Renan De Simone

O divã não seria o suficiente

“Você deveria ser psicólogo. A gente tem vontade de contar as coisas para você”.

De certa forma era verdade. Pensando a respeito da própria vida, ele se deu conta de que as pessoas sempre vinham até ele para contar histórias. Desde pequeno, na escola, quando ainda era introvertido e gostava de se sentar isolado a um canto do enorme pátio. Ainda assim, as pessoas vinham abordá-lo para conversar.

Os assuntos eram os mais diversos, e ele escutava, atentamente. Isso ele fazia, olhava nos olhos, prestava atenção e fazia perguntas para aprofundar. Sua curiosidade não deixava que permanecesse apenas na superfície das narrativas.
Passou a gostar cada vez mais de histórias, de pessoas, de olhares. E o número dos que vinham até ele aumentou.

Não havia distinção de idade. Ainda novo, adultos gostavam de se abrir com ele, colegas da mesma idade também, fossem amigos, familiares, estranhos… Se bem que, será que podemos considerar um estranho quem acabou de compartilhar algo de si com você?
Ele ouvia e gostava, assim como estava ouvindo a menina amiga que acabara de fazer a sugestão: ele deveria ser um psicólogo.

Talvez devesse, talvez não.

Fato era que escrevia, que contava histórias também, e se deu conta de que a singela sugestão da amiga fazia eco com sua vida.

Crônicas e mais crônicas depois, livros após livros, os lançados e os guardados, além daqueles ainda não escritos – e os que nunca seriam feitos – apontavam todos para a mesma direção: ele gostava de escutar histórias, acostumou-se a isso. Fosse porque sua família contava histórias para dormir, fosse porque cresceu próximo aos fuxicos dos bares e das ruas. De uma maneira ou de outra, mesmo quando estava sozinho, escrevia, pensava, narrava.

Era, de repente, uma forma de contar histórias para si mesmo também.

Ele reconhecia, hoje, adulto, que essa sua característica, esse imã que tinha, havia o ajudado ao longo da vida. Em especial para deixar de ser tão introvertido. O pânico do contato humano, ao longo do tempo, deu lugar ao prazer de ver e estar com pessoas.
Talvez não teria sido um bom psicólogo, afinal, seja porque fala demais, seja porque pergunta muito, ou até porque o bom humor custa a abandoná-lo. E sabemos que nem sempre queremos pessoas rindo de nossos traumas.

Mas, talvez, seja simplesmente porque, no fim das contas, ele sempre está olhando nos olhos. Porque ele sabe que estes contam as histórias mais profundas e verdadeiras.
O divã não seria o suficiente… Mas só talvez.

Comments

Uma resposta para “O divã não seria o suficiente”.

  1. Avatar de Shirley
    Shirley

    meu poeta pode ser tudo que almejar, parabéns

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