Ambos estavam de passagem e acabaram se encontrando em frente a um banco, a praça estava movimentada, muita gente transitando e ninguém parando para conversar. Eles se tornaram a exceção, resolveram se sentar.
– E como foi a viagem? – perguntou ele.
– Foi ótima – ela respondeu –, eu nem sabia que dava para fazer tanta coisa em apenas uma semana.
– Visitou tudo que queria lá?
– Sim e não. Cumpri o roteiro que tinha feito, mas, quando a gente chega lá, descobre que há muito mais do que pontos turísticos clássicos, sabe?
– Sei. Além de que é necessário um tempo de… – parou ele, buscando a melhor expressão.
– Contemplação, talvez? – considerou ela mesma.
– Isso! – endossou ele em tom de epifania. É diferente passar e estar, né?
– Se você vai só olhando para o roteiro, parece que perde a experiência maior e vira uma lista de compras, de lugares pra ir, fotografar e partir. Ter uma experiência é mais que isso, afinal.
– Isso é uma das coisas que mais sinto falta em viagens, esse tempo de permanecer, estar no meio de tudo e ser um anônimo ali.
– Isso te dá chance de olhar para as coisas de uma forma diferente, quase sem ser vista.
– A mulher na multidão! – brincou ele.
– Sim. Mas, de qualquer forma, foi a realização de um sonho. Sempre tive vontade de viajar para fora do país sozinha e, de repente, o sonho virou realidade.
– Eu acho isso curioso e sempre penso em coisas assim. Deixe-me te perguntar. Como foi voltar? – questionou ele, sorrindo.
– É estranho… Parece que não é real, nem estar de volta depois de tudo aquilo e ter de assumir a rotina, e nem estar na rotina e lembrar que acabei de ter uma experiência única, que era algo tão esperado na minha vida.
– Era exatamente isso que eu queria saber. Como é estar de volta depois de ter realizado esse sonho?
– Me sinto empolgada e decepcionada!
– Como assim?
– Por um lado, é ótimo saber que consegui essa realização, isso dá segurança de ver que muita coisa, que penso e imagino, pode se tornar algo palpável. Basta ir em frente e, de repente, parece que as coisas acontecem de uma maneira que até nos surpreendem.
– Por outro lado… Você está de volta! – adicionou ele.
– Sim! Cheguei e estou de volta para minha rotina, tal como era antes.
– É esquisito ver que um sonho ou algo que antecipamos muito na mente pode realmente acontecer. Mas, quando acontece, isso não muda sua vida de uma maneira radical.
– Exatamente! Parece que realizar um sonho como esse, que para mim beirava o impossível, deveria ter me transformado mais. Como se tudo fosse ser diferente depois disso. Uma nova mulher.
– Entendo, já vivi coisas semelhantes. Mas talvez aí esteja a maior transformação e, como toda boa transformação, pelo menos as duradouras, ela é gradativa e acumulativa. Não é só dormir e acordar, mas ter essa sensação de despertar aos poucos de um sono de domingo à tarde.
– Acho que já me perdi na referência – brincou ela.
– É que, na nossa cabeça, na projeção, realizar um sonho deveria mudar radicalmente a vida. No entanto, passa e as coisas voltam ao que eram…
– E é aí que a gente acha decepcionante! Como eu achei.
– Sim, mas isso não deve ser um incentivo a deixar de buscar os sonhos ou de achar que eles não nos transformam. A mudança vem justamente dessa percepção – considerou ele.
– De que a vida sempre vai ser igual em um certo sentido?
– Não exatamente. Vem de entender, aos poucos, um novo olhar que a vida ganha. E ele tem dois lados, pelo menos.
– Quais? – perguntou ela, entre a curiosidade e a dúvida de quem não sabe se está “comprando” a ideia.
– O fato de você pensar que um sonho desse deveria ter te transformado, mas não fez, já dá uma nova perspectiva da vida. No entanto, você está com novos olhares, as experiências que viveu, o fato de entender como é possível se virar sozinha, tanto aqui, que te permitiu alcançar a viagem que queria, como lá, quando dependia só de si para ver e vivenciar o que buscava, e as coisas inesperadas que foram aparecendo. Você já é um pouco outra.
– É… Dá pra ver isso de certa forma. Fiz coisas que achei que não dava, suportei sentimentos diferentes. Pude ver com meus próprios olhos as coisas físicas e aquilo que nem é tão óbvio em um primeiro olhar. Viajar sozinha dá essa autonomia de ser a sua viagem e não depender de decisões alheias. Para o bem e para o mal. Entretanto, agora ficam lembranças, e estou de volta.
– Voltou para o mesmo lugar, mas não é exatamente a mesma quem voltou, não? O segundo lado da coisa é ver exatamente isso: não é preciso esperar grandes momentos para viver!
– A gente vive todo dia! – concluiu ela.
– Sim. E o ponto é que a sua viagem não foi uma semana. Ela foi a construção anterior, da concepção do sonho até o planejamento efetivo e a realização. E, agora, ela ainda é, está no presente e não no passado! Ela está sendo toda essa percepção, memórias, olhares, mudanças. Ainda vai ser lembrança, conexões futuras, com você mesma e com pessoas que ainda provavelmente nem conheceu. É uma experiência que ultrapassa o “agora do passado” e se move antes, durante e para o devir.
– Olhando por esse lado, faz mais sentido! A experiência toma outra proporção nessa perspectiva – alegrou-se ela, pensativa.
– Que bom! Porque ela é mais do que você pensava e simplesmente do que foi no instante vivido. Mas isso fica de aviso pra gente.
– Como assim?
– Ora, se a vida não é de grandes eventos e tudo é essa construção. Agora mesmo já estamos vivendo aquilo que nos transforma e que nos mudará no futuro. Esse banco, esse momento já é parte de nós e, talvez, do próximo grande plano que a gente vai conseguir alcançar.
Pararam e ficaram olhando as pessoas passarem, a brisa fresca soprar, escutando os sons diversos. Movimento e contemplação simultâneos. Olharam-se e notaram as pequenas expressões, entre as sobrancelhas de dúvida, os sorrisos de entendimento e o olhar atento ao redor.
– Às vezes a gente só precisa disso – disse ela por fim. Um banco, tempo e um amigo!
– É dos maiores sonhos que a gente realiza e, às vezes, nem percebe – disse ele sorrindo.

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