Renan De Simone

A Babilônia arde

O que você quer de mim, afinal? Se este é o final, pegue o que você quer e vá embora. Embora eu não tenha muito a oferecer. Tenho esse sorriso surrado pela vida, um ouvido atento e um olhar que te vê, que se fixa em ti e não é fugidio por qualquer distração tola que temos criado para distrair nós mesmos de algo que grita no vazio em nós.

Mas você não parte, você fica, como parte de mim, como pedaço que me parte, que me espalha, me assopra e depois tenta me juntar com esse seu menear de cabeça, com esses olhos quase caninos, sagazes.

Seu sorriso busca me colar, mesmo quando não está colada em mim, mas ainda é possível ver as rachaduras, algumas nasceram comigo, outras foram de marteladas que esse peito recebeu e deixou ecoar pelo todo. Sou feito de trauma, de alma e de calma, uma calma às vezes insana. Sem ambição, mas ambiciosa, ensandecida. Não quero ser nada além de tudo, para ninguém, para mim mesmo.

Sou um vaso Kintsugi talvez. Quem sabe minha maior beleza esteja naquilo que machuca a mim mesmo? A cura é ilusão, é falsa ou, em última instância, destruidora daquilo que me faz ser eu mesmo… “eu”, essas duas letras que não dizem nada realmente, mas abarcam o mundo.

Sou essa repetição de palavras propositadamente sem propósito, sou parte constituinte daquilo que nunca chegou a ser. Você me olha como se esperasse algo de mim, como se eu tivesse respostas, como se eu pudesse fazer essa Babilônia parar de arder de alguma forma.

Até onde sei, apenas ajudei a atear fogo em alguns trechos…

Babilônia, essa cidade infinita por onde passo ou que habita dentro de mim! O custo é tão alto e o ganho tão pequeno. Você parecia fazer tudo valer a pena, por um tempo…

Quem sabe seja a própria existência que arde, com suas labaredas invisíveis, queimando as expectativas e os desejos, deixando-nos com o ganho pequeno de cada dia. De nós, do que já fomos em algum recôndito de imaginação breve.

Tudo parece tão distante do que se quer, do que se quis, do que esperavam de mim, do que eu esperei de mim… o único sobre o qual coloquei expectativas, eu mesmo, para elevar um pouco o peso do que a vida e as outras pessoas já colocavam sobre mim. E você jogando mais uma pá de cal.

Como posso acertar se nem minha cachorra atende às expectativas? Essa criatura que parece simples, sincera, não segue as lógicas que impomos à vida. Eu lanço a bolinha, o graveto, qualquer coisa, e ela corre com a destreza de quem entende a brincadeira. Mas… nada. Ela não traz de volta. Jamais traz. Vai mais longe, sempre. E assim fico esperando o retorno que nunca vem.

Minha cachorra corre para mais longe, mas me olha como quem me quer perto, porque talvez ela saiba que há mais em levar adiante do que em retornar. Como você parece querer fazer, mas ao contrário, você fica, mas seu olhar grita partida.

Não sei se é algum sentido da vida que busco, mas, se for, será que procuro no lugar certo? Porque minha cachorra, quando não traz o que peço, me faz pensar que o valor está, justamente, em desobedecer. Em não seguir os comandos. Em correr para longe de tudo o que se espera.

E o que eu deveria fazer com o caminhão de expectativa que todos têm sobre mim? Eu já fui peneirando sonhos demais e me concentrando em respirar apenas, deixando de querer realizar.

Fazer a palavra girar é o que me restou, é o que faço, o que alcanço. Pouco, é verdade, mas é o que sobra: palavra.

São as palavras que me consertam, que me racham novamente, que emendam e, de certa forma, acho que são elas que fazem você ficar, todos na minha vida, realmente, pois, ao falar, escrever e cantar, escondo o significativo silêncio que me explica e me revela por inteiro, mas é segredo que nem eu acesso.

Levanto a cabeça e encaro nem sei o que, é o que tenho na vida: esse sorriso surrado, um ouvido atento e um olhar que vê, que se fixa e não é fugidio por qualquer distração tola… E tenho as palavras, que me ajudam a distrair de algo que grita no vazio em mim, em nós. Não sei o que você quer de mim, mas talvez seja a única coisa que não consegue ter, e por isso fica. E a Babilônia segue ardendo…

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