Deixamos o segredo escapar

– Rapazes, estamos aqui reunidos hoje por um motivo muito sério! Vocês deixaram escapar nossos segredos e agora o mundo está de cabeça para baixo.

– Como assim? – diz um rapaz enquanto mexe no celular com uma mão, toma um refrigerante com a outra e olha fixamente para o palestrante mais velho.

O homem que toca a reunião suspira, revira os olhos e tenta mais uma vez.

– Nós somos homens, lembram-se? Homens! E temos de passar essa imagem. Além de sermos, temos de parecer ser,. Por Deus, será que não sabem o que isso significa?

– Que temos de ser sinceros com nosso ser e demonstrar nossa essência?

– Totalmente errado! – retrucou o velho – Vocês não notaram nada recentemente? Talvez nas crianças, em seus sobrinhos, filhos etc.? – os mais novos começaram a se entreolhar e um olhar de epifania foi surgindo aos poucos.

– Sabe que, agora que você comentou, estou lembrando que notei algo sim. Está bem difícil de conversar com os pequenos da família, estão muito mimados ou… não sei a expressão certa, mas não aguentam ser contrariados em nada. Às vezes se revoltam, mas em outras é pior, choram, não tem firmeza!

– Sensíveis! Essa era a palavra que você queria, mas é muito pior que isso. Nós somos sensíveis e atenciosos e vocês sabem de tudo isso, mas eles estão fracos! Fracos, meu Deus! E a culpa é nossa.

– E o que isso tem a ver com deixar escapar nossos segredos, afinal? – questionou o jovem enquanto trocava uma lâmpada queimada, fazia um depósito virtual para combater a fome na África e dava dicas de moda para uma amiga no Whatsapp.

– Vocês não veem? Vocês deixaram escapar que sabemos fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo, que conseguimos planejar nossas ações, lavar nossas roupas e cozinhar para nós mesmos. Vocês, estupidamente, entregaram o jogo de que conseguimos manter uma conversa séria mesmo quando há um decote na mesa, que sabemos falar dos nossos sentimentos e ter sensibilidade. Mostraram que não estamos apenas preocupados com futebol e cerveja, meu Deus, alguns de vocês nem têm time hoje em dia.

– E o que isso tem a ver com a problemática toda? As crianças vindouras também saberão fazer tudo isso. Talvez até mais!

– Não, por mil demônios, não! É totalmente o oposto. Agora as mulheres não nos veem mais como o sexo frágil, necessitado daquela atenção materna, de carinho exacerbado, cuidados e etc. Elas viram que não temos a necessidade de que elas finjam que nós mandamos no mundo. Elas notaram que podem assumir abertamente o controle porque temos resistência emocional e física para aguentar o “choque”.

– Ainda não consigo entender o problema – respondeu outro garoto enquanto consertava a sola de seu sapato, penteava-se e desenhava um armário embutido para sua casa.

– É o caos, é o caos! Elas vão saber que entendemos a complexidade de seus sentimentos, que sabemos dialogar. E isso, rapazes, isso fará com que parem de dar atenção a nós e às crianças. Vai fazer com que pensem que são “dispensáveis” e que podem apenas cuidar de si mesmas sem se preocupar conosco. Em um curto período de tempo isso não faz nada, mas no longo prazo fará nossos filhos fracos, sem atenção, mimados, sem diálogo e burros, preocupados apenas com seus próprios umbigos, decepcionados com a falta de sentido na vida, mas se achando pequenos reis que não sabem escutar “não”. Os homens do futuro serão apenas crianças grandes e não homens.

– O senhor tem razão, e todos os indícios de que isso está ocorrendo já estão por aí! Crianças tolas, adolescentes estúpidos e alguns adultos idiotas que acreditam que tudo podem, que são cheios de direitos e não têm deveres. Eles vivem como eternos solteiros, querendo amor e vivendo relacionamentos vazios e se afogando apenas em bebida e badalação, mas estão vazios por dentro, como uma casca seca e sem vida envernizada por fora.

– E o pior de tudo nem é isso, vocês sabem a consequência de tudo isso, não?

– Homens fracos destroem os relacionamentos, a confiança e as bases das mulheres. – disse, filosoficamente outro presente – Elas não se sentem acolhidas, amadas, fortes e determinadas ao lado de alguém que não tem nada a oferecer a não ser insegurança constante e múltipla. Ou seja, deixando escapar nossos segredos, criamos um monstro que destruirá nossa criação e, assim fazendo, destruirá as próprias mulheres, que agora terão a falsa sensação de poder quando na verdade ele sempre esteve nas mãos delas…

– Pois é, por isso peço que parem de ser multitarefa e sensíveis quando elas estão por perto. Sejam apenas fortes e grosseiros!

– E agora, o que faremos? Há como reverter o quadro?

– E se passarmos nós mesmos a criar nossos filhos e passar os ensinamentos adiante?

– Impossível, todos sabem que somos dóceis demais, caímos de joelhos ao primeiro olhar meigo. Apenas uma mulher é capaz de ser dura e exigente e atenciosa a ponto de ser violenta no amor, dando as condições de desenvolvimento perfeitas.

– Qual é a solução?

– Cerveja, futebol, indiferença dentro de casa e sexo rude por muito tempo, talvez consigamos fazê-las retomar as rédeas da situação.

Um rapaz loiro e afobado adentra o recinto com algumas páginas na mão e, estranhamente, um ábaco na outra e se dirige ao coordenador do encontro.

– Senhor, acaba de chegar a notícia de que Donald Trump se desculpou com os mexicanos, muçulmanos e com as mulheres e abriu uma ONG para cuidar melhor dos imigrantes e empoderar o sexo feminino, inclusive apoiando a comunidade LGBT.

– O caos é iminente rapazes, nossa última defesa caiu, a boçalidade é irrevogável agora. Corram para as montanhas!

– Posso só terminar de tricotar esse suéter antes? – questionou um jovem que cosia, fazia poemas e arrumava o motor de uma moto ao canto…

Publicado por

RDS

Jornalista, escritor, metido a poeta e comediante. Adorador de filmes e livros, quem sabe um filósofo desocupado. Romântico incorrigível. Um menino que começou a ter barba. Filho de italianos, mas brasileiro. Emotivo, sarcástico e crítico, mas só às vezes.

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