Meu cigarro, aliado do tempo perdido,
Carrego nas mãos um momento suspenso,
Na varanda, em silêncio, o céu distraído,
Um elo quebrado, um trago… e estou menos tenso.
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É um tempo que ganho, uma pausa
Respiro no cotidiano e sufoco,
Porque só eu posso defender minha causa
De parar e rever o que me deixa louco.
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Na fumaça, retratos de um ontem distante,
Cada trago é um eco, um fio de memória,
O sorriso esquecido, o amor vacilante.
Que arde e consome pedaços da minha história.
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Vejo a brasa queimar onde o tempo hesita,
O farol lá na rua pisca em compasso,
No ruído do mundo, a torrente esquisita
Desse instante que cala meu breve eu no espaço.
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É verdade, o cigarro me rouba o presente,
Mas oferece em troca um beijo de saudade.
Do seu primeiro sorriso ao adeus mais recente,
Revivo momentos de cumplicidade.
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Eu e meu cigarro, na varanda ou no carro,
Pensando na vida, acompanhando um trago.
Meu cigarro, que me faz pensar em coisas que não sei,
Meu cigarro, que me lembra lembranças que eu já abandonei.
Fumaça no ar, sensação no peito,
Arder e queimar, a vida a memória, e um pouco do meu jeito
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E na noite, tão muda, sou feito da espera,
O relógio murmura segundos aos pares,
A lua espreita, é cúmplice e me tolera,
Enquanto deixo cinzas dos meus pequenos altares.
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No carro, parado, faróis são presença,
Rasgando a estrada de desejos e dramas.
Ao som de motores que proferem sentenças
Cigarro e fumaça são minha crença e tramas.
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E penso no tempo que deixei de viver,
A fumaça em espirais dança como um aviso,
Dos passos perdidos, do que não pude ser.
Queimar por completo é o fim mais preciso.
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É estranho querer o que o peito repele,
Um ciclo constante: fumar e lembrar,
O instante fugaz que a vida compele.
Viver à espera, acender, sentir e apagar.
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Meu cigarro, que me lembra lembranças que eu esqueci,
Que me traz e leva coisas que não sei,
Daquelas que me formam agora que cresci,
E me fazem olhar o que não vivi, pois nunca fumei.

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