Renan De Simone

Por que escrevemos sobre mulheres…

A gente frequentemente fala da sensibilidade feminina, mas cada vez mais aprendemos que isso poderia, ou deveria, estar ultrapassado, esse olhar da mulher doce, “mocinha”, com maneiras delicadas. No entanto, vejo muitas mulheres que gostam de ser e agir dessa forma.

E percebo que esse arquétipo (ou estereótipo, a depender do olhar) da mulher combativa e engajada, por assim dizer, que cada vez mais se solidifica na nossa sociedade, acaba por jogar mais um peso sobre as costas de quem não quer ou não se identifica com essa maneira de existir e se afirmar como sujeito. Como se as que decidem “pelo rosa” fossem obrigadas a estar sempre prontas para a briga, pois, caso contrário, não seriam mulheres “de verdade”.

Mas o que isso quer dizer? Que só há a mulher de personalidade combativa ou que só existem as objetivas? Que ser mulher é ter a feminilidade hiper aflorada e que isso deve aparecer como um senso estético em roupas que valorizem curvas ou detalhes brilhantes e sedosos em suas peles? É ser mãe? É não ser mãe?

Que mulher é aquela que grita alto, que bate o pé e que não pode aceitar um elogio porque aquilo pode ser visto como um sinal de fraqueza e objetificação?

Quantas perguntas…

E, mulheres, elas não são para vocês responderem, pelo menos não como uma responsabilidade, pois talvez fosse mais um peso jogado sobre suas costas, e já são tantos, não?

Para mim, como homem (branco, hétero, de uma classe baixa, mas que tem contato com parte da classe média e talvez média alta, que sou visto muitas vezes como uma “ameaça” só pelo fato de existir), é muito difícil discutir ou refletir sobre algumas questões. Seja porque muitas vezes tenho minha tentativa de pensamento invalidada por não ser “meu lugar de fala”, ou porque minhas experiências nunca me fizeram diminuir ou pensar em mulheres como “menos”.

Sim, sou filho de uma cultura cheia de piadas e objetificação do corpo feminino, de gracejos que escondem preconceitos, de religiões que ditam a serventia feminina (pelo menos na interpretação de “líderes” aos quais talvez interesse o controle fácil das pessoas) e de muitos outros problemas refletidos em índices como salários menores para mulheres e afins.

No entanto, as mulheres que tenho como exemplo eram tudo… Sim, tudo o que queriam, podiam ou puderam nos seus contextos de vida. Vamos combinar que ninguém – homem, mulher ou o que mais viermos a ser nessa fluidez toda – é o que quer, a gente se torna o que consegue, o que precisa. E a falácia de que tudo depende de vontade e esforço, apenas, não cola mais. Detalhe para o “apenas”, tais virtudes são fundamentais, mas não determinantes à vida que se deseja ou busca… (Sem contar a quantidade de vezes que buscamos algo para encontrar uma desilusão na dita “chegada”).

É difícil pra mim porque as mulheres da minha vida eram e são pessoas que se dedicaram às suas profissões; outras à família, na construção de lares com filhos; outras não quiseram filhos e optaram por cuidar de seus idosos; outras só foram livres, para ir e voltar e se permitir acertar e errar nessa jornada humana em que tanto tentamos nos descobrir. Outras fizeram de tudo isso um pouco, se permitindo ir e vir,  escolher e testar, esconder e testar, esquecer e mostrar.

Minha mãe, por exemplo, é incrível em muitos sentidos, uma exímia profissional, uma mãe dedicada, uma mulher divertida, inteligente, que “não leva desaforo pra casa”, mas que sempre soube equilibrar o se doar, encontrar ou criar seus espaços e até delimitar o das outras pessoas. Para citar o mínimo. Minha esposa é outra inspiração! E, ainda bem, a lista de mulheres sensacionais é bem longa, na verdade.

Elas me ensinaram muito, em casa, na escola, como amigas, professoras, mãe, avós, companheiras, românticas ou não. Não me passou pela cabeça que fossem fracas, que não fossem capazes ou que, pior, tivessem de estar condenadas a serem o que outros quisessem com seus corpos e ações (e esse outros não sendo homens, mas até mesmo outras mulheres ditando).

É um erro exigir corpo, roupa, comportamentos… De qualquer tipo (claro que somos adultos inteligentes e não estamos nos referindo a crimes ou ações que entravem a existência do próximo).

Se quer ser combativa, que seja, só não obrigue ninguém a sê-lo. Se quer ter filhos, tenha-os, mas não torne isso a condição que dita o ser feminino.

E sim, minhas palavras apontam também para mulheres que cobram outras mulheres, assim como falam muito aos homens.

Neste Dia Internacional das Mulheres, muitos questionamentos vêm e vão, parecem concretos e etéreos, surgem e escapam. E há tanto a se pensar, repensar e modelar, inclusive reavaliar que “exigências e padrões” são esses aos quais vocês, mulheres, são ou se sentem submetidas, de onde vêm, onde se instauram. Talvez ainda estejamos preocupados com fantasmas que não estão mais por aqui enquanto outras questões urgentes não estão sendo olhadas… Mas só talvez.

Afinal de contas, que falamos, escrevemos e pensamos tanto sobre as mulheres? De minha parte, a resposta é “fácil”:

Escrevemos e falamos tanto de mulheres não para defini-las e limitá-las, mas sim para entender um pouco mais quem nós somos como humanos, como pessoas. Escrevemos e pensamos para que histórias e biografias não sejam ocultadas ou liquidadas da nossa trajetória humana, como muito já se fez, por vários motivos, sejam relações de poder, sejam costumes ou pela escolha delas em alguns pontos.

Falamos de mulheres por liberdade, porque elas não cabem em definições simplistas, muito menos no “querer que sejam” egoísta e tolo que há muito se reproduz na sociedade.

Falamos de mulheres porque vale a pena tratar de temas (pessoas né?) interessantes, profundos, complexos e que, de alguma forma traduzem porque a vida é tão fantástica em suas infinitas descobertas cotidianas, em nós e nas outras pessoas.

Que seja um dia de respeito, a respeito de vocês e que não haja despeito. Obrigado, mulheres!

Comments

Uma resposta para “Por que escrevemos sobre mulheres…”.

  1. Avatar de Shirley
    Shirley

    Obrigada por ser esse homem maravilhoso, que entende sobre todos os assuntos, se somos mulheres maravilhosas é porque vivemos ao lado de homens que nos respeitam 😘

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