Uma hora a morte vai me pegar. Não sei exatamente quando ou qual desculpa ela vai inventar para me levar, mas vai.
Ela está perto, sempre esteve. Rodando minha cama quando criança, sussurrando acima do meu ombro nos jantares em família.
Em algum momento a gente vai se encontrar e eu não tenho medo, me familiarizei com sua presença, mas, acima disso, me acostumei a ser curioso…
É isso, quando a vida não faz sentido e, acredite, ela perde o pouco de significado que tem diversas vezes, como areia escorrendo por entre meus dedos. Nesses momentos, sigo em frente por curiosidade, talvez até um pouco mórbida, vendo outro dia amanhecer só para ver o que é capaz de acontecer. E a vida costuma ser boa nisso, em me surpreender e me entreter até que passe outra onda pesada sobre mim, mesmo que às vezes eu mesmo seja o causador da turbulência.
A curiosidade também me faz afastar o medo da morte, do depois. Seja lá o que for, deve ser algo diferente, interessante, pelo menos por um tempo… E, se não for, se não houver nada, pelo menos não preciso me preocupar: o triunfante fim das ansiedades que angustiam esse peito que não entende exatamente pelo que bate. Esse cara que não sabe para que serve ou que tipo de diferença faz por aqui. E que, quando pensa, tende a ver mais as coisas ruins que causa do que outras. Se é que outras existem.
Como diz a canção, o meu sorriso parece fora de lugar e é fácil de ver o rastro de minhas lágrimas se você olhar um pouco mais de perto. No entanto, isso não é um convite. Se eu não te fiz bem com meu riso, não serão minhas lágrimas que o farão.
Elas são minhas, mas insistem em escorrer, não importa o quanto eu as enterre em mim.
Sim, a morte me ronda, mas não a desejo, vou dar um pouco mais de trabalho para essa safada. Provavelmente, isso será pior pra mim, afinal, só morre como um cara legal quem não teve tempo de se tornar um vilão. Tempo demais caminhando nessas veredas se torna perigoso para o legado que queremos deixar.
Ela ainda está aqui, nessas palavras… estranhamente ela faz estar naquilo que deixo de mais presença no mundo, minhas letras. E são justamente minhas palavras que me fazem ser o que sou quando aqui não estou.
Sou feito de saudades, de um futuro envolto em brumas. Sou feito de um desejo de eternidade condensado em um coração finito que aceitou a morte e, talvez por isso, engane-a e consiga superá-la de alguma forma. Nem que seja vivendo escondido nas lembranças de pessoas que me quiseram bem ou em quem, de repente, meu riso deixou marcas, ou minhas lágrimas, essas desgraçadas têm seu poder…
Uma hora ela vai me pegar, a morte, mas as pegadas que tenho deixado de rastro no mundo já valem algo, nem que seja por um tempo, nem que seja para alguém. Seja como um vilão, seja com um legado que vale a pena levar adiante, pelo menos por um tempo, num riso ou numa lágrima…

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