Renan De Simone

É fácil se perder…

Ela tocou de leve meu braço e a gente sabia que não teríamos um último beijo, não poderíamos. Teria de ser um tchau distante, elegante até, mas sem um beijo.
A gente sabia o tanto de sentimento represado que aquilo liberaria. A pele grita demais pelo outro e não dava para arriscar. Estava escrito nos olhos que a beira do abismo do desejo estava perto demais para tentar.

Aquele olhar… Talvez ali eu tenha me deixado estar mais tempo, querendo morar na maneira como ela me abraçava com os olhos ao me ver. Pois quando ela me fitou, tive certeza de que ela já estava dentro de mim, inevitavelmente.

Ela tocava meu braço e não poderíamos deixar que mais nenhum pedaço nosso se encontrasse. É fácil demais se perder entre nós. Sempre foi, e a gente sempre soube de alguma forma.

No entanto, aquilo era o certo, era o bom… Como é difícil acertar e fazer o bem.

Algumas pessoas se acham cedo demais na vida, outras se acham tarde demais. Complicado ajustar esses ponteiros. Dias que são anos, anos que são dias. Não dá pra medir o que é o tempo cronológico quando duas pessoas se encontram de verdade.

A realidade do tempo externo é uma película, mas dentro de nós há várias realidades sendo vividas e colidindo. Imagens, sons, possibilidades, planos.

Ela é pé no chão e transcendência. Conectada com algo além. Sabia de nós antes de tudo. As brisas da noite e o farfalhar das folhas nas árvores sussurram segredos que apenas ela ouve.

De alguma forma, estamos num trem, perdidos em nós mesmos, mas fixos em um local, mas esse local se move em uma direção que nos carrega. Juntos no mesmo plano de existência, mas nem por isso numa existência totalmente juntos.

E ela tocou meu braço de leve, as cenas se misturaram. Éramos jovens, éramos adultos, ela saía do trem, mas entrava em meu carro, debruçava sua cabeça sobre meu ombro, se afastava sem olhar para trás, ria e ficava séria, tudo era possível e juntos éramos improváveis.

Algumas pessoas se perdem umas nas outras, às vezes se perdem das outras. E a gente não sabe se nos encontramos ou desencontramos.

Tempo… Esse canalha que lava e leva tanta coisa.

Mas de alguma forma existimos, como realidade ou possibilidade. Memórias que não ocorreram e fatos desmentidos pela emoção.

A superfície é pouco, pois que somos mar profundo.

Escuto um apito e o trem para, ela toca meu braço, sorri e parte, sem sabermos por quanto tempo, e nem ao certo o porquê!

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