Renan De Simone

Por onde for – as canções…

– Nossa, olha só, maio já está no final!

– Do que você está falando, Luna, acabou de começar o mês?

– Ah, já estragou tudo, tá vendo? Eu queria fazer referência à música.

– Mas espere um tempo, então, logo no dia 03 é muito cedo.

– Não dá, porque a música era só um pretexto… a parte importante é “o que somos nós, afinal?”

– Humanos, pessoas?

– Deixa de ser besta, Hiran, você entendeu. A gente é amigo, mas não exatamente amigos…

– Está dizendo que não me quer como amigo?

– Olha só como você é, eu levo a sério, mas você disfarça!

– Você tá tentando citar todos os clássicos da MPB ou conversar?

– O que posso fazer se já falaram sobre os meus próprios sentimentos com tanta sensibilidade?

– Mas o que você quer me perguntar, então?

– Quero saber das provocações nas palavras, da vontade clara quando estamos juntos, do toque suave das mãos, dos abraços… Será que existe alguma razão pra viver assim, se não estamos, de verdade, juntos?

Eu ri, foi muito engraçada a maneira como ela falou aquilo. Ela sempre tinha um ar afetado e divertido ao mesmo tempo. Naquele momento, eu apenas disse:

– Não consigo me concentrar nos meus sentimentos com você citando todas as bandas que conheço. Minha cabeça está cantando “procuramos independência…”.

Luna ainda tentou perguntar mais uma ou duas vezes sobre nomes, títulos ou o que éramos. Naquela noite, logo naquela noite, eu ri e a abracei forte. Talvez não fosse a intenção inicial, mas o abraço se encaixou cada vez mais, como se estivéssemos nos moldando ao corpo um do outro.

A cabeça dela, inicialmente apoiada em meu peito, foi se movimentando aos poucos, assim como a minha. O meu coração disparou por um instante, a tensão entre nós aumentou e, logo, nossas bocas estavam coladas.

Um beijo intenso, gostoso, como se estivéssemos há tempos desejosos por ele – estávamos. Minha mão subiu pela sua nuca e Luna aumentou o fervor em seus lábios enquanto eu a beijava e acariciava seus cabelos ao mesmo tempo.

Perdemos a noção do tempo em que ficamos nos beijando, acho que não éramos apenas amigos, afinal. A lua banhava-nos com sua luz prateada, inspirando versos encantados.

Acho que meu coração palpitou mais forte que tudo e a paixão arrebentou em mim quando ela apoiou sua cabeça em meu ombro, no carro, e ficou por horas acariciando minhas mãos e braços, como se ela se sentisse segura só por estar comigo. Ela estava no local ao qual pertencia, em seu ninho.

Ela me perguntava o que éramos no início de maio, era outono, sua estação favorita. A troca das folhas, o céu azul com um ar gelado perfeito para um abraço. Antes do beijo, ainda como “amigos”, ficávamos admirando os traços um do outro, olhando fundo nos olhos, o contorno da boca, as mínimas expressões. O jeito que o cabelo dela caía pelos ombros… às vezes até disfarçando o olhar quando nos víamos flagrados pelos olhos do outro.

Seu aniversário estava chegando e hoje vejo que talvez ela quisesse saber sobre nós antes disso, não sei se como uma espécie de presente ou uma forma de tirar logo de sua frente uma esperança, uma ansiedade desnecessárias. Ela queria saber como viver “mil vezes mais”.

Hoje ela não está comigo, longe do meu toque, do meu olhar, sinto falta de seus cabelos em meus dedos, da sua risada em meus ouvidos. E à noite, quando olho para o céu, a lua cheia é “uma saudade imensa”.

Tanto brinquei naquele dia, mas hoje sou eu quem a encontra em cada verso das músicas, olhando a lua mansa a se derramar, caminhando, rememorando cada detalhe. Um Hiran sozinho, nostálgico, cantarolando baixo as músicas que machucam o peito e a fazem presente ao mesmo tempo.

Mas a distância, ora ou outra, vai se encerrar. Não sei bem como, mas vai. Nunca é definitivo, não pode ser, é apenas como se eu estivesse de férias ou numa longa viagem e, mesmo assim, de alguma maneira, encontro o eco das batidas do coração dela no meu próprio. Há coisas mais profundas que o toque, afinal.

Tão perdido fiquei em meus pensamentos que quase perdi o ponto do ônibus. Desci e minha face foi fustigada por um vento gelado. Já é outono novamente? Que dia é hoje?

Olhei e era maio, ainda no início de novo, e, assim como ela, me perguntando quem seríamos agora, ou se ela estaria pensando em mim. Caminhei errante por um gramado verde, iluminado por um céu azul que doía os olhos de beleza, como aqueles lábios dela, aqueles cabelos…

Sem nem perceber, quando dei por mim, minha mente já estava com a imagem dela dominando completamente minha imaginação, emoldurada por um som gostoso com vozes em coro que diziam: “Por onde for quero ser seu par…”.


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Uma resposta para “Por onde for – as canções…”.

  1. Avatar de Shirley
    Shirley

    Parabéns, maravilhoso

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