Renan De Simone

Aqui é veneno!

– Aqui é veneno, rapaz!

– Acho que no fim das contas, ela também me queria, mas faltou coragem para os dois, na época, sabe?

– Esses cílios que parecem um espanador, as bocas preenchidas igual a uma moela, as sobrancelhas que ficam como bigodes, pelo amor de Deus!

Os três já estavam no bar há horas. Tempo suficiente para atualizar o papo do que vem acontecendo na vida de cada um, para falar um pouco do passado e para terem passado por uma coleção de bebidas.

Começaram, claro, na cerveja; passaram à caipirinha, tomaram um “shot” de cachaça pura para testar, voltaram para a cerveja para amenizar, beberam uma dose de uísque duvidoso, comeram uns petiscos e estavam, agora, no conhaque, para a digestão.

Como todo mundo sabe, o conhaque é a bebida que aceita a paz e a empatia de suportar o outro falando de si mesmo sem interromper, mas não combinaram, então cada um falava o que queria. Três homens na casa dos 40 anos, descarregando impressões sobre um mundo que já não os acolhia e com o qual não se identificavam. Tudo havia mudado, afinal.

– Eu já não levo desaforo para casa. Ele falou bobagem pra minha esposa e eu dei uma enquadrada. O cara veio dizer que ela o empurrou, sendo que todo mundo a viu parada, ele que falava gesticulando e bateu o cotovelo na cabeça dela, não dá! Tô sem paciência, aqui é veneno – esse era Simão, inconformado como todo mundo hoje reclama de seus supostos direitos, mas não pensam o mesmo de suas responsabilidades. Onde está a dignidade?

– Até falei com ela numa noite, na saída do McDonald’s! Lembra? Quando a galera combinou aquele jantar de fim de ano? Nem lembro que série era aquela, provavelmente algum colegial. Na época era assim que chamava o ensino médio, né? – o Renato já estava saudoso dos amores perdidos. Falava de Sara, uma garota com a qual haviam estudado juntos e pela qual ele sempre tivera uma queda, todos os amigos sabiam, mas ele nunca chegou a falar nada claramente a ela. Procurava agora reminiscências que pudessem comprovar o contrário, como a conversa na saída da lanchonete.

Sara tinha o perfil de ser uma garota mais tranquila. Brincava, fazia piadas entre os amigos, mas tinha aquela timidez que criava um distanciamento de qualquer assunto que pudesse parecer mais sensual. Nunca souberam de boatos dela se envolvendo com ninguém na época.

– Aí não querem que a gente olhe com estranheza, mas não dá, cara! Outro dia uma atendente do mercado estava com uma sobrancelha parecendo o bigode do Salvador Dali – dizia Danilo, ainda indignado com todas as intervenções estéticas que a atualidade vende como melhoria, mas que, na realidade, ele compreendia como deformações. – Sem falar nesses caras com botox no rosto. Sendo que todo mundo sabe que a ruga é motivo de orgulho, de vivência.

Foi numa parada para dar um gole no conhaque que Simão escutou o que Renato dizia.

– Você está falando da Sara?

– Sim. Naquela noite, na saída da lanchonete, fiquei aguardando a carona do lado de fora e dei a entender o quanto gostava dela, mas não tive nenhum sinal. Mesmo assim, acho que ela gostava de mim, a gente se dava tão bem – consolava-se Renato.

– Cara, naquela noite eu fiquei um tempo com vocês e eu não ouvi nada não. Você me desculpa, mas você era meio frouxo na época. Tudo bem, todo mundo era estranho. Se bem que a Sara era bonitinha já!

Ao que Danilo, interrompendo o fluxo de ódio contra as clínicas estéticas e padronização dos rostos que estão sempre assustados com algo (“e ainda dizem que é pra levantar o semblante! O cacete, deixa todo mundo com a expressão de vítima em filme de terror”, diria ele), escutou apenas o nome da garota.

– A Sara? Ela era linda. Acho que vi alguma foto dela na internet agora, tá com aqueles cílios de pelúcia e umas unhas que não consegue nem limpar a bunda.

– Mas era bonita. Ainda é… – complementou o Renato.

– Era bonita – concordou Danilo – e beijava bem!

O silêncio se instaurou na mesa. Danilo percebera o erro no mesmo momento em que a última sílaba saiu de sua boca e sua expressão ficou muito parecida com a das pessoas que redesenham suas sobrancelhas no alto das testas.

Renato se virou com um olhar paranoico para o amigo de infância e Simão previu o tempo fechando.

– Filha da puta! – gritou Renato, avançando contra Danilo, derrubando os três copos da mesa, que, ainda bem, já estavam vazios.

Danilo deu um passo para trás, evitando o primeiro ataque, mas ficou acuado. Era mais encorpado que Renato, mas na hora da fúria isso não conta, especialmente quando você vê o brilho do louco no olhar do outro.

– Você sempre soube que eu gostava dela, nem pra me avisar. Eu vou te matar!

– Não sabia que você gostava tanto dela, achei que era só lance de momento.

– Por 4 anos? – acrescentou Simão e já se arrependendo de ter aberto a boca.

Renato avançou sobre Danilo, trocaram uns socos que mais pareciam tapas àquela altura da bebedeira. Simão deu um grito para pararem e não escutaram, ao que o amigo deu um safanão em cada um, acalmando os ânimos.

Um garçom que se aproximava para tentar apartar a briga se surpreendeu com o cessar repentino da contenda por Simão que, notando a estranheza no olhar do garçom, só disse:

– Falei “para”, eles tinham de ter parado na hora. Aqui é veneno!

Os ânimos se acalmaram, os amigos se sentaram novamente e pediram outra rodada, de uísque, já que o conhaque parecia ter dado azar para a amizade.

Renato estava chateado, com o olhar quase cheio de lágrimas, mais pela Sara que pelos tapas recebidos.

– Não fica assim, cara! – disse Simão – Se ela não reconheceu teu amor, mesmo você se declarando, de repente não era pra ser. O caso com o Danilo não significou nada.

– E não significou mesmo – confessou Danilo –, não deu uma semana que estávamos juntos, ela me largou por outro cara. Ela nunca disse quem era, só me trocou, e eu estava gamado na menina. Fiquei mal uns dias, mas a gente vai esquecendo. O tempo vai limpando essas paixões que não deram certo.

– Exatamente, e hoje você está com a Rita, mulher bonita, inteligente, que te apoia, te ama. Graças a Deus que você não ficou com a Sara! – argumentou Simão.

Mais tranquilo, Renato concordou. Os uísques chegaram, brindaram à amizade e iniciaram um novo papo, admitindo que algumas coisas pareciam nunca nos abandonar totalmente. Viram que nem tudo tinha mudado, afinal. As dores do amor tendem a permanecer em nossa espécie.

De longe, o garçom olhava, pensando quando aqueles três bêbados iriam embora. “Hoje esse bar não fecha”, concluiu desolado.

Abraçados, Renato e Danilo reclamavam de Sara, uma garota sem coração que nunca reconheceu o amor do primeiro e desprezou o segundo por um completo desconhecido que ninguém nunca viu!

Apenas balançando a cabeça e concordando com os colegas, Simão se lembrou dos seios macios de Sara, dos beijos quentes da menina e de como ela o deixava fazer de tudo, desde que não contasse a ninguém. Por amizade ou pela própria segurança, decidiu não contar nada aos amigos, mas pensou intimamente com um sorriso: “aqui é veneno!”.

Comments

Uma resposta para “Aqui é veneno!”.

  1. Avatar de Shirley
    Shirley

    Lembrancas de Colegial, boa época 👋👋👋

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