Não consigo secar todas as suas lágrimas, nem as que outras pessoas causaram e nem aquelas que eu mesmo provoquei. Houve um tempo em que umedecer seus lábios com os meus pareceu suficiente para afastar as aflições da vida, mas talvez o peso das coisas acumuladas tenha superado isso.
Hoje umedeço seus olhos, sem querer, às vezes sem saber…
O problema de ter um coração grande demais é se perder dentro do próprio peito. Vasculho e me sondo sem me achar nunca por completo.
Seria fácil largar o detalhe da existência, parece um alívio quando penso nisso. Mas, Deus, sei que ainda tenho amor em mim, apesar da agonia e da angústia.
Talvez eu tenha sido investido de muito amor e a vida não pode se desprender de mim enquanto não doar um pouco de todo esse carinho que a família, amigos e Deus me deram…
E a cada amor que espalho, me perco e me dissipo, me dissolvo e sopro como areia ao vento. E, no entanto, me reconstruo logo à frente em outro castelo, de areia, sim, mas com sua beleza temporária.
Quando será que tive a chance de me desprender de ti sem que parte de mim ficasse contigo e sem sentir que eu estava levando você comigo também?
Ninguém explica Deus, mas seus filhos também não, complexos demais para caber em definições simples! Filhos de eterno e feitos de pó, ancestrais e temporários, legado e passageiros. Somos tanto, mas me preocupo com esse fino fio de água salgada escorrendo pelos seus olhos. Porque, de repente, tudo que importa é o brilho que vejo neles, nas cores que enxergo quando estão perto dos meus.
É ali que o mundo se resume, se confunde e se eleva. Se o caos te domina, domina-me a aflição; se algo te cala como um grito não dito, é minha garganta que aperta. Se suas mãos não têm forças de carregar o dia, levo para ti, mas quando não me quer a seu lado, o fardo é todo meu e o silêncio pesa remoendo em um desespero ensurdecedor.
O céu cinza se fixou em mim e o rumo do dia a dia ficou difuso, e é minha boca que seca, nervosa, sem saber seguir. Não sou quem sou desde que parei para pensar quem eu era. Sou eu apenas quando não olho para mim mesmo, pois sou um pouco de cada um que amo e que me compõe quando me esqueço. Não consigo secar suas lágrimas, mas nada me impede de tentar, mesmo que me desfaça e me dilua em ti. Pois perder-se em seu universo ainda é encontrar a mim mesmo de alguma maneira, lá onde meu eu é mais que apenas um.

Deixar mensagem para Shirley Cancelar resposta