Renan De Simone

Manifesto

Este é o meu manifesto, coletivo e individual,
Para todo aquele que se atreve ao diferente,
Que se enxerga na gente,
Para quem diverge do outro ao ser também igual.

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Porque aquilo que fala de nós,
Fala de outrem e, ainda, também,
Sem dúvida, de mais alguém.
Às vezes fala do que cala, e é no silêncio que surge a voz rara.

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E vós quem sois?
Sois sóis ou são sós?
Chegam para juntar quem espalha, quem se inflama como a palha
Amigos na batalha,
Ou para espalhar quem junta como nós,
Pintando campos de girassóis?

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Para alimentar famintos, eis-nos aqui,
Não fome qualquer, pois que comida há por aí.
Alimentamos os vorazes pela estética,
A poética peripatética
De quem caminha a ouvir.

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Os obstáculos, afinal, ainda são direções,
Ruas com trevas que desenham entre a luz.
A linha risca, cria e limita nossas exposições,
Mas o risco que separa é também o que produz.

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Adentre essas paredes, quem procura um algo a mais,
Não sei o que tu buscas,
Só não pare a busca jamais.
Porque a luz que hoje ofuscas
Também revela os umbrais,
As passagens que nos dizem,
Ao contrário das estradas infernais,
Invertendo as escritas do pórtico:
“Recuperai toda esperança, vós que aqui entrais”.

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A arte mexe, incomoda e machuca,
Emociona, provoca e acende,
Só não passa ao largo, e sim cutuca,
Romantiza e ri das dores da mente.
Julieta que morre em paixão,
Romeu que grita o que sente.
Grito na ponte e no rosto as mãos,
Letras e tintas que saltam ardentes.

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Quase tudo é possível, exceto dizer: “não pertenço a este lugar”.
Se aqui não é para ti, nenhum canto será,
Pois a arte é mais convite ao devir
Do que resposta engessada a se propagar.
É cubismo, imagem-cristal a surgir,
Relógios derretidos a se revelar.

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De tudo que desliza entre nossas mãos,
O que fica daquilo que escapa?
Artistas sãos “sins” em um mundo de “nãos”,
São riscos que guiam, que traçam um mapa.

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Contemplem, pois, os pixels, tecidos e telas.
As telas cosidas em tecidos
E as que refletem pixels nelas.
O que nasce material esquecido,
O que se torna luz tão bela.
E, no instante, o byte produzido
Entrelaça-se na matéria tão séria,
Se torna do mundo batido
Novo olhar de cor e janela.
Mostrando velho alarido
No silêncio da aquarela,
Do proposto ao aquiescido:
Autorretrato, manto e parcela,
Daquilo que já foi vivido
E do imaginado ao que se criará à vera.
Pois entre galeria e miséria
Ecoa o tempo do desgaste tecido,
Dobras da efeméride estérea
E encanto de traços perdidos.
São verdades enganosas e histéricas,
São calada de olhares comovidos,
Infecções, vírus e bactéria,
Cura de remédios coloridos,
Arte que pulsa na veia e artéria
Que marca o prisma composto e trazido.

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Então pergunto, o que levará?
Sairá sozinho, sem olhar profundo?
Porque dentro dessas paredes, há um recorte do mundo:
Você acha que partiu, mas também aqui estará.

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Este, assim, é nosso manifesto, coletivo e individual,
Para “estranhos e normais”, gente de toda parte
Que se atreve a não ser igual
E vê que ecos de um instante não são descarte
Para quem sabe que a vida não tem manual,
Mas tem peito, coração e combate,
Arte que pulsa para pulsar-te tal qual!

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