Qual lobo você alimenta?

Estou correndo pela floresta, com um lobo às minhas costas, não sei o que me resta e nem quais são minhas apostas. Em mim mesmo, nos outros, na vida? Tenho vagado sem rumo desde que perdi meus princípios, tenho sido um fantasma em minha própria caminhada. Sei, porém, que também sou canino, lobo solitário que uiva para a lua. Minha companheira prateada no céu límpido, a luz dentro de minha alma obscura.

Somos algo tão material e concreto como carne, sexo, calor; assim como também somos transcendência, elevação, espírito, arte.

O mais confuso de tudo é que, apesar de parecerem coisas diametralmente opostas ou até contraditórias, não há uma sem a outra e elas não existem sozinhas. Porém, inundar-se de uma completamente te impede de enxergar e revelar os segredos da outra.

Perder essa conexão entre ambas nos deixa desligados do mundo, de nós mesmos, da vida. E assim como somos apenas um, indivíduo singular, também somos o todo, o tudo, os outros. Como conciliar? Estar desconectado de si e do mundo só nos leva a vagar nessa floresta sem rumo, com a fera às costas e com o olhar tão amedrontado que não conseguimos ver as maravilhas ao redor.

Tanto que não sabemos o que é e nem o que exige de nós, mas buscamos sentido para a existência em meio a demandas e vontades de pessoas que tiveram uma ideia qualquer, em algum momento da história, e quiseram nos impor o que pensaram como se fosse a única vontade existente do universo.

Vamos lá, a Justiça não existe, é só um conceito abstrato, assim como direitos! De onde vêm tais garantias, afinal? Pura concepção da civilização e a gente só aceita e acha que importa porque nascemos nesse sistema, então é mais complicado de contestar.

Entretanto, numa análise mais profunda, a gente só vê que a organização do mundo e da sociedade é dessa forma não porque é o melhor para todos, mas porque é melhor para alguns, especificamente os que se beneficiam disso.

Mas será que da forma como as coisas estão, elas não facilitam que enterremos cada vez mais nossa fonte criadora e força motriz bem fundo na alma, como se escondêssemos um problema que não pode aparecer, com medo de ser quem somos e fazer coisas incríveis porque não podemos nos revelar como queremos porque não atenderíamos aos “padrões”, se é que existem?

Lembrem-se que a melhor maneira de se dominar alguém é convencê-la(lo) de suas ideias e fazê-las lutar por você para manter um status quo que te privilegie, mais ou menos como funciona um exército. Expresse-se tão bem a ponto de convencer que a ideia é da pessoa que ouve e não de quem fala e terá seu próprio exército.

A gente segue sendo “bonzinho” simplesmente porque entendeu que era o certo desde cedo e tudo bem! Ou porque queremos aprovação sei lá de quem, ou de quê! Mas não se pode dizer que as leis foram feitas pensando em todos. Elas protegem uma camada e isso é tão antigo que nem sabemos de onde vem.

E então, é melhor cem dias de ovelha ou um de lobo?

lobo Rodrigo_Jay

Pensem nisso, em algum momento inventaram a regra do jogo e não estávamos lá! Agora somos obrigados a jogar com regras que vieram antes de nós e que chamam de ética, igualdade, direitos ou mesmo justiça. Para quem?

Eu devo viver dentro de uma sociedade que enterra minha arte, minha maneira de ver e viver e me joga no limbo porque não me acostumo a baixar a cabeça e me submeter a tudo que está posto?

Se eu discordar de toda a forma de governo conhecido e quiser fazer do meu jeito, para onde devo ir? Existe esse lugar sem algum babaca querendo dizer quanto devo pagar pra morar, comer ou que moeda usar?

O lobo segue às nossas costas, mas também somos lobos, não se esqueçam.

Perdi meus princípios internos porque ouvi demais o que havia fora e caí em um encantamento tolo. Desconectei-me de mim, o íntimo. Entretanto, o instinto, meu uivo, raiva e rosnado continuaram roncando abaixo da minha superfície civilizada.

Como trazê-la à tona é a grande questão. Como despertar o que sou, o que fui, o que desejo mais profundamente?

As verdades são todas passageiras para o mundo, são os significados que criamos a nós mesmos que importam, afinal!

A escravidão era lei um tempo atrás… assim como proibição de voto feminino, assim como aborto ainda é e um monte de coisas tortas e que não fazem jus a nossos animais internos.

Leis são ideias temporárias de uma ética passageira que tenta organizar a massa para que ela não se preocupe com o que se passa mais acima (ou mais abaixo), que nos faz ignorar que a maioria sustenta uma camada que não precisa de limites e que é quem dita e altera as regras do jogo a seu bel prazer, deleite e necessidade.

Às vezes, alcançamos alguma iluminação, alcançamos a luz, mas ela pode se perder novamente, é muito difícil saber se existe um ponto em que nos encontramos e não nos perdemos mais de nós mesmos, mas não há certeza de que esse ponto exista. O sentido da existência é individual, é uma tarefa de cada pessoa, mas ainda assim ela é fugidia.

E o que você fará diante disso? Delegará o seu coração às definições externas do mundo ou tentará buscar a si mesmo, a si mesma?

Se você acredita que há algo a mais, então aqui vai o que me parece uma verdade possível de ser aceita: o ser humano é um projeto contínuo, infindável e infinito, por isso é indefinível. Mas o projeto é teu e não de quem quiser, não do peso do olhar do Grande Outro.

Como diz a música dos Hermanos, é a solução de quem não quer perder aquilo que já tem e fecha a mão para o que há de vir.

Se você tem medo de se perder em sua selva, não conseguirá encontrar o tesouro do animal escondido em ti que te traz o seu olhar sobre o mundo.

Quando nós abrimos as mãos, nelas cabem todo o universo! Como a cabana onde o patriarca lutou contra o próprio Deus durante toda a noite.

Devemos olhar para os outros, sim, mas não como nos comandam a fazer e sim com nosso senso. O que eu faço da minha vida enquanto minha morte não acontece para que meu acontecimento de existência na vida não passe em branco e nem seja pequeno e banal? E como engrandecer a mim e aos outros?

A grande questão não respondida é a mais pertinente: existimos, e agora? Apesar de tudo, para além do que cogitamos, inventamos, criamos ou explicamos, existimos: e agora?

Nada é pior do que a ignorância para fazer o ser humano sofrer, mas não a ignorância gigantesca e absoluta, esta é uma delícia, dionisíaca, que te permite aproveitar delícias sem mais preocupações.

O problema é a ignorância que reconhecemos, a ignorância que nos faz parar de caminhar por um instante e respirar, daí notamos que respiramos, que  caminhamos e que temos consciência disso. É ao tomar consciência de que tenho consciência que vejo o tamanho de minha ignorância, o quanto não sei e o quanto provavelmente não descobrirei em minha curta vida…

Essa ignorância nos faz sofrer, mas ela só se apresenta àqueles que decidem voltar os olhos ao que não é automático. Não por acaso são essas pessoas que quebram padrões, podem se destacar ou não, ficarem famosas ou não, mas fazem a diferença no mundo, para si e para os outros.

Entretanto, caminhar e tentar se descobrir passa, inevitavelmente, pelo sacrifício, pelo sofrimento, por perder algo em busca de algo mais.

Calos nos pés, nas mãos, cansaço, dores de cabeça, de alma, de consciência, quebra de barreiras.

Poucos querem passar por esse processo, ainda mais quando ele não traz garantia alguma e nem tem um ponto de chegada específico. A única garantia de buscar a verdade de si mesmo é a dor… e poucos estão dispostos a senti-la como parte real e inseparável da existência!

Mas também é importante observar que não trilhar esse caminho de descoberta não garante felicidade e tranquilidade, muito pelo contrário. Causamos a nossa dor e do outro, mil tipos de sofrimentos diferentes por não querer passar por um sofrimento de descoberta.

Em resumo, buscar um caminho para sair da ignorância dói e pode ser insuportável, mas manter-se na ignorância te alegra por pouco tempo e te leva a causar o sofrimentos a si e aos outros. É como o homem que ignora a farpa na mão e acha que o que a machuca é o fato de tentar segurar as coisas ou acariciar os cabelos de sua amada.

A dor não está em dar o carinho, mas na farpa em ti que não foi retirada.

Ignoramos a farpa e apontamos para o outro dizendo que vem dele nossa dor. Sem nos descobrirmos não há como aplacar o incômodo que existe. Não amo como deveria porque o outro não me permite e não por mim mesmo… Ignorar que nos controlam o tempo todo é tolice, ignorar que tentamos enganar a nós mesmos o tempo todo também. Temos nossas próprias armadilhas armadas em nossos corações.

Admitir o vazio, portanto, dói, mas talvez seja a única maneira de ter esperança de que ele não nos dominará eternamente.

E o lobo está às minhas costas, perto, tanto que sinto seu bafo quente no ar. Paro por um segundo, sem correr, acalmo a respiração, olho para a lua de prata no céu e minha amada celeste me traz a tranquilidade que preciso.

Transitória, cheia de fases, tons, sombras, e ainda assim… bela, encantadora, inebriante e hipnotizante, controladora de mentes loucas e de marés. Ela me lembra de meu próprio coração, do brilho nos meus olhos, da inocência combinada com a sabedoria, da coragem e vontade de viver.

E então me viro e encaro o lobo raivoso. E ele é o próprio mundo, e nele há um grupo sem face que quer me soterrar. E nele há também aqueles que amo, todos e todas e de várias formas. E no centro, no ponto de maior obscuridade e poder, entre sombras, cinza e luz e lava e calor. Ali há uma pessoa.

Eu mesmo… e o uivo se faz presente, de alegria, dor, dúvida, sabedoria, mas acima de tudo, da certeza de que minhas patas ainda têm muito a marcar, criar, proteger, arranhar e se machucar nessa vida.

E aí, qual lobo você alimenta, afinal?

Publicado por

RDS

Jornalista, escritor, metido a poeta e comediante. Adorador de filmes e livros, quem sabe um filósofo desocupado. Romântico incorrigível. Um menino que começou a ter barba. Filho de italianos, mas brasileiro. Emotivo, sarcástico e crítico, mas só às vezes.

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