Renan De Simone

Naquela mesa

Peguei o copo de forma despretensiosa enquanto contava uma história, alguns colegas riram quando cheguei a um desfecho e aproveitei o momento das risadas para dar um gole no uísque que estava em minhas mãos, sem gelo… E te enxerguei em mim de repente.

Foram incontáveis vezes que te vi repetir o gesto: uma mesa, um petisco, uma bebida na mão, alcoólica ou não, e uma história que todo mundo parava pra ouvir. A verdade é que nem sempre a narrativa era engraçada ou de suspense, mas todos queriam te ouvir, fosse qualquer coisa que tivesse a dizer, era bom estar na sua companhia. 

Não te vi em mim porque sou cativante como você, ninguém é. Mas foi a semelhança do gesto, involuntário. Às vezes me pergunto que outros gestos seus eu repito, pois sem dúvida devem ocorrer. E fico na dúvida se são aqueles bons, que eu gostaria de fazer e que me marcaram como quem sou hoje, aqueles que permanecem na memória.

Engraçado como nem sempre são as coisas grandes que a nossa mente escolhe para fotografar e colocar naquele álbum que fica dividido entre nosso cérebro e nosso coração, em conexão direta um com o outro. 

Um momento simples, por exemplo, do qual já devo ter falado outras vezes, foi um início de noite de sábado. Eu e o meu irmão estávamos no quarto jogando Jogos de Verão, do Master System, um game apropriado para a ocasião, já que a estação era aquela e ainda estávamos no horário de verão. 

Era perto das 19h e ainda tinha claridade no céu quando você e a mamãe nos chamaram lá na sala. Ninguém estava com “fome de janta”, mas todos aceitaram um sorvete. Fomos até a padaria na esquina com a avenida e vocês compraram um sorvete napolitano de 2 litros da Kibon.

Voltamos pra casa e ficamos ali no portão da rua. Vc sentado com a mãe na baixa mureta de cimento que protegia o cavalete de água, meu irmão com a perna apoiada no muro e eu variando entre os degraus da escada em frente ou o muro ao lado do cavalete.

Comemos o sorvete naqueles potes de uma espécie de plástico de cor preta, tão antigos, nos quais você já fez muitas gemadas para nós, nos quais já cortou queijo e salpicou de azeite e de orégano, eles eram versáteis e simples. Sabe pai, a mãe ainda tem esses potes lá em casa.

Na verdade, a gente guarda muita coisa tua, não material, você não era assim, mas eu mesmo tenho um monte de armários cheios na minha memória e coração. Com momentos, olhares, palavras, ensinamentos. Você e a mamãe são pessoas que eu nem sei descrever, só tenho sorte e agradecimento por tê-los.

Sei que ninguém é perfeito, não é sobre isso. Mas sobre vocês terem mostrado o mundo para nós de um jeito que protegia e ensinava, que empurrava e segurava, que mostrava a importância da mesa, da conversa. Naquela mesa, na qual nos reunimos tantas vezes, foi onde foi derramado uma espécie de fermento e fundação de quem eu sou.

E eram mesas que às vezes nem precisava de mesa, como no dia do sorvete, em frente de casa, curtindo a noite de verão subir no céu, comentando a rua, vivências e, claro, ouvindo suas histórias e rindo. Você sempre fez a gente rir muito. Agradeço por isso também.

Agradeço porque sei do teu contexto e da mãe. Você nasceu dois anos e dois meses depois do final de uma guerra que arrasou seu país, veio pra cá novo, trabalhou desde os 8 anos de idade e passou por tanta coisa que seria fácil não querer mais sorrir. Mas não, você não só ria como fazia rir e gargalhar, sempre teve um coração artístico ao qual não se dedicou profissionalmente, e que sempre te acompanhou. Até teus arroubos de irritação tinham um toque performático.

Pai, amanhã é dia dos pais e a gente já passou, de novo, pelo teu aniversário esse ano. Seu e da mamãe, pois vocês quiseram marcar mais uma data como inesquecível.

Já foram uns 8 anos sem você e é claro que tenho saudades, mas não uma saudade que bloqueia e trava, gosto de falar de ti porque você não tinha medo e não foi o que me ensinou a ter. Mas tenho lembranças, ah, isso tenho, isso você me ensinou. A degustar histórias, palavras, sorrisos, gestos, uma cerveja, um queijo, um pão, um uísque. O senhor me ensinou a estar na mesa, com as pessoas.

Imagino se alguém, em algum momento, terá de mim as boas lembranças que tenho de ti, não iguais, nunca são e cada pessoa é única. Penso, no entanto, se estou deixando algo para depois, algo bom, não como os potinhos pretos, mas como a gemada, o sorvete, o queijo, os lanches na chapa que sempre estarão lá, porque estão temperados com uma conversa até tarde da noite, com uma segurança infinita de estar contigo ali sem se preocupar com o tempo, com papos sobre amor, dor, alienígenas, Deus.

E por falar em Deus, espero que estejam juntos, pai, porque se Ele me presenteou com você e a mamãe, não teria outro lugar para você estar. 

Desejo que meus gestos possam se assemelhar um pouco a ti, não porque foi perfeito, mas porque viveu com o coração aquecido em meio ao caos do mundo e soube sorrir de e para uma vida que nem sempre sorria de volta.

Feliz dia dos pais! Saiba que sempre falta algo desde que você se foi. E nunca vai deixar de faltar, mas essa falta dói e é boa ao mesmo tempo. Uma daquelas coisas que não se explica, mas se sente.

Obrigado, pai!

Comments

Uma resposta para “Naquela mesa”.

  1. Avatar de SHIRLEY TADDEI DE SIMONE
    SHIRLEY TADDEI DE SIMONE

    Pai é sempre alicerce que remete saudades a bons momentos de nossas vidas que ficam para sempre em nossos corações.

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