Renan De Simone

O sabiá que sabia olhar

No coração da mata, onde a luz do sol brincava de esconder entre as folhas, havia uma capivara imóvel, com os olhos semicerrados, quase míopes, mirando algo que parecia muito importante – ao menos para ela. O pássaro, um sabiá curioso e tranquilo, pousou em um galho próximo, inclinando a cabeça com interesse.

— Boa tarde, dona Capivara. O que tanto observa assim, com esse olhar tão apertado? Deve fazer mal espremer tanto os olhos.

A capivara suspirou, forçando um pouco demais na atuação para demonstrar estar enfastiada com o mundo.

— Ah, sabia que alguém ia perguntar. Eu estou apenas assistindo mais uma cena da grande peça que a floresta faz questão de me apresentar todo dia?

— Está admirando, então? – questionou o pássaro, curioso.

— Não se pode admirar algo que é tão óbvio para me provocar. Veja aquelas mangueiras. Estão dando frutos só para me irritar. É claro que é um insulto.

O sabiá deu um pulo no galho, intrigado.

— Insulto? Mas talvez não seja apenas o ciclo delas, que responde ao sol, estações, à chuva?

A capivara ergueu as sobrancelhas, ou o que deveria ser suas sobrancelhas, espremendo o focinho em desaprovação ao sabiá.

— Ciclo? Que ciclo, sabiá? Tudo isso aqui é feito para me provocar. É um jeito da floresta dizer que me ama, mas ao mesmo tempo fingir que não me quer, esse joguinho ridículo que ela faz há tempos Olhe os macacos balançando nos galhos. Estão rindo de mim, com certeza.

O sabiá observou os macacos, que pareciam mais interessados nas frutas que nos pensamentos da capivara.

— Será que não estão só… sendo macacos? Podem estar buscando comida, mas daqui me parecem bem tranquilos, cada um na sua vida, com seus amigos.

A capivara bufou, balançando uma orelha como se o pássaro estivesse falando as maiores tolices.

— Não seja ingênuo, pássaro. Tudo gira ao meu redor. A posição das árvores, os buracos no chão, o som do vento… é tudo sobre mim. Uma trama interminável. Francamente, é cansativo.

O sabiá ponderou, tentando manter a calma.

— Dona Capivara, já pensou que talvez… nem tudo seja sobre você?

A capivara se virou, lenta e teatralmente, como se tivesse ouvido a maior das heresias. Para alguém que criticava as péssimas atuações, ela estava fazendo um trabalho terrível.

— Como assim? Quer dizer, por acaso, que as mangueiras não pensam em mim quando dão seus frutos, que os macacos não pulam para mim, que a brisa não sopra para mexer nos meus pelos? Está sugerindo, por exemplo, que aquela onça que me olhou ontem não estava pensando em mim, apaixonada e perdida sem saber que jogo fazer para atrair minha atenção?

— Talvez estivesse pensando no jantar, num banho no rio, sendo apenas onça — respondeu o sabiá com simplicidade.

A capivara ficou boquiaberta.

— Jantar? Você está dizendo que eu sou só… só mais um animal da mata? Que essas árvores não conspiram por mim?

— Estou dizendo que as árvores dão frutos porque é o que árvores fazem. E os macacos pulam porque macacos pulam. Nem tudo precisa ter a ver com você. A vida segue seu rumo e às vezes o simples é a resposta certa.

A capivara estreitou os olhos ainda mais.

— Você está me chamando de louca?

— Claro que não. Estou dizendo que, do meu ponto de vista, a floresta é muito maior do que apenas uma capivara.

— Ah, seu mentiroso! Você está tentando me confundir, me fazer duvidar de mim mesma! Eu sei o que vejo! Você mesmo, vem me provocar, tentar me conquistar fingindo curiosidade e, de repente, acusa-me de loucura.

O sabiá suspirou, percebendo que a conversa não levaria muito longe, mas respondeu.

— Talvez seja porque vejo o mundo de outro jeito. Eu voo, dona Capivara. Vejo a mata do alto, conheço outras árvores, outros frutos, outros animais. Nem tudo se refere a você e, acredite, isso é algo bom. Talvez fosse bom abrir os olhos para isso.

A capivara franziu o focinho quase num rosnar e, com um ar de falsa descoberta, apontou para ele:

— Arrá! Então é por isso que você veio falar comigo! Esse seu voo, o galho escolhido, até essa conversa… tudo isso foi para mim! Admito, você disfarça bem, mas no fundo, todo esse seu comportamento também faz parte do grande espetáculo para mim!

O sabiá soltou uma risada suave, mas cansada, e balançou a cabeça.

— Dona Capivara, com todo respeito, eu vivia minha vida antes de você e continuarei vivendo depois. As árvores cresceram antes da sua chegada, os macacos já pulavam, os ventos sopravam, as onças jantavam capivaras e eu voava. Nada disso começou quando você apareceu aqui. A natureza não gira em torno de nenhum de nós, muito menos de uma única capivara.

Ela ficou em silêncio por um instante, apenas o suficiente para dar a impressão de que estava refletindo, mas logo retrucou:

— Você só diz isso porque quer me enganar. Sei muito bem que até a sua “vida antes de mim” foi uma longa preparação para esse momento. Não adianta negar!

O sabiá não sabia se ria ou se deveria se irritar, optou por assobiar, percebendo que já era hora de encerrar a conversa e retrucou.

— Essa é sua visão… mas talvez eu apenas veja as coisas de cima, enquanto você as vê do chão. E de tudo que duvido, sei apenas que posso ir embora, e você continuará aqui, acreditando no que quiser.

E com um leve bater de asas, o sabiá voou, subindo cada vez mais alto, até desaparecer no céu.

A capivara o seguiu com os olhos, apertados em pura indignação.

— Covarde! Fugiu porque sabia que eu estava certa. Até esse voo, tão teatral, foi um tributo a mim. Cercada por uma floresta indiferente a ela, mas imune a qualquer sinal, a capivara voltou a mirar os galhos, os frutos e os animais ao redor, convicta de que o mundo inteiro girava em torno dela.

Comments

Uma resposta para “O sabiá que sabia olhar”.

  1. Avatar de Shirley
    Shirley

    infelizmente nesse mundo existe muitas capivaras, parabéns meu poeta

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