Ela é filha do outono, nascida de folhas douradas, quando as árvores começam a se despir e o vento sussurra segredos entre os galhos. Sua pele traduz o tom quente das folhas e seus olhos refletem o fim de tarde multicolorido que caminha para o crepúsculo. Ela é filha das folhas douradas, dança com o vento e guarda os segredos das brisas.
Ela é filha do outono e tem o abraço como um cobertor de lã, suave e acolhedor. Seu sorriso aquece os corações como o calor das lareiras acesas. Ela tem o olhar convidativo dos vinhos em noites frias, enquanto a tempestade fustiga as janelas e dentro do peito é derramada uma xícara de chá fumegante que nos descongela.
Ela é brisa que desfila, enchendo o ar de um doce aroma de maçã e canela, um lembrete das delícias que seus lábios carregam. Seus cabelos são um bosque de faias douradas, caminhos poéticos ao olhar e onde surge imediatamente o desejo de se perder.
O som de sua risada enche o ambiente e ao mesmo tempo o acalma, como o doce barulho das folhas secas sendo pisadas durante uma caminhada sob um céu azul e um sol que aquece com singeleza e cuidado.
Ela é filha do outono e lembra que a vida é uma constante mudança, que é preciso ver beleza na transição, no novo que envelhece e no velho que prepara o caminho para o devir. Ao entardecer, quando as cores se misturam em tons de rosa e laranja, azul e roxo, o céu parece suspirar segredos profundos, indizíveis, fugidios, mas que, ainda assim, existem e dão forma à vida.
É ali que ela se sente em casa, sob o céu estrelado, límpido, como se a estação tirasse qualquer defeito do firmamento. Sua morada é sob a lua e seu coração guarda o mistério das noites mais longas e o encanto das estrelas que surgem timidamente para ofuscar a escuridão.
Ela mora num suspiro, prevalece num olhar, anseia uma canção que escuta ao se admirar. Desvanece em gestos doces, esvoaça em deleite intenso; ri do mundo de penas, de foices; ri de si, do mínimo e do imenso. Gargalha alucinada e desfruta o silêncio do sono; no âmago de seu ser é ninfa alada que não tem dono. Se desmaia cansada, logo volta à tona; pois conhece sua própria balada e sabe onde se assenta seu trono… pois você sabe:
Ela é filha do outono!

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