Fui organizar o sótão e o porão
E achei caixas de lembranças
Quase as levei ao portão
Pois o adulto que sou não precisa da criança
.
Quis dar uma olhada antes de largar,
Foram horas revirando quem fui.
Bastaram sorrisos e lágrimas para me arrastar
A uma torrente de memórias que flui.
.
Da criança quieta ao adulto falador,
Parece haver abismo sem fim,
Mas é continuidade daquela garganta com ardor
Que segurava palavras apenas para mim.
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Meu lado sombrio tinha domínio,
Eu não queria ser assim,
Investi no raciocínio
Troquei não pelo sim.
.
Você era o melhor que conheci,
Me ajudou a esconder aquela minha face,
De alguma forma teve de partir
E agora espero até que passe.
.
A dor, o medo e a saudade,
Uma hora eles passam, não?
Porque preciso da minha bondade
Em algum ponto devo encontrar o chão.
.
Tanta coisa perde sentido ao se avançar
Que seguir em frente é quase insano.
Quantas vezes meu desejo era parar,
Fazer do presente o soberano…
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E cá estou com tudo que me fez,
Olhando caixas, imagens, momentos.
Lembrando o que perdi de vez
Onde se fixaram meus suspiros de lamentos.
.
Pensando: quem ficou entre a criança e o velho?
O que restou do que se quis e o que aconteceu?
Sou o pequeno quieto que espero,
Ou sou o alto barulhento de muito adeus?
.
Sou o tolo de esperança sonhador?
Ou, quem sabe, o desiludido de si.
Aquilo que faz ser quem sou
É o que me restou, ou um pouco de tudo que perdi?
.
E me dou conta do óbvio tão claro:
Minha casa não tem sótão e muito menos porão.
Ainda há certo doce no sabor amaro
De saber que tais memórias habitam minha emoção .
.
O terrível que habita meu peito
Respeita o bom que o tenta conter,
Pois também sabe que é preciso um jeito
De seguir sem destruir o viver.
.
Você me incentivou a ser melhor,
Cobrando de mim um passo a mais.
Acabei sendo eu o menor
Comparando tudo que me mostrou como é que se faz
.
Na época, quando imaginava crescer,
Queria ser como você.
Agora que cresci, ainda quero ser
Mas não sei como fazer
.
No fogo ardente
Salvou pessoas e lembranças.
Eu sou imitação de gente
Perto da sua força e esperança.
.
Tenho de construir e lapidar
O homem que nunca alcancei ser,
A vida talvez seja curta para chegar
Até a metade de tudo que vi em você.
.
Quando quem traz o melhor de nós se vai
Como seguir em frente apenas consigo?
Tento suspirar mas o ar não sai.
Sem você por perto, sou meu próprio inimigo.
.
Sento à árvore que é tua
Murmuro palavras pra te buscar,
Pergunto se me escuta, fitando a rua
E é como se você secasse as lágrimas que estão a rolar
.
Minha revolta incendeia o mundo
E me conter é preciso, fundamental.
Porque no calor do meu peito profundo,
Se não me seguro, o estrago é físico e emocional.
.
Porque o mundo é frágil e já te contei,
Ele não suporta o outro eu em mim.
Tão cheio de coisas pelas quais passei
Tão desejante do pós, do caos e do fim.
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O que faço, então, com meus mitos familiares?
Como lidar com cada lembrança distante
Que se faz tão presente em tais ares?
Quedo-me como infante
Ou sigo, achando-me perdido entre tantos lares?
.
Arrasto a caixa novamente
Penso: onde fica, onde estava?
Trouxe ela dor pungente,
Ou será que a cada memória me purificava?
.
Fecho a caixa, ponho ao canto
Deixe acumular sobre ela o pó.
É melhor ficar aqui fora apenas o santo,
Deixe oculto aquele que não sente pena nem dó.
Visto cabreiro meu manto,
No frio intenso como um esquimó,
Porque aprendi bem a prender-me um tanto
Fechado em uma tumba como faraó.
Suprime a fraqueza e o pranto,
Arruma teu jeito de desfazer esse nó,
Machucado vivo, no entanto,
Sem ti, caminho em silêncio e só
Não sou você, não tenho seu encanto
Me ajusto tal criança, como posso, em seu velho paletó.
.
Pois, agora, depois de crescer
Queria ser como você.
Mas já que não sei como fazer
Sigo em frente até que a gente possa se ver…

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