Eu o achei, mamãe! Eu achei, iurru!
Foi como daquelas vezes, lembra, em que me dizia para procurar os brinquedos perdidos pela casa? Eu saía, obstinado, revirava tudo até encontrar. Na verdade, acho que tirava tantas coisas do lugar que, em busca de encontrar um brinquedo, acabava perdendo muitos outros. Talvez o “custo-benefício” nem valesse a pena, mas o importante era achar, não é?
Você se lembra de quando eu voltava para casa, depois de uma “caça” bem-sucedida e corria para te mostrar o que tinha encontrado? Sentia um orgulho tão grande, como se fosse um herói de uma aventura qualquer. Sempre gostei dessa sensação de descobrir, de desvendar. Minha curiosidade, aguçada pela adrenalina da busca, fazia-me sentir inteligente, talvez até mais que algumas pessoas. Mais esperto que o mundo.
Era como se eu tivesse uma missão, um propósito e eu tivesse cumprido com perfeição. Desta vez, mãe, eu senti o mesmo, não vou mentir, quando o encontrei. Um lampejo daquela alegria antiga, isso que costumava significar algo bom.
Mãe, eu o achei! Sim… aquele cara que me apontou uma arma.
Me perdoe, mãe, mas quando ele achou que aquilo era uma ameaça, eu quase sorri. Ele não levou nada, eu sei. Tentou a carteira, o celular e um pouco mais, mas não levou. Eu poderia apenas deixar pra lá, mas é difícil, sabe? Não tinha a ver com medo, mas com aquela sensação de sagacidade infantil que sempre adorei. Eu poderia achá-lo e só ia mostrar que, para me ameaçar, ele ia precisar de muito mais, pois não sou todo mundo, você me dizia isso, lembra?
Eu o encontrei, mãe. Você sabe que eu sempre os encontro. Com aquele punhado de amigos meus, um pouco delinquentes, mas fiéis. O tipo de amizade que não hesita quando pedimos algo assim. Eles também têm prazer nisso. Eles me ajudaram com o local, mas a ideia, o fogo, mamãe… A ideia foi minha. Sempre gostei de ver as coisas arderem, desde quando acionei o meu primeiro isqueiro sobre um pouco de desodorante sobre a mesa e a chama azul me brilhou os olhos.
Ele não levou nada, mas acreditou que uma arma apontada me daria medo… Acho que eu o assustei um pouco mais, incendiei a casa dele.
Foi rápido. Calculado, silencioso, cruel talvez. E, enquanto as chamas lambiam as paredes, lembrando-me daquele desodorante ardendo na mesa de casa, eu ouvia os gritos da família dele cortando a noite.
E gostei… Gostei de ver o desespero nos olhos dele, gostei de ouvir os filhos dele engasgando com a fumaça até não conseguirem mais gritar. Fiquei feliz. Como não ficava há tempos… E eu sorri. Sorri com o rosto quente, iluminado pelo fogo.
Hoje, algum tempo depois, o sorriso sumiu. Eu me questionei. Quem sou eu agora? Que tipo de pessoa passa de procurar brinquedos a caçar pessoas e sente alegria ao assistir as sombras correndo dentro da casa, sem poderem sair?
E tudo porque ele foi burro o suficiente para me apontar uma arma. Quando me olhou nos olhos, não sei por que, ele não levou nada, mas se condenou. Não levou meu celular, minha carteira, aliança, nada.
Mas talvez, sem levar nada, ele tenha ficado com um pedaço da minha alma.

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