Renan De Simone

Os ossos colam de novo

É clichê, eu sei! Mas a repetição contida no fato de que cada estação traz consigo um novo ciclo, uma nova oportunidade de renascimento, talvez signifique que essa é uma verdade que temos de prestar atenção.

Se no outono as folhas caem, preparando o terreno para o inverno, talvez esse período de quietude seja mais para reflexão do que a respeito de perdas. É nesse silêncio frio ao qual a vida se recolhe, que ela acumula energia e forças para a explosão vibrante da primavera.

E por que nós, seres feitos de espírito e de natureza, também não seríamos feitos de ciclos?

Há momentos em que precisamos deixar cair as folhas secas de nossas vidas para que possamos nos renovar. Perder parte de si pode ser ganhar novas formas de se fortalecer.

A primavera chega com seus brotos verdes e delicados, causando medo, pois que vida nova é bela, mas parece tão frágil e perecível. As cores e perfumes que nos enchem de esperança e alegria também causam temor. No entanto, se as ventanias do inverno terminam de varrer para longe as folhas caídas no outono, a tempestade fria e violenta que se encerra mostra que o belo que surge às vezes advém do que parecia terrível.

Cada flor que desabrocha é um lembrete de que ainda há bonança, mesmo que em algum momento parecesse haver apenas trevas. É preciso coragem para se permitir florescer novamente, abrir-se para o mundo depois de um período de recolhimento e mostrar-se um pouco frágil e vulnerável para absorver as maravilhas do devir.

O verão, com seu calor intenso e dias longos, nos convida a celebrar a vida, a aproveitar cada momento com intensidade. As noites quentes têm sabor de bala de hortelã, trazem frescor à boca e a sensação de que tudo é possível, as chances de se surpreender estão abertas! A lua nos observa sagaz e atenta, enquanto estrelas derramam seu brilho e nos lembram que somos feitos de um pouco delas também, de luz e explosões.

Tanto a ver, tanto a aprender… a vida é um processo contínuo, que requer tempo e paciência. Como a natureza, que tem seu ritmo próprio, também devemos respeitar nosso tempo interno. Há dias em que precisamos apenas ser, existir, sem pressa, sem cobranças ou julgamentos. Dias em que o maior ato de amor é descansar, permitir que nossos corpos e mentes se recuperem, que as lágrimas caiam e o peito aprenda a respirar novamente, passando do arfar ao leve suspiro.

Às vezes, precisamos não nos cobrarmos demais e entender que há momentos de doar e de receber, de dar e de aceitar, de oferecer e de se entregar, e que não há nada de errado em se cuidar, ficar quietinho e recarregando as baterias de vez em quando.

Somos natureza e espírito…

Papai do céu fez a gente com ossos que colam de novo, com pele que cicatriza e até com língua que volta a sentir gosto depois de ser queimada com sopa quente. Tudo isso mostra que sempre temos mais de uma chance de fazer as coisas, mas demonstra também que o tempo é precioso e necessário, e que o processo de cura, seja do que for, precisa de paciência.

Cuidar de si também é generosidade com o outro que nos ama.

Entender nossos ciclos é, ainda assim, uma forma de amar!


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