Acordei com 37 e nada mudou muito, mas meio que estava tudo diferente. Na terça-feira aconteceu muita coisa. Foi um dia com drama, alegria, projetos e pessoas… Ah, como elas são importantes. Fiz um pouco de tudo que gosto e um pouco de tudo que dá medo: trabalho, falas em público, estudos, pizza, risadas, abraços, conversas difíceis e fáceis. Do trânsito ao descanso, foi uma terça-feira condensando, na metáfora de um dia, muito do que a vida pode me oferecer, e talvez um pouco do que eu também posso oferecer à vida. Sei tão pouco, sou tão jovem e tão velho.
Às vezes a vida vem poderosa em mim, como fogo, intensa como uma gargalhada que beira a loucura. Às vezes vem calma, serena, quase como um sábio idoso que se assenta ao seu lado em silêncio. Às vezes quem vem é a morte, fazendo convites e dando ideias, querendo me vender uma promoção que eu acho que quero comprar em um momento de fraqueza, mas não quero. É um anúncio enganoso.
Trinta e sete não parece ser um número muito importante ou com alguma aura especial, mas viver é um pouco disso, entender que nem tudo vai ser especial e que, muitas vezes, aquilo que achávamos mais banal se torna algo imenso por um simples gesto do coração. Sim, já fui muita coisa, ou sou, ou serei. Sabe Deus quanto tempo tenho.
E não farei contas. A matemática não vai resolver a qualidade dos meus dias. Não vou enlouquecer com os índices… ah como a gente tá preocupado com os índices: quanto como de calorias, quanto bebo de água, quantos passos dei no meu dia, quanto produzi, quantas pessoas viram meu trabalho, quantos likes, quantas impressões… quanto vazio tudo isso carrega, né? Porque, quem sabe, não seja sobre quanto, mas como, com quem e o porquê.
Porque me importam as coisas da alma. Suas alegrias, sofrimentos e esperanças. Se for verdade que “todo homem só quer o amor se for tortura” (hei, taylorinha), talvez eu seja realmente um clássico, porque me torturo por saber que não amo todas as pessoas como deveria ou como elas merecem, já que fazem e são tanto para mim e não me sinto suficiente para elas, seja na dimensão que for do amor. O que inclui romance, amizade, família e afins.
Gosto de humor, do bom humor, da graça, do jocoso, do infame, do riso largo, da gargalhada, do sorriso de canto, do olhar esperto. A sagacidade tem espaço no meu coração. E talvez eu esteja errado por gostar de tudo isso. Quem sabe errado por existir, não?
Afinal, eu sou uma ameaça. Sou homem, branco, heterossexual, portanto, agressivo, perigoso, passível de ser retirado imediatamente do jogo social porque, “como eu poderia contribuir?”. Não posso, minha ideias são retrógradas só porque nasci, minha fala tomada de uma ideologia ameaçadora e que fere todos que cruzam meu caminho.
Não é assim que todos que me conhecem me veem? Ou todas, ou todes ou todx, ou “it”, ou “them”, ou sei lá… Tá vendo? Nem sei mais me dirigir às pessoas (ainda podemos chamar os seres humanos de pessoas ou isso também caiu em desuso e estou ofendendo alguém?).
A gente tem tanto medo de ofender com a “palavra errada” que está esquecendo da atitude, do gesto, do abraço, da mão esticada. Terça revi amigos, tão velhos quanto eu, assim como familiares, alguns mais velhos. E eles me lembram que ainda estamos aqui, que existimos de alguma forma. Lembram-me de que o abraço e a mão esticada, que tantas vezes me levantaram, vinham, às vezes, com palavras duras, mas que não deixavam de ser verdade.
Não sou a favor da ofensa, gosto de gentileza, mas não sacrifiquem a verdade e a sinceridade, a conversa franca, com medo de usar o “termo” errado. Ainda há conversa, precisa haver. Se não houver, eu já morri há tempos, pois que vivo de palavra, e nem saberia por que estou celebrando o soprar das velinhas mais um ano.
Talvez eu seja mesmo uma ameaça, e é bom terem medo de mim, porque quem arrisca o pescoço para dizer que não existe só lado A ou lado B é visto como um perigo na sociedade, sim, porque desfaz jogos fáceis de quem simplifica e emburrece para controlar. Nós e eles, bem contra o mal, certo e errado, carnívoros e veganos. Existe um pouco mais de coisas e a gente sabe, mas esquece.
Posso ser doce, calmo e poético, mas, ainda assim, ser ferino, sagaz e caótico. De uma maneira ou de outra, acordei com 37 e ainda vivo, então sigo em frente.
Gosto de envelhecer, afinal. Os cabelos (que restaram) ficando brancos são como uma homenagem aos meus avós, meus pais. Fazem-me sentir bem. Talvez o único ponto ruim da idade é que percebo que, cada vez mais, minha audição vai me abandonando, mas tudo bem, sou homem, branco, hétero, então, não preciso ouvir, apenas falar, né? Desde terça-feira à noite, estou indo dormir todos os dias com 37 e nada mudou muito, mas meio que está tudo diferente a cada manhã.

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