do x-bacon, meu favorito. Aquele era o nosso momento de conexão, sentados ao balcão ou ao redor de uma mesa, conversando sobre a semana, ouvindo histórias dos mais velhos, aprendendo na prática sobre a vida.

O movimento da padaria se integrava ao cenário familiar. As pessoas conversando, um bêbado chato que às vezes estava ao balcão, o copeiro sempre simpático e atencioso com a gente. Momentos que se fixam em nós.

A segunda sexta-feira veio na transição da adolescência para o jovem adulto. A expectativa era outra, agora centrada nos amigos, nas saídas para bares, festas e pubs. Era como se a sexta-feira nos liberasse para explorar o mundo à nossa maneira. Eu já era apaixonado pela noite em si, mas ali algo se fortaleceu.

As conversas iam longe, começando no carro a caminho da festa e se estendendo até o amanhecer, quando muitas vezes dormíamos na casa de um amigo depois de uma longa noite de risadas e reflexões. Sim, havia aquela sensação de que “hoje vamos conhecer alguém”, existia a sensação de um acordo tácito de que saíamos em busca de romance, mas, no fundo, o que realmente importava era estar ali, juntos, falando de tudo e de nada, compartilhando nossos dilemas e descobertas.

O ritual de sentar à mesa em um fim de noite para comer algo para a larica da madrugada, discutir as pequenas coisas da vida e criar memórias em conjunto fazia com que cada sexta fosse mágica. As festas eram desculpas, no final, bem como a bebida ou qualquer coisa assim, valia o papo e cantar alto no carro as canções que todos conheciam.

E então, a terceira sexta-feira, já na vida adulta. Agora, o prazer de uma sexta à noite vem de coisas simples, como levar a família para jantar ou assistir a um filme no sofá. Não é mais sobre virar a noite (hoje isso parece dengue na minha idade), mas sim sobre compartilhar momentos de calmaria, ouvir como foi a semana dos filhos, dos parceiros, dos familiares.

O sorvete ou o açaí depois do jantar tem um gosto de celebração, de um término de dia vitorioso. É a constância de estar presente, de viver o momento, que transforma a sexta-feira em algo especial.

Não sei quantas sextas ainda virão, ou se algo morre sobre este dia em algum momento. O que sei é que, seja no lanche da infância, seja no papo com os amigos ou no jantar em família, ele sempre está lá, como uma porta saborosa para o final de semana.

De uma forma ou de outra, o x-bacon ainda é um protagonista da minha sexta-feira!

Comments

Uma resposta a “As três sextas-feiras”

  1. Avatar de Shirley
    Shirley

    Saudades dessas sexta feira na padaria 😘

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