Esse fim de tarde estava passando por uma daquelas ruas que a gente sempre passava, sabe? E aí eu vi que uma daquelas quadras em que jogávamos bola quando criança foi demolida. Não sei nem se dá para dizer que uma quadra foi demolida porque, no seu próprio jeito de ser, ela já era um espaço aberto, mas ela desapareceu e ali tem um canteiro de obras para um prédio novo.
Provavelmente, esse prédio também vai ter uma quadra, com algumas outras áreas de lazer, mas elas vão ser diferentes, elas não vão ser a “nossa quadra”, elas não vão ser aquele nosso espaço em que a gente brigava tanto por uma bola e cada disputa parecia valer a vida.
Sei que eu não jogava muito bem, nunca joguei, na verdade, mas estar ali, rodeado de amigos correndo, disputando cada passe parecia valer alguma coisa, até porque, depois, quando a gente fazia uma vaquinha para comprar um refrigerante ou mesmo um cachorro-quente, às vezes era um pastel, aquilo era a união…
A gente se juntava para discutir como é que tinha sido o jogo, aproveitava para falar das angústias que estavam no nosso coração, fosse da escola, fosse por causa de alguma garota ou até de alguma briga com outro amigo do grupo. A gente estava tentando entender a vida a cada passo e a cada passe de bola, a cada conversa, sentados no chão abraçando os joelhos, suados, na expectativa de entrar de próximo no jogo talvez.
A vida é estranha, a gente vai vivendo um dia após o outro e às vezes eles parecem lentos, às vezes parecem tão rápidos a ponto de não deixar a gente entender como tudo está acontecendo. Aí, de repente, a gente é adulto e tem uma hora inteira de almoço, mas, de alguma maneira esquisita, ela parece bem menor que os 15 minutos de intervalo que tínhamos na escola…
Hoje nós olhamos uns nos olhos dos outros e ainda sentimos aquela mesma amizade, que foi fundada num tempo tão simples e tão único no qual a alma de cada um parecia mais fácil de decifrar. Antes desse monte de aparência querer se acumular em cima da gente, antes desse monte de camadas e filtros que fazem a gente quase nem ser humano para quem só nos conheceu agora.
Meus amigos, passei em frente à quadra e ela não estava mais lá. Às vezes me pergunto se nós ainda estamos aqui mesmo ou se já somos outras pessoas. Não digo isso por querer romantizar, como se eu gostasse de olhar a vida como se fosse por um retrovisor, não! Digo isso porque é parte de nós e, às vezes, quando caminho pelo nosso bairro, pela nossa cidade, vejo que muitos dos nossos locais foram desaparecendo, foram mudando, e eu me questiono “o que faz de nós o que nós somos?”.
Será que são nossas memórias, quem sabe os locais, que já não estão mais lá, algumas pessoas que também se foram. Quando as pessoas com quem vivemos e por quem fizemos tanto se vão, assim como os locais, será que a gente ainda existe?
Como é que pessoas como a gente podem permanecer num mundo e numa realidade tão transitórios?
Não sei… talvez vocês saibam, meus amigos. Eu não sabia nem chutar aquela bola, na verdade, mas eu tentava, assim como sigo tentando viver cada dia, e sei que vocês também estão tentando.
Passei em frente à quadra e ela não estava lá. Como memória corporal, chutei de leve uma pedra na rua, como sempre, não acertei nenhum alvo decente.
Estou por aqui, meus amigos, pelo menos por enquanto. Eu, meu olhar de retrovisor e um suspiro saudoso no peito que nunca me abandonou, desde moleque.

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