O desserviço da adaptação – Cavaleiros do Zodíaco do Netflix

Este foi o único título que pude pensar ao ver as reformulações que o Netflix está fazendo na consagrada série de anime dos Cavaleiros do Zodíaco. Eu não sou “menina”, mas mesmo assim me diverti demais assistindo ao desenho quando criança com diversas amigas minhas, inclusive. Sim, sou velho o suficiente para ter conhecido a finada TV Manchete!

E quando digo que minhas amigas meninas “inclusive” curtiam a série, me refiro a várias coisas. A primeira delas é que o mundo era muito mais machista umas décadas atrás e era mais fácil aceitarem garotas vendo Chiquititas do que desenhos de ação. E isso influenciava em brincadeiras de “lutinha” que os garotos faziam na escola, imitando seus personagens favoritos. Não era comum as meninas se envolverem nisso.

No entanto, e isso é bem importante, o anime Cavaleiros do Zodíaco (CDZ) veio quebrar alguns paradigmas para a época. Por exemplo, os caras não lutavam por si mesmos, por honra própria ou coisas assim, mas pela deusa Atena, a Saori, que não era uma garota a ser conquistada, mas sim uma deusa poderosa que escolhia salvar a Terra e enviar seus combatentes para a frente do conflito. Além dela, as Amazonas (“cavaleiras”) eram exemplo de força e persistência, além de sabedoria, como a Shina, Marin, June e etc. que lutavam tanto quanto os “cavaleiros homens”.

Um pouco mais além, CDZ quebrava outro paradigma, o do homem machão todo poderoso, e colocava figuras controversas e paradoxais, construídas com personalidades um pouco além dos estereótipos. A história sempre girava em torno do bem e do mal, mas havia cavaleiros que não queriam lutar e outros com estilo afeminado que eram muito poderosos!

Exemplo desses era o Shun de Andrômeda que, por incrível que pareça, era um dos personagens favoritos de um amigo meu metido a ser “macho Alpha” na escola. Este cavaleiro demonstrava não gostar de batalhas, mas era belo, inteligente, bondoso, compreensivo e apaziguador. Ele ainda tinha um poder devastador e se sacrificava pelos amigos, sendo até uma espécie de “oferenda” em vez de brigar.

Eu gostava do Shun, mas preferia o Hioga de Cisne. De alguma forma, aquele jeito arrogante dele e a relação com a mãe morta me emocionavam. Enfim, meu ponto aqui é que na nova versão, uma espécie de remasterização do desenho, o Cavaleiro Shun parece ter sido transformado em mulher, o que é um desserviço para toda causa do feminismo, por exemplo.

Digo isso porque ele já era um personagem sensível e que mostrava ser delicado. Ora, se a justificativa para o transformar em mulher foi a de inclusão de público e representatividade, por que não utilizar um cavaleiro que tivesse uma personalidade diferenciada do estereótipo feminino? Afinal, é legal ver vários tons numa obra.

Fora isso, há um problema: as Amazonas do desenho usam máscaras e o Shun não, logo, eles estariam indo contra a própria lógica interna da obra.

Outra questão estranha e que desperta boatos é a mudança do nome da deusa Atena, Saori, para algum outro como Siena… Nem vou discutir isso, acho estupidez e ponto, é como modificar o nome de Clark Kent para Wilson sem motivo. A notícia boa nesse caso é que a dublagem brasileira parece ter ignorado o erro internacional e manteve o nome da personagem na série. Ponto para os HUE Br que salvam a saga.

A grande questão é que CDZ é um universo que funciona em várias eras e que pode ser recriado com personagens diferentes sem estragar a história original. O problema é: por que recriar uma geração consagrada e, em vez de mexer em coisas como dinâmica, diálogos, velocidade de luta e beleza de imagem, acabar por modificar coisas que não contribuem, tais como nome de personagens e sexo/gênero?

Se for para renovar, que façam isso criando uma geração nova e ponto, para que mexer no antigo? Star Wars se recriou e tem funcionado muito bem como exemplo de sucesso de vendas e roteiro.

Um desserviço, mas vou assistir, nem que seja para criticar. Afinal, já que querem estabelecer estereótipos, vou assumir o do crítico chato!

Publicado por

RDS

Jornalista, escritor, metido a poeta e comediante. Adorador de filmes e livros, quem sabe um filósofo desocupado. Romântico incorrigível. Um menino que começou a ter barba. Filho de italianos, mas brasileiro. Emotivo, sarcástico e crítico, mas só às vezes.

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