Na penumbra da madrugada, quando as estrelas ainda piscam sonolentas, há um coração desperto, menos porque quer do que por não conseguir ignorar os sentimentos que o rodeiam. É um guardião das palavras, um dos poucos existentes, aquele alquimista que transforma a dor em versos e a saudade em melodias. Além de observador, é um criador por natureza, moldando o mundo em letras.
A máquina de escrever, com suas teclas rudes e som metálico, parece uma poesia concreta feita em si mesma, na cadência, no ritmo, na compleição física. Cada letra pressionada é um fragmento de alma, uma gota de sangue derramada na página. O papel amarelo se enche de confissões, de sonhos e desilusões. Ele não teme a guerra, pois que ela é travada diariamente em seu peito até que as palavras afiadas rasguem seu corpo de dentro para fora.
Com a caneta desliza sobre o papel, com linhas que ecoam séculos de histórias, hoje quase perdidas entre dedos que dançam sobre teclados luminosos frios. Será que o fervor permanece o mesmo?
Tem de permanecer, tem de estar lá, mesmo que ninguém veja, que não leiam, que não queiram. Ele é um arqueólogo das emoções, escavando a si e aos outros para encontrar a verdade escondida sob camadas de máscaras… E são tantas.
Hoje a conexão é instantânea e a presença vazia. Suas palavras anseiam pela textura do papel, pela resistência da caneta. Ele sente falta do cheiro de tinta fresca, de folhas virando e do som da máquina de escrever, como uma melodia nostálgica, como se ela também conhecesse a solidão das noites em claro, a busca incessante por significado.
Até os poetas vão à guerra. O chamado ancestral contra si, contra o mundo e, paradoxalmente, a favor de todos nós. Porque não há mundo que não viva sem sensibilidade, não há status quo sem denúncia, não há padrão sem revolta e nem arte sem método. “Aprenda a técnica para esquecê-la” é o mistério dos sonhos.
Sua luta é com metáforas e rimas, navegando pelos mares revoltos da inspiração e da dúvida; por vezes se perdendo nas fronteiras da própria mente, duvidando do real – como se ele realmente existisse.
Os poetas estão em extinção, mas a imortalidade os persegue, pulsa nas entrelinhas dos versos, nas notas musicais que ecoam através dos séculos. Guardião da humanidade e da atrocidade, contador de histórias que nos lembra que somos mais que carne e osso. Somos palavras, sonhos, saudades e futuro – esse último que chega a tempos diferentes para as pessoas.
Ele vive nas entrelinhas, nas pausas entre as notas, nas sombras que a luz da lua desenha no chão. Mensageiro do mudo espírito humano quando a noite se aprofunda e as estrelas brilham com força. Ali, buscador de beleza e de horror, gritando em silêncios e quieto na fúria da tempestade. E, mesmo que o mundo se esqueça, o coração do poeta continuará a bater, como um velho farol de praia que ainda tenta sinalizar os perigos de naufrágio e anunciar a segurança da costa.

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