Peguei o copo de forma despretensiosa enquanto contava uma história, alguns colegas riram quando cheguei a um desfecho e aproveitei o momento das risadas para dar um gole no uísque que estava em minhas mãos, sem gelo… E te enxerguei em mim de repente.
Foram incontáveis vezes que te vi repetir o gesto: uma mesa, um petisco, uma bebida na mão, alcoólica ou não, e uma história que todo mundo parava pra ouvir. A verdade é que nem sempre a narrativa era engraçada ou de suspense, mas todos queriam te ouvir, fosse qualquer coisa que tivesse a dizer, era bom estar na sua companhia.
Não te vi em mim porque sou cativante como você, ninguém é. Mas foi a semelhança do gesto, involuntário. Às vezes me pergunto que outros gestos seus eu repito, pois sem dúvida devem ocorrer. E fico na dúvida se são aqueles bons, que eu gostaria de fazer e que me marcaram como quem sou hoje, aqueles que permanecem na memória.
Engraçado como nem sempre são as coisas grandes que a nossa mente escolhe para fotografar e colocar naquele álbum que fica dividido entre nosso cérebro e nosso coração, em conexão direta um com o outro.
Um momento simples, por exemplo, do qual já devo ter falado outras vezes, foi um início de noite de sábado. Eu e o meu irmão estávamos no quarto jogando Jogos de Verão, do Master System, um game apropriado para a ocasião, já que a estação era aquela e ainda estávamos no horário de verão.
Era perto das 19h e ainda tinha claridade no céu quando você e a mamãe nos chamaram lá na sala. Ninguém estava com “fome de janta”, mas todos aceitaram um sorvete. Fomos até a padaria na esquina com a avenida e vocês compraram um sorvete napolitano de 2 litros da Kibon.
Voltamos pra casa e ficamos ali no portão da rua. Vc sentado com a mãe na baixa mureta de cimento que protegia o cavalete de água, meu irmão com a perna apoiada no muro e eu variando entre os degraus da escada em frente ou o muro ao lado do cavalete.
Comemos o sorvete naqueles potes de uma espécie de plástico de cor preta, tão antigos, nos quais você já fez muitas gemadas para nós, nos quais já cortou queijo e salpicou de azeite e de orégano, eles eram versáteis e simples. Sabe pai, a mãe ainda tem esses potes lá em casa.
Na verdade, a gente guarda muita coisa tua, não material, você não era assim, mas eu mesmo tenho um monte de armários cheios na minha memória e coração. Com momentos, olhares, palavras, ensinamentos. Você e a mamãe são pessoas que eu nem sei descrever, só tenho sorte e agradecimento por tê-los.
Sei que ninguém é perfeito, não é sobre isso. Mas sobre vocês terem mostrado o mundo para nós de um jeito que protegia e ensinava, que empurrava e segurava, que mostrava a importância da mesa, da conversa. Naquela mesa, na qual nos reunimos tantas vezes, foi onde foi derramado uma espécie de fermento e fundação de quem eu sou.
E eram mesas que às vezes nem precisava de mesa, como no dia do sorvete, em frente de casa, curtindo a noite de verão subir no céu, comentando a rua, vivências e, claro, ouvindo suas histórias e rindo. Você sempre fez a gente rir muito. Agradeço por isso também.
Agradeço porque sei do teu contexto e da mãe. Você nasceu dois anos e dois meses depois do final de uma guerra que arrasou seu país, veio pra cá novo, trabalhou desde os 8 anos de idade e passou por tanta coisa que seria fácil não querer mais sorrir. Mas não, você não só ria como fazia rir e gargalhar, sempre teve um coração artístico ao qual não se dedicou profissionalmente, e que sempre te acompanhou. Até teus arroubos de irritação tinham um toque performático.
Pai, amanhã é dia dos pais e a gente já passou, de novo, pelo teu aniversário esse ano. Seu e da mamãe, pois vocês quiseram marcar mais uma data como inesquecível.
Já foram uns 8 anos sem você e é claro que tenho saudades, mas não uma saudade que bloqueia e trava, gosto de falar de ti porque você não tinha medo e não foi o que me ensinou a ter. Mas tenho lembranças, ah, isso tenho, isso você me ensinou. A degustar histórias, palavras, sorrisos, gestos, uma cerveja, um queijo, um pão, um uísque. O senhor me ensinou a estar na mesa, com as pessoas.
Imagino se alguém, em algum momento, terá de mim as boas lembranças que tenho de ti, não iguais, nunca são e cada pessoa é única. Penso, no entanto, se estou deixando algo para depois, algo bom, não como os potinhos pretos, mas como a gemada, o sorvete, o queijo, os lanches na chapa que sempre estarão lá, porque estão temperados com uma conversa até tarde da noite, com uma segurança infinita de estar contigo ali sem se preocupar com o tempo, com papos sobre amor, dor, alienígenas, Deus.
E por falar em Deus, espero que estejam juntos, pai, porque se Ele me presenteou com você e a mamãe, não teria outro lugar para você estar.
Desejo que meus gestos possam se assemelhar um pouco a ti, não porque foi perfeito, mas porque viveu com o coração aquecido em meio ao caos do mundo e soube sorrir de e para uma vida que nem sempre sorria de volta.
Feliz dia dos pais! Saiba que sempre falta algo desde que você se foi. E nunca vai deixar de faltar, mas essa falta dói e é boa ao mesmo tempo. Uma daquelas coisas que não se explica, mas se sente.
Obrigado, pai!

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