Talvez fosse tempo de Páscoa, mas não tenho certeza. Sei que era um feriado prolongado e que, na época, ainda por volta dos 14 anos, não trabalhávamos com a necessidade de sustentar nossos lares.
Éramos jovens ainda numa transição entre buscar diversões mais adultas e ter uma espécie de ficção instalada na mente em que tudo era possível, desde histórias de terror, invasão alienígena ou mesmo acontecimentos ao estilo Stranger Things… Mesmo a série estando longe de existir então. No entanto, numa breve reminiscência, talvez esteja aí o grande sucesso da produção: muitos de nós viveram experiências como aquela, nem que fosse na nossa própria imaginação.
Fato é que éramos um grupo de cerca de 6 adolescentes indo para a casa de campo da avó de um de nós. Mas havia um detalhe que deixava tudo melhor. Os avós do meu amigo moravam num sítio, com plantação e tudo, perto da linha do trem. Além da casa em que viviam, estavam construindo uma maior, afastada da antiga, mas dentro do mesmo terreno.
A estrutura principal da nova casa já estava pronta. Tinha uma breve cozinha, banheiro com porta e luz (o interruptor do banheiro ficava para o lado de fora, o que invariavelmente gerava brincadeiras, piadas e o fato de deixarmos alguém no escuro quando ali estava), o local era grande o suficiente para jogarmos colchões no chão, espalhar jogos de tabuleiro e muito mais. O local era isolado o bastante para que nossas conversas e risadas não atrapalhassem os avós do meu amigo, mas ainda seguro e dentro da propriedade.
Como era de se esperar quando adolescentes ficam encarregados de suas necessidades básicas, iríamos sobreviver, mas não se pode dizer que da maneira mais saudável. Entre apetrechos para churrasco, miojo e hambúrguer, até que nos viramos bem.
Na hora em que começamos a rodada de revezamento para usar o banheiro e tomar banho, surgiu a questão. Um de nós perguntou se alguém poderia emprestar um sabonete, pois que havia esquecido.
Entre o orgulho que estávamos de termos lembrado cada um de suas roupas, pasta e escovas de dente, além da comida e também dos jogos, ficou aquela pergunta no ar… Ninguém havia levado sabonete e pedir aos avós estava fora de cogitação por expôr nossa incapacidade.
O neto dos donos do sítio investigou e encontrou um no banheiro. Era isso, não havia volta, um sabonete para seis adolescentes por cerca de três dias.
Depois de algumas ideias de como deveríamos proceder (pensamos até em um sorteio, o que faria com que apenas um de nós pudesse se banhar decentemente por aqueles dias), combinamos que, cada um que fosse tomar banho, deveria passar o sabonete na mão e a mão no corpo. Evitando que o sabonete tocasse diretamente as partes íntimas, acumulasse pelos e causasse aquele asco que os adolescentes costumam ter dos outros e de si mesmos.
Aquilo era um trato para deixar a cabeça de alguém tranquila, mas também um acordo de confiança, pois se algum de nós passasse o sabonete diretamente no corpo, ninguém teria como saber.
Não sei quem cumpriu ou não o acordo, apenas o que sei é que o banho foi uma questão tão marginal que depois se perdeu em meio a tantas boas histórias, conversas, jogos e ideias, incluindo andanças na linha do trem, invasão à propriedade e visita alienígena.
E, apesar de eu não ter sido nem o primeiro e nem o segundo a tomar banho, sei que não encontrei nenhum pelo no sabonete.
É sobre confiança…

Deixe um comentário