Bastou um alô

Esta noite sonhei contigo… E foi tão simples e leve. Era apenas a sua voz através do telefone e ela estava calma, feliz e também acalmou meu coração.

Sim, eu tenho algo que não sei explicar, um coração acelerado, uma mente que não para de pensar, uma boca que fala demais. Um pouco disso peguei de ti, foi um dos presentes que me deixou e na maior parte do tempo isso é ótimo porque sei que isso me faz diferente, destaca-me no meio da multidão.

No entanto, você tinha algo a mais, uma sabedoria, um desprendimento, uma liberdade que corria nas suas veias e te permitia viver mais suavemente, de um jeito que os olhares dos outros eram apenas detalhes distantes. Você sempre soube “perder tempo” do jeito certo. Os olhares divertidos para as pessoas que passavam na rua, as músicas regadas a uma cerveja e um papo descontraído, a maneira única de falar com as mãos. As verdades do mundo estavam na varanda, na mesa da cozinha, numa grama verde ao sol, num filme que víamos juntos, numa música que nos prendia por um verso inteligente.

Com você aprendi a sonhar acordado e por isso sou grato porque o mundo concreto não é a verdade última, é preciso olhar as brechas, as frestas de realidade. Hoje fecho os olhos e nem sempre adormeço. Doce contradição, sonhar de olhos abertos e estar acordado de olhos fechados.

E no sonho, tudo era tão familiar. A rua, o carro, os dizeres. E você acalmou meu coração com cinco palavras depois de um alô. Não vi seu rosto, mas pude enxergar como estava, com um brilho no olhar que era só seu, com a expressão levemente divertida que assumia quando tudo estava bem, quando era receptivo. Ah, e você sempre era receptivo. Todo mundo queria estar ao seu redor, era gostoso te assistir viver.

Não sei se puxei isso também te ti, mas acho que sim. As pessoas me contam coisas mesmo sem eu perguntar, se sentem à vontade para serem elas mesmas comigo. Eu te agradeço por isso também. Por poder ver todo mundo como realmente é, sem máscaras e por aceitar que a gente não é perfeito.

Nem nós, nem eles…

Na verdade estamos criando histórias a cada momento, escrevendo essa jornada confusa. E descobrindo a cada curva que é isso que somos: história, frágeis, belas, entre nossos erros… E são muitos, mas eles também têm cores e motivos para existirem. Alguns erros, inclusive, se tornam acertos, aquecem o coração e mostram lados da vida que não conhecíamos.

Esta noite sonhei contigo, e foi tão simples e leve que acordei sorrindo e chorando ao mesmo tempo. Só para provar que a gente é complexo. E, matando a saudade, ao mesmo tempo ela aumentou em mim. Mas por isso agradeço.

Obrigado pela ligação que atendeu no meu sonho, pai, esteja onde estiver!

Publicado por

RDS

Jornalista, escritor, metido a poeta e comediante. Adorador de filmes e livros, quem sabe um filósofo desocupado. Romântico incorrigível. Um menino que começou a ter barba. Filho de italianos, mas brasileiro. Emotivo, sarcástico e crítico, mas só às vezes.

Um comentário em “Bastou um alô

  1. Sonhar é maravilhoso, poder rever a quem amamos, e ter um pouco de nosso pai na mente, na alma e no coração parabéns.

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