Renan De Simone

Arrumando as caixas…

Fui organizar o sótão e o porão

E achei caixas de lembranças

Quase as levei ao portão

Pois o adulto que sou não precisa da criança

.

Quis dar uma olhada antes de largar,

Foram horas revirando quem fui.

Bastaram sorrisos e lágrimas para me arrastar

A uma torrente de memórias que flui.

.

Da criança quieta ao adulto falador,

Parece haver abismo sem fim,

Mas é continuidade daquela garganta com ardor

Que segurava palavras apenas para mim.

.

Meu lado sombrio tinha domínio,

Eu não queria ser assim,

Investi no raciocínio

Troquei não pelo sim.

.

Você era o melhor que conheci,

Me ajudou a esconder aquela minha face,

De alguma forma teve de partir

E agora espero até que passe.

.

A dor, o medo e a saudade,

Uma hora eles passam, não?

Porque preciso da minha bondade

Em algum ponto devo encontrar o chão.

.

Tanta coisa perde sentido ao se avançar

Que seguir em frente é quase insano.

Quantas vezes meu desejo era parar,

Fazer do presente o soberano…

.

E cá estou com tudo que me fez,

Olhando caixas, imagens, momentos.

Lembrando o que perdi de vez

Onde se fixaram meus suspiros de lamentos.

.

Pensando: quem ficou entre a criança e o velho?

O que restou do que se quis e o que aconteceu?

Sou o pequeno quieto que espero,

Ou sou o alto barulhento de muito adeus?

.

Sou o tolo de esperança sonhador?

Ou, quem sabe, o desiludido de si.

Aquilo que faz ser quem sou

É o que me restou, ou um pouco de tudo que perdi?

.

E me dou conta do óbvio tão claro:

Minha casa não tem sótão e muito menos porão.

Ainda há certo doce no sabor amaro

De saber que tais memórias habitam minha emoção .

.

O terrível que habita meu peito

Respeita o bom que o tenta conter,

Pois também sabe que é preciso um jeito

De seguir sem destruir o viver.

.

Você me incentivou a ser melhor,

Cobrando de mim um passo a mais.

Acabei sendo eu o menor

Comparando tudo que me mostrou como é que se faz

.

Na época, quando imaginava crescer,

Queria ser como você.

Agora que cresci, ainda quero ser

Mas não sei como fazer

.

No fogo ardente

Salvou pessoas e lembranças.

Eu sou imitação de gente

Perto da sua força e esperança.

.

Tenho de construir e lapidar

O homem que nunca alcancei ser,

A vida talvez seja curta para chegar

Até a metade de tudo que vi em você.

.

Quando quem traz o melhor de nós se vai

Como seguir em frente apenas consigo?

Tento suspirar mas o ar não sai.

Sem você por perto, sou meu próprio inimigo.

.

Sento à árvore que é tua

Murmuro palavras pra te buscar,

Pergunto se me escuta, fitando a rua

E é como se você secasse as lágrimas que estão a rolar

.

Minha revolta incendeia o mundo

E me conter é preciso, fundamental.

Porque no calor do meu peito profundo,

Se não me seguro, o estrago é físico e emocional.

.

Porque o mundo é frágil e já te contei,

Ele não suporta o outro eu em mim.

Tão cheio de coisas pelas quais passei

Tão desejante do pós, do caos e do fim.

.

O que faço, então, com meus mitos familiares?

Como lidar com cada lembrança distante

Que se faz tão presente em tais ares?

Quedo-me como infante

Ou sigo, achando-me perdido entre tantos lares?

.

Arrasto a caixa novamente

Penso: onde fica, onde estava?

Trouxe ela dor pungente,

Ou será que a cada memória me purificava?

.

Fecho a caixa, ponho ao canto

Deixe acumular sobre ela o pó.

É melhor ficar aqui fora apenas o santo,

Deixe oculto aquele que não sente pena nem dó.

Visto cabreiro meu manto,

No frio intenso como um esquimó,

Porque aprendi bem a prender-me um tanto

Fechado em uma tumba como faraó.

Suprime a fraqueza e o pranto,

Arruma teu jeito de desfazer esse nó,

Machucado vivo, no entanto,

Sem ti, caminho em silêncio e só

Não sou você, não tenho seu encanto

Me ajusto tal criança, como posso, em seu velho paletó.

.

Pois, agora, depois de crescer

Queria ser como você.

Mas já que não sei como fazer

Sigo em frente até que a gente possa se ver…

Comments

Uma resposta para “Arrumando as caixas…”.

  1. Avatar de Shirley
    Shirley

    lindo parabéns

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