Mesmo com saudade, feliz dia dos pais

Entre erros e acertos, entre caminhar às cegas pela vida ou saber exatamente o que fazia, entre os passos planejados ou o improviso. Seja em meio à fúria ou à paz, na atitude de herói ou naquela que momentaneamente foi tomada como de vilão. Fosse no sorriso jogado para o alto com a sensação de se divertir com simplicidade, ou mesmo na cara de reprovação e cobrança.
Fosse com satisfação ou bronca, com seu carisma inapagável ou sua rigidez. Fosse com o brilho nos olhos, as brincadeiras, as palavras, as conversas que começavam na janta e se estendiam pela madrugada. Com cada ato, gesto, mania, palavra e exemplo, você me ensinou o que era a vida.
Me mostrou que às vezes ela precisa ser descomplicada, cheia de piada e que precisamos zombar dela para não sermos soterrados pelas tolices intermináveis do mundo. Como um pesadelo, é preciso rir para descobrir que nada é tão ruim quanto parece.
Ensinou que há muita coisa inexplicável, que pode haver magia e milagre em cada pequena luz brilhando no céu. Que uma cerveja numa noite quente traz mais satisfação do que mil tesouros, e que uma música no rádio velho, um queijo na mesa e uma conversa boa criam mundos, ensinam pessoas e melhoram a nossa existência.
Sabia tomar as rédeas da situação e crescer como um gigante sobre uma formiga quando as coisas ficavam fora de controle. Fosse raiva, decisão ou mesmo calma, você tinha um jeito de encarar as coisas que ainda me é um mistério, mas que me dá força porque via a sua intensidade em viver.
Você se animava como um menino assistindo Chaves na TV e depois reclamava de todos os programas idiotas. Gostava de filme antigo, música antiga, tinha seus personagens e pessoas favoritas, mas não se deixava enganar por nenhuma aparência, por ninguém.
Era um artista, gostava de escrever, desenhar, cantar, contar piadas e dava um show sempre. Tinha um magnetismo que atraía todo mundo, até pessoas que você não queria, mas era bom com as pessoas de um jeito louco e que faz todo mundo pensar em ti com alegria e saudade.
Você me ensinou humildade, dizendo que ela sempre prevalecia, me falou para não ser otário de ninguém, mas para não arrumar briga nunca. Quebrou tabus, falando abertamente sobre tudo. Me contou histórias para dormir que você inventava na hora e até brigou comigo porque eu fazia barulho brincando no tapete da sala enquanto você queria cochilar.
Lembro de deitar contigo na cama, pequeno o bastante para não saber ler e você me mostrar cada personagem dum gibi da Disney e me questionar nomes e o que faziam. Aprendi a gostar de muita coisa com você. E também aprendi que mesmo sem gostar, algumas coisas eu ia ter de viver.
Lembro duma noite em que eu estava deitado a seu lado no sofá de casa e me veio o medo da morte. Não da minha, mas da sua. Era apenas uma criança conjecturando sobre coisas que não entendia. Você não soube o que responder quando disse que não queria que você morresse e chorei no seu colo. Você olhou para mamãe com um ar entre o confuso e até o divertido, e só entendi muitos anos depois que aquele meu choro espontâneo foi como uma declaração de amor e não de medo para você.
Mesmo querendo me confortar, você não mentiu e te agradeço e aprecio ainda mais por isso.
Você disse que não ia viver para sempre, mas que ainda ficaria muito tempo comigo.
Como eu disse, você não mentiu! Tive a sorte, o prazer, a honra e a benção de te ter comigo até cerca dos meus 30 anos.
Isso não faz a dor diminuir, a saudade ainda é gigante e a falta é enorme. Mas hoje posso encarar com coragem minhas próprias lágrimas, me alegrar com suas lembranças, me espelhar em seus ensinamentos e ver que você partiu mas não deixou um vazio, pelo contrário, deixou um peito cheio de amor e sabedoria em mim. Algumas coisas posso só entender no futuro, mas meu coração transborda de ti e sou um pouco de você em cada ato e palavra.
Pai, eu te amo e agradeço por tudo! Desculpe se falhei em algo contigo, mas também sou um garoto empolgado com a vida e aprendendo conforme caminho. Que Deus permita que eu seja metade do que você foi.
Com saudades, mas ainda assim com amor e felicidade, um feliz dia dos pais!


Publicado por

RDS

Jornalista, escritor, metido a poeta e comediante. Adorador de filmes e livros, quem sabe um filósofo desocupado. Romântico incorrigível. Um menino que começou a ter barba. Filho de italianos, mas brasileiro. Emotivo, sarcástico e crítico, mas só às vezes.

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