Renan De Simone

As caminhadas silenciosas

Era um jornalista saído de um quadro de Hopper, com um quê de clássico e muito solitário, que terminava suas noites em um balcão qualquer. De uma lanchonete ou de um bar. Não interagia com ninguém nessas horas, já tinha interagido demais ao longo do dia, buscando histórias onde elas não estavam. Ali, sem ninguém falando com ele, de alguma maneira sentia que as verdadeiras histórias aconteciam.

Voltando para casa depois de algumas doses de um uísque duvidoso, passou em frente a uma pequena porta de madeira gasta de onde achou sair um som velado de jazz.

Empurrou a guardadora daquele umbral e, pela fresta, entreviu um ambiente enfumaçado, mas não viu ninguém fumando. Algumas pessoas estavam sentadas a mesas redondas simples, mas não falavam entre si. 

Entrou. 

O barman se movimentou parecendo que iria mandá-lo embora, mas, ao vê-lo, parece ter mudado de ideia, ele pertencia àquele lugar. 

Sentou-se sem dizer palavra. A cadeira rangeu sob seu peso, um som discreto como tudo ali. O copo chegou antes do pedido – um uísque âmbar, servido com a precisão de quem já sabia o que ele precisava. Talvez o barman soubesse mesmo. Talvez todos ali soubessem. Um pacto tácito parecia selado entre os presentes: ninguém era dali, mas todos estavam.

A música não preenchia o ambiente – ela desenhava as paredes. O som era forte, impregnava o ar como poeira antiga de um passado que nunca aconteceu. O jornalista encostou os cotovelos na mesa e observou. Havia um homem de terno cinza escuro lendo um livro sem capa, uma senhora de cabelo branco em coque, os olhos fechados, como se ouvindo algo que já não tocava. Um casal dançava de leve, mas seus pés não encostavam no chão, aliás, um quase parecia não tocar o outro, como essa leve distância que alguns casais criam ao longo do tempo.

O saxofonista – magro, alto, de chapéu desabado – parecia alheio a todos, até ao próprio corpo. Tocava como se tocasse um segredo, algo que só os tristes saberiam decifrar.

Em algum momento entre o segundo copo e o tilintar de um copo distante, o jornalista sentiu que o tempo ali obedecia a outro ritmo. Não era só a música que era jazz – era o próprio tempo. Improvisado, arrastado, sincopado. Era como se o lugar existisse apenas para aquelas noites em que ele não soubesse aonde ir. E agora, existia.

Depois de um tempo, percebeu que a névoa já estava baixa, mas a música crescia, o cara do saxofone foi se empolgando, acelerando cada vez mais, seus dedos frenéticos, seu sopro compassado, o corpo todo se movia ao som da música, a banda acompanhava, admirada. No entanto, as outras pessoas apenas observavam, impassíveis, como em evento comum.

Quando o jornalista achou que o músico teria um colapso, a música se tornou cada vez mais intensa e bela e o saxofonista começou a se desfazer. A névoa aumentou novamente, dando àquele ambiente ares de sonho.

Respiravam agora aquela pessoa.

As brumas cobriam o ambiente, mas ninguém fumava. Ele percebeu a porta atrás de si se entreabrir e uma mulher distinta, em um vestido longo, cor vinho, agarrado ao corpo, entrou. 

Admirou seus longos cabelos dourados, era bela, mas não lhe dirigiu palavra. Ela estava descobrindo um espaço e tempo diferentes, como ele havia feito. Terminou seu terceiro copo de uísque, que não sabia como tinha surgido na mesa, mas que reconhecia ser de qualidade. Olhou para o barman e ele lhe fez um pequeno aceno. Ele retribuiu.

Levantou-se e ganhou a rua, já entrevendo um amanhecer tímido. 

Foi para seu pequeno apartamento e teve a certeza de ter vivenciado uma história verdadeira, sobre a qual nunca escreveria, pois as pessoas estão preocupadas demais com a inflação, as ações ou a guerra do outro lado do mundo. 

Ninguém pararia para ler sobre um saxofonista que se desfez em música numa noite solitária, apenas para que a arte seguisse viva e uma bela moça no vestido vinho pudesse descobrir uma nova canção.

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