Renan De Simone

Te conheço de outra foto…

Vi você no jornal de ontem. Numa matéria pequena, quase acidental, como aquelas notas que só existem para preencher espaço entre os anúncios de colchões e os classificados de aluguel. Estava ali, sorrindo com esforço, como quem tenta lembrar como era fazer isso de verdade. O título da matéria não importa — era algo sobre uma nova função, um novo projeto, uma nova cidade. O que me chamou atenção foi o olhar: aquele tipo de olhar que já desistiu de brigar com o tempo.

Mas eu me lembro de você de outra fotografia. Uma em que seus olhos estavam acesos, carregados de certezas. Era uma imagem em preto e branco que guardo na cabeça como quem guarda um segredo: você deitada de bruços na cama, lendo os quadrinhos de domingo em voz alta, interrompendo a leitura para rir. E rir era o que você fazia de melhor — como se fosse paga pra isso. Como se o mundo, diante da sua risada, ficasse sem graça de continuar sendo tão sério. Seus olhos tinham tantas convicções.

O tempo não foi gentil com a gente. Nem cruel. Foi só… ele mesmo, tiquetaqueando nossos momentos para longe. Passou, como um trem que não para nem pra embarque nem pra despedida.

A gente não brigou, por assim dizer, pelo menos não parecia uma briga de fim quando você decidiu ficar em silêncio comigo por alguns dias. A gente não se traiu, não gritou na rua. Talvez o mau tenham sido as mensagens, distantes por si e que declararam um final não declarado. Só fomos mudando de estação, até que um dia descobrimos que estávamos em trilhos diferentes, acenando com lenços imaginários pela janela.

Outro dia acho que te vi na televisão. Era um programa qualquer, desses que fazem reportagem sobre gente que “se reinventou”. E ali estava você, vestida de outra vida, com palavras redondas e gestos comedidos. Bonita, como sempre. Mas com aquele tipo de beleza que pede silêncio, não admiração. Um invólucro elegante cobrindo um vácuo delicado.

Ainda não decidi se era você mesma ou alguém parecida. Talvez este seja o problema, não vejo nem você mesma parecida consigo desde muito tempo atrás. Sempre achei que você devesse estar na TV mesmo, mas não dessa forma, não mudando quem era. O mundo precisava de você, da sua energia, das suas convicções, não essa imitação barata que nem tenta imitar a si mesma. Acho que não percebi essa sua versão nascendo.

Pensei em te escrever, mas o que eu diria? Que sinto saudade da sua gargalhada que rachava os copos na pia? Que ainda sonho com seus planos que nunca se cumpriram, mas que me faziam acreditar em alguma coisa? Diria que sinto falta da minha amiga? Não sei se eu suportaria seu silêncio, ou pior, se você sentisse da mesma forma e decidisse misturar suas lágrimas às minhas…

O mais triste não é você ter mudado de carreira, de cidade, de nome no currículo. É que a alegria também te abandonou. Aquela leveza que fazia você flutuar mesmo em dias pesados. Aquela mania de ver graça onde ninguém via, de gargalhar de repente. Onde foi parar isso tudo? Sumiu em alguma bruma cinzenta ou só está guardado num armário que você tem medo de abrir?

Eu sigo aqui, tentando entender em que momento a gente virou passado. Olho as fotos antigas e penso: será que era amor mesmo ou só uma tentativa bonita de não nos sentirmos sozinhos? Talvez não importe mais. O que resta são essas lembranças que surgem do nada — na manchete de um jornal, num frame da TV, num sonho repetido.

Às vezes acho que ainda vou te encontrar na rua, numa festa de alguém em comum. Mas não essa versão atual, domesticada pelo tempo, mas aquela outra — a da fotografia que só eu tenho. Aquela que ria alto, que me empurrava da cama aos domingos, que tinha planos para mudar o mundo antes do almoço.

Mas aí lembro que você se casou. Vi numa foto que alguém compartilhou, eu acho. Estava linda, claro. E estranha, como se fosse figurante na própria história. Eu não fui ao casamento, nem enviei presente. Só murmurei um “boa sorte” pra ninguém ouvir.

No fundo, ainda sonho com os anos dourados. Não por saudosismo barato, mas porque ali, naquele tempo de riso fácil e amor difícil, éramos qualquer coisa parecida com inteiros. Com os quadrinhos de humor espalhados pela mesa do café. Hoje, somos retalhos. E escondo meu rosto na cama cada vez que volto à minha cidade natal. Retalhos… Mas, pelo menos, de alguma maneira, estamos costurados e tentando sobreviver. Sempre terei os sonhos dos anos dourados.

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