Renan De Simone

Cicatrizes invisíveis – o elástico, a areia, a brisa

Quando criança, o tempo era elástico. Ele cabia em tudo: nas tardes infinitas de brincadeiras, nas histórias lidas antes de dormir, nos silêncios em que o vento soprava no rosto. E era apenas isso, o vento soprando no rosto, um sol que me banhava no quintal enquanto corria com meu cachorro, um elástico que eu poderia esticar para onde quisesse.

Às vezes, na ansiedade para o Natal, para a primeira pescaria que me faria acordar às 4h da manhã, ou para uma festa, o tempo parecia retesado, difícil de correr, emperrado. Mas tinha tempo de pensar, imaginar, criar cenários, vivia o dia dez vezes antes de vivê-lo realmente, mas de uma maneira gostosa. Degustava os momentos muitas vezes, quantas quisesse.

Hoje, quando penso no tempo, ele é uma moeda em constante desvalorização. O que tenho agora é apenas a sombra do que terei perdido daqui a pouco. Vivo sob a lógica do “não ter mais”, um relógio que corre mesmo quando estou parado. E, parado, sinto-me culpado.

Quando “tenho tempo”, vivo com uma perspectiva de que daqui a pouco não terei mais tempo, entende?

Não falo da morte, falo de tarefas de pressa, da maneira insana como o mundo, as coisas, as pessoas parecem correr ao nosso redor. Não há descanso, sobra a exaustão. “Ter tempo” no agora me força a uma perspectiva de que, antes de começar, esse período já é curto demais, sem elasticidade, uma fita que se romperá inevitavelmente. E, por isso, atividades que pareçam exigir “mais tempo”, são deixadas de lado.

Atualmente, e infelizmente, para completar o cacófato, não quero dedicar-me a coisas que elevam a alma no longo prazo, porque o longo prazo tornou-se um conceito esquisito, distante, quase zombeteiro. Ele vai chegar apenas com mais tarefas, responsabilidades e cansaço.

Prefiro atalhar. Antecipar tarefas, comprar “tempo futuro” como quem estoca água antes de uma seca. Mas a seca é no agora, o “tempo estocado” se esvai antes que o futuro chegue…

Descansar também perdeu o significado, de certa forma. Quando repouso, a mente corre para o que ainda não fiz. Meus momentos de pausa são projetos inconclusos, um alívio apenas no corpo, enquanto a alma segue exausta. “O que eu deveria estar fazendo para que no futuro tenha tempo?”, me pergunto. E a resposta não vem. Não vem porque não existe, porque a pergunta, em si mesma, é insensata.

O tempo se torna cicatrizes invisíveis, aquelas que não desenhei em minha história enquanto me preocupava.

Quando criança, o tempo adulto que imaginei era outro. Aquele tempo tinha manhãs plácidas, tardes produtivas e noites tranquilas. Era um tempo que, de alguma forma, me foi roubado. Ou talvez eu tenha perdido no caminho, distraído com a necessidade de provar que existo para mim mesmo… Ou tentando descobrir o porquê existo, afinal!

E por que lutamos tanto pela existência? Por que não apenas “deixar-se estar”? Qual é o prêmio? Um pertencimento que nunca chega? Não sei o que é pertencer; não sei se um dia soube. Parece que o ato de viver é sempre escapar por entre os dedos do que realmente importa. Como uma ideia que se desvanece ao tentar ser formulada com concretude, um vislumbre de fumaça que se desfaz ao vento.

O tempo, que já foi amigo e hoje é algoz, me provoca. Mas, ainda assim, às vezes, ele brinca comigo. Em um abraço inesperado, numa risada que ecoa de verdade, em um instante fugaz em que tudo parece fazer sentido, quando me esqueço dele. Esses lampejos são o que resta de uma era em que eu era o dono do tempo, com uma ampulheta em minhas mãos e quase fazendo a areia subir em vez de escorrer.

Sigo… num vai e vem de urgências e vazios, de cansaços e pequenas iluminações. Quem sabe, ao final, descubra que o tempo que procuro nunca foi algo a conquistar, a “ter”. Talvez ele seja apenas o que escapa entre os segundos, o que persiste entre a respiração e o esquecimento. O tempo que se vive é aquele que acontece quando não se olha para ele.

Ele não se guarda, não se estoca, não se compra. O tempo só é. E nós, com sorte, também apenas somos nele, quando nos permitimos esticar, como um elástico. Talvez já velho, mas que ainda sente uma brisa no rosto, sorri ao sol ou dorme ansioso por uma pescaria…

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