Quero compartilhar uma experiência muito especial que vivi na noite de 28 de maio, em São Paulo, no Espaço Augusta de Cinema: a pré-estreia do documentário Doar, dirigido por Sérgio Rizzo, que tive o prazer de ter como professor ainda no início de minha graduação (não, não vou contar minha idade!) e, depois, em outros cursos de jornalismo cultural e de cinema. Além disso, Rizzo foi um dos doutores avaliadores da minha banca de mestrado, em 2023, momento que me senti honrado (e com medo).
Voltemos à noite fria de terça-feira. A atmosfera do evento era vibrante e acolhedora, com aquele ar de antecipação e expectativa positivas que antecedem momentos únicos. Curiosamente e sem combinar, reencontrei amigos, colegas novos e antigos. Para mim, foi um momento de reconexão e celebração. Pudemos atualizar assuntos, compartilhar nossa paixão pelo cinema e criar novas memórias.
Já na sala, foi um prazer conhecer as pessoas por trás de todo o trabalho do documentário. Como jornalista que está (como deve ser) sempre buscando jogar luz às histórias de outras pessoas, sei que nem sempre as equipes têm este espaço. Foi prazeroso acompanhar e vê-los identificados e reconhecidos ali.
Sobre o filme, é um abrir de olhos e do coração!
“Doar” é um documentário que aborda a cultura da doação no Brasil, destacando tanto a solidariedade dos brasileiros quanto as barreiras para transformar esse ato em um hábito comum, não apenas em momentos de tragédia. Curiosamente, o filme, que está sendo realizado desde 2023, teve sua estreia bem próxima da triste tragédia que acompanhamos no Rio Grande do Sul e que, ainda bem, mostrou grande mobilização e generosidade brasileira para as doações.
O filme de cerca de 70 minutos narra histórias de vida impactadas pela doação e é um tipo de homenagem às pessoas comuns que fazem a diferença com seus gestos altruístas, trazendo histórias de diversas regiões e estados brasileiros. O relato das pessoas impactadas deixam claro que não existe doação “pequena”, cada uma conta para mudar vidas e histórias. O que é preciso é ampliar essa consciência, o diálogo do tema da doação nas famílias e espaços sociais, verificando a importância de um ato contínuo de doar.
Com a decisão de não abordar doações milionárias, o filme nos coloca em contato direto com doadores individuais e pessoas que organizam e atuam em projetos sociais, de diversos tamanhos. Subimos escadas da periferia com os pés dos personagens, entramos em suas dispensas onde juntam as doações antes de distribuir, ou mesmo “invadimos” suas casas para ver a biblioteca comunitária montada com esforço e esmero.
Os takes mistos entre imagens em movimento, quase com a câmera “na mão”, e os mais estáticos, dão ritmo e dinamismo à obra, porém sem aquele sufoco tão comum em cortes de menos de três segundos. Temos tempo de olhar as pessoas (e quanto isso é importante atualmente), prestar atenção às suas vozes, seus olhos, seus sorrisos e franzir de cenhos. Ao contrário de obras que parecem correr para terminar, Doar é um convite a conhecer mais do outro na tela (e fora dela, nos relatos expandidos no site), e sobre nós mesmos, reavaliando condutas, pensamentos e conceitos que muitas vezes temos engessados em nós e que não revisitamos.
O foco da obra, de certa forma, é entender o que move pessoas comuns, da periferia, de classes desfavorecidas, a doar e querer participar dos projetos sociais e organizações que atendem as comunidades. É um olhar de reforço do que o filme chama de cultura de doação, que precisa ser expandida para além de causas emergenciais apenas.
O projeto do documentário foi idealizado por Joana Ribeiro Mortari e Leonardo Brant, que trabalham com a temática há cerca de sete anos e que convidaram Rizzo para dirigir a obra.
Dentre pontos que marcam, estão: jovens que, sem dinheiro, doam seu tempo para os projetos sociais; outros que tiram do que têm para dividir; pessoas que abrem suas próprias casas para contribuir; os costumes de ações mais coletivas das periferias; e a importância de ouvir quem precisa de ajuda, ou seja, não importa o que o doador quer, mas sim aquilo que a pessoa ou comunidade em necessidade precisa.
Na pré-estreia, foi emocionante ver a reação do público e sentir a energia positiva que permeava a sala, inclusive com alguns dos personagens na sessão. O documentário nos faz questionar o que mais podemos fazer para ajudar o próximo e como podemos contribuir para fortalecer a cultura da doação em nosso país.
Encorajo a assistirem “Doar”. É uma obra inspiradora que nos lembra da importância de estar atento ao outro e de como pequenos gestos podem transformar vidas. Para se aprofundar, conheça um pouco mais sobre o diretor, professor e crítico de cinema Sérgio Rizzo, sobre o filme, a produtora, os apoiadores e assista ao trailer do filme abaixo. Deixe-se inspirar por essas histórias de vida.

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