Renan De Simone

A música recomeça

– Se você não me entende, não me julgue nem me tente. Você não sabe o fogo que queima em mim, nem o quanto você pode se render a ele, garota!

– Eu sou minha, só minha, e não de qualquer um que me quiser. Sou dona da minha vida, minhas escolhas e sentimentos.

– Agora vamos conversar ou cantarolar?

– O que for necessário para você entender que boa parte do que você faz e é, sou eu em ti.

– E eu não estou em você? Vai me dizer que um sorriso não vem abrupto a seus lábios quando se lembra de mim, meio sem querer, no meio do dia? Não se lembra do toque da minha pele, nem da minha respiração ofegante ao pé do seu ouvido que, ao mesmo tempo que se insinua, carrega a delicadeza de respeitar cada mínima vontade sua e seu movimento?

– Pare com isso, não penso em te seguir. Isso tudo é insensatez, você não está pensando claramente. Você quer me atacar pelo desejo que você mesmo sente?

– Como é que vou me vingar de algo tão bom que arde e me revigora, minha menina? Eu não penso em me vingar, eu não sou assim. Sei que sua insegurança é por mim. Você acha que também não tenho medo de querer tanto? O risco de me perder nas chamas é tão grande quanto o de ver a vida esfriar e perder a graça se esse mundo não vir para ti e para mim. 

– Garoto… Você quer descobrir o mundo comigo? Não percebe que é um mundo de sonhos, de não-verdades, de coisas que não podem se realizar? Ele não basta! 

– Assim como não basta o compromisso apenas. O coração vale mais, grita mais!

– Então sou eu que digo para não me julgar e nem me tentar, tolo menino. Você não tem ideia de quantas vidas sou capaz de derrubar e reconstruir quando explodo em fúria desejante. Não vê que minha distância é sua proteção? Eu posso te devorar. A ti e ao seu redor.

– Se assim for, um novo coração se forma em nós. Não quero tua proteção, moça, quero teus braços a minha volta, e agora vejo que aprendi o quanto te ensinei.

– Sabe como é difícil virar meu rosto para você? Fingir que não quero fazer ninho em seus braços e aproveitar todas as suas formas, beijos, abraços?

– Mas não é dona de si mesma?

– Toda deusa que consegue o que quer está em barganha entre o mundo e o Olimpo. E temos medo de nos tornarmos mortais ao alcançar a carne. 

– Morrer junto, em desejo, talvez seja uma outra forma de imortalidade…

– Por que você tem de falar, por que diz tais coisas quando a situação já parece difícil por si só?

– Minha pequena, se acha que falo demais, é porque não tem ideia das palavras que ainda tenho guardadas para ti, sufocadas em mim.

– Já não sei o que é real, certo ou errado. Ninguém sabia, nem pode saber ou ver, que eu estava a teu lado, então… O que resta?

– Eu também não sei, só sei aquilo que posso aprender do teu olhar. O que ele diz, afinal, menina?

– Que quero aprender a te percorrer, deslizar em teu corpo e entrar no teu coração.

– Pois que assim seja…

Ele desperta sem saber ao certo se sonhava ou se o diálogo realmente havia acontecido. Sempre há um fio de realidade solto que conecta as vontades aos sonhos e verdades. Uma teia.

Olhou ao redor, estava onde deveria estar, mas onde mesmo? Tirou os fones de ouvido e só se deu conta, já batendo à porta, de que vinha escutando 1° de Julho.

Um som abafado de uma chave girando na fechadura foi ouvido e ela se abriu. Ali, parada com a porta entreaberta estava ela, olhar surpreso, a boca entre um suspiro e um sorriso. “Ele veio mesmo”, seu espanto gritava em silêncio.

Ela faz menção e ele entra. A porta se fecha.

A música recomeça!

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