Renan De Simone

Saudades de quando não era

O riso no cômodo ao lado, que narrava a cena recém vivida, caiu como uma pedra no estômago. Já não seria a primeira, elas se acumularam ao longo dos anos. O saber de que aqueles sem pudor estavam aumentando em números pesou ainda mais e, na penumbra de uma noite na varanda, que prometia leveza e paz, o silêncio pesou como um fardo enquanto a minha alma gritava. As promessas estão ao chão. Estou enterrado dentro de uma areia movediça angustiante, com todo o ônus de ser quem sou e nunca quis.

Saudades de quando amor era sobre amar e não doer.
Nostalgia de quando falar era sobre trocar e não acusar.
Lembranças de quando ser sincero sobre si não era uma ameaça a vocês.
Saudades de quando sonhar era sobre esperança e não desejo de findar.

Lembro-me de quando esse coração batia ansiando coisas por vir. Hoje ele bate mecânico, emperrado, enferrujado, sem entender o motivo pelo qual ainda funciona, aguardando que acabe a bateria, o óleo, o sangue.

Porque a gente se descobre insuficiente para tudo e todos, sempre desapontando, sempre não atendendo a alguma expectativa, seja nossa, seja do outro. A gente sente a decepção na voz, no gesto, numa palavra sussurrada quando achamos que o outro não ouve. E quem ouve atualmente? A grande verdade é que não queremos ouvir nada que não seja nossa própria voz ou aquilo que não querem que a gente ouça.

Saudades de quando não era preciso se provar.
Esse tempo nunca existiu afinal.
Desde quando me percebi pelo meu próprio olhar,
Sou refém do olhar do outro e de cada sinal.

Pelo visto, não deu para ser o exemplo, para alcançar, para ensinar. Todos são melhores, qualquer um serve, basta não ser eu. Sei que sou um mentiroso, pois sempre tentei fazer estar tudo bem, mas talvez nunca estivesse, nunca tenha estado, mas meu sorriso acalmava corações, todos… menos o meu.

O certo agir, pensar e falar dói em mim como remorso do que não se pôde viver. O errado também machuca, porque não é quem quero ser. Qual é o ponto disso tudo?

Por mim já deu! Não consigo ver o futuro, talvez só a lanterna traseira da possibilidade que ele foi um dia. Segue, assim, a vida preguiçosa até acabar, seja como for, que a dormência tome conta.

Se não dá para escalar a montanha, basta olhar o sopé até que acabe a água, que a sombra me engula ou que algum animal selvagem chegue, pois não quero eu me tornar o animal para viver nesse lugar.

Não sou daqui, não pertenço a este lugar e, sendo honesto, nem eu me quero. Não é o bastante, não sou, nunca fui. Sabe Deus que medida é feita pra vida, mas ainda acho que foi tudo um erro, um delírio. Se tudo podes, basta, então, que não precisa de mim, nunca precisou.

Obrigado pelo que concedeu até o momento, mas já posso voltar ao pó, sem nome, sem cara, sem história, sem o fardo de ser quem sou, ou quem tentei ser.

Acabam-se as pretensões, chega de tensões. Saudades de quando não era, não sabia, de quando não tinha sido convocado a existir.

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