Renan De Simone

É preciso desfazer as malas

Nosso corpo não é apenas quem executa, mas é também um arquivo de experiências. O que o corpo repete, o corpo aprende.

Ele registra o que faz, o que fez, e carrega para além, como uma mala que, com o tempo, se enche de histórias, algumas marcadas nela mesma pelo desgaste do uso, outras cuidadosamente dobradas à espera de um próximo momento. Os encontros também são assim, ninguém passa incólume, cada um deixa algo, seja peso, seja leveza ou um espaço vazio que a gente tenta organizar, ou esquecer.

Terminar um relacionamento é um pouco como fazer, ou melhor, desfazer as malas após uma longa viagem…

É preciso atenção e dedicação, saber o que está sujo e precisa ser lavado, o que necessita passar a ferro pra ajustar e o que está em perfeito estado, mesmo depois de ir e voltar, e que pode voltar para nosso uso diário.

A questão é que muitas pessoas param para desfazer a mala enquanto correm para a janela a cada barulho que ouvem na rua, achando que é visita que chegou. Desse jeito, a gente nem arruma a mala direito e nem recebe a pessoa da maneira correta porque, mesmo que a visita fosse para sua casa, você não quer que ela entre em todos os cômodos, pois sabe que a mala desarrumada ainda está lá, em algum lugar…

Mas o pior é que, perguntando para cada um que passa na rua se aquela pessoa estava indo para sua casa, corremos o risco de atender a visita que não era pra gente.

O que o corpo repete, ele aprende. E aí a gente fica bom em sempre abrir a porta para a pessoa errada, para qualquer um. Às vezes até achamos que é visita, mas descobrimos que era um pedinte apenas quem sabe alguém perdido, não no sentido de precisar de ajuda, mas para quem qualquer coisa vale.

Se a gente se acostuma a abrir a porta demais, fica difícil saber o que é nossa casa e o que é a rua… e a mala lá esperando para ser desfeita e organizada.

E se a visita que não para nós resolve entrar e sentar, aí o papo não bate, as perguntas não encaixam e, mesmo que a gente decida oferecer algo para beber ou comer, depois que o petisco acaba e só restam as migalhas, os olhares são desconfortáveis, assim como o silêncio.

Quando a visita não é para a gente, a sensação é que a gente fica só com as migalhas para se alimentar.

Comments

Uma resposta para “É preciso desfazer as malas”.

  1. Avatar de Shirley
    Shirley

    Por isso eu falo desfaça a mala assim que chegar, para a vida seguir 😘

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