Lá estava ele, o homem que fazia perguntas ao vento, questionava um amigo sem rosto, uma voz que não tinha face, talvez nem história. Era fácil vê-lo, sentado, olhando não de uma forma vazia, mas daquele jeito como quando olhamos em direção a algo, mas nosso olhar foca em outro objeto e tudo parece estar dentro e fora de cena ao mesmo tempo. Tudo parece desfocado nesse instante e, ao mesmo tempo, em perspectiva.
Ele estava ali, com as perguntas rolando na mente, às vezes até sussurradas, e só então percebi: eu era o vento que o respondia. Era também uma voz que ele ouvia com uma leve desconfiança, sem saber de onde vinha. Mas quando as perguntas são muitas, a gente aceita respostas até de uma brisa.
– Por que você nunca fala direto? Tem um tom, assim, meio condescendente, sabe? Como quem anda na ponta dos pés ao redor de um sentimento – ele me questionou um dia, sagaz como sempre era, dizendo o esperado e um pouco a mais. Ele sempre dizia um pouco a mais, para mim ou para as outras pessoas.
E eu, no meu jeito de vento, balancei as palavras lentamente, como folhas que voam sem fazer barulho. “É porque, talvez, as coisas mais difíceis de dizer só possam ser ditas assim, devagar”.
A resposta não o convenceu. Ele queria mais, sempre buscava mais, questionava mais. Queria, quem sabe, aquele tom seco que, de vez em quando, corta a brisa e deixa a alma nua.
– Você deveria ser mais direto, sabe? Dizer de uma vez: “isto está bom, aquilo está ruim”. É assim que se faz. – Escutava ele falar sem saber se era comigo ou com ele mesmo.
Logo eu, que tanto percorro o mundo, que suspiro sobre os sentimentos dos outros e as maneiras de dizer o que não tem nome… Olhei para dentro e vi que, no fundo, eu também andava na ponta dos pés. Me vestia de palavras para não magoar ninguém, também precisava aprender a ser um pouco mais vento do Sul, direto e seco, talvez até frio.
Mas ele, sem saber, já me disse muito de si enquanto dizia sobre mim. Parecendo ser sobre amargura aquele confronto, o homem que conversava com o vento talvez estivesse tratando de amadurecimento. Ao abrir a boca ele se escancarou, pois que é o tipo de pessoa que enxerga o coração dos outros como quem procura nas entrelinhas – até as falhas, os erros pequenos – e tenta sempre ver sentido, mesmo onde não há.
Ele entende o que é ser cuidadoso, mas, paradoxalmente, não fala dessa maneira consigo mesmo. É com ele que é crítico, com ele que o julgamento é direto e, às vezes, cruel. E talvez, quem sabe, ele veja em mim, a voz sem rosto, o amigo sem nome, o desejo de um conselho que ele mesmo não consegue dar a si.
Ele parece buscar uma fé que acolha todas as nuances, que passe longe do medo e da culpa, uma fé que seja abraço. Mas talvez queira ouvir dela uma palavra mais seca, que lhe diga a verdade das coisas e não perdoe os erros, pois ele não se perdoa e nem sabe exatamente o porquê.
Ah, se ele soubesse o quanto somos parecidos… Eu, o vento, que só queria ser mais direto. E ele, que talvez quisesse ser mais gentil consigo.
Entre uma brisa e outra, um sopro e uma calmaria, acho que ele entendeu que as respostas nem sempre têm forma de conselho. Na verdade, grande parte das respostas está em forma de pergunta, essas parecem importar mais, aconselhar mais. No fim, me questionando, ele estava aconselhando mais que eu, me ensinando a ser mais brisa e menos fala. O homem que fala a mim, no fim das contas, era mais vento que eu. Me fazendo, assim, ser mais homem que zéfiro! Acolhi dele os conselhos que, enfim, não dei.

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