Renan De Simone

A culpa é do micro-ondas

A evolução tecnológica tem transformado radicalmente a maneira como interagimos, vivemos e nos relacionamos, mas também nos conduziu a um caminho onde o individualismo e o egoísmo se destacam cada vez mais. A sociedade começou a piorar bem antes, mas, por um recorte muito pessoal de uma perspectiva que talvez só interesse a mim mesmo (marcando ainda mais o individualismo que acabei de criticar), vejo o micro-ondas como símbolo dessa transformação que, embora prático, reflete uma mudança profunda na maneira como a sociedade se organiza em torno das refeições e do tempo compartilhado.

Micro-ondas: praticidade ou afastamento?

O micro-ondas, ao permitir aquecer um único prato rapidamente, é uma metáfora perfeita para a individualização crescente em nossa sociedade. Antigamente, preparar uma refeição era um ato comunitário. As panelas fervilhando no fogão cozinhavam alimentos que seriam compartilhados entre todos na casa e à mesa, promovendo interação e união.

Mesmo que a refeição já estivesse pronta no dia seguinte, aquecê-la em panelas, permite que mais pessoas se sirvam. Já o micro-ondas, ao contrário, serve perfeitamente ao ritmo acelerado da vida moderna, no qual cada membro da família pode preparar seu prato, comer em horários diferentes e muitas vezes em locais separados. Essa praticidade diminui o tempo de convivência e reforça a noção de que a eficiência individual é mais importante do que o tempo compartilhado.

Mas… e se quisermos comer todos juntos e dependermos do micro-ondas para aquecer o alimento. Isso mesmo, se você já teve quatro pessoas da sua casa tentando almoçar ao mesmo tempo, aquecendo comida do dia anterior, ou se partilha copa no trabalho, com certeza sabe que algum colega vai demorar a comer e outro comerá o alimento frio para que todos se sentem juntos.

Rádio e televisão X computador e celular

A mudança do rádio e da televisão, meios tradicionais de entretenimento coletivo, para computadores e celulares pessoais, ilustra ainda mais a crescente privatização das experiências sociais. O rádio e a TV, especialmente nas décadas passadas (e mais intensamente de 2000 para trás), eram centrais no lar, reunindo famílias e amigos em torno de programas, jogos e notícias. Esses momentos criavam uma coesão social e um senso de pertencimento, nos quais as experiências eram vividas e discutidas em conjunto.

Com o advento dos computadores pessoais e, posteriormente, dos celulares, o consumo de mídia tornou-se uma atividade solitária. Cada indivíduo pode assistir o que quer, quando quer, sem precisar coordenar com os outros. Isso promove uma fragmentação da experiência coletiva, substituindo a troca e o compartilhamento por uma cultura de satisfação pessoal imediata e isolamento.

Sempre há exceções, mas há como negar que o geral é individual?

Decadência do Cinema e ascensão do streaming

O cinema, como evento social, também sofreu um declínio notável. A experiência de ir ao cinema, muitas vezes em grupos, era um ritual social que envolvia a escolha do filme, a compra de ingressos, e a experiência conjunta de assistir e reagir a uma narrativa coletiva. Com o advento do streaming, essa experiência foi transferida para o ambiente doméstico, onde a conveniência de assistir a filmes em casa, em qualquer momento, superou a necessidade de sair e se engajar socialmente, além de que, cresce cada vez mais a tendência de consumir tais conteúdos apenas em dispositivos individuais, como os celulares.

Alguém aí se lembra da ida à locadora de vídeo? Uma vez um ato social em si, também foi substituída pela facilidade das plataformas digitais. Já disse isso em algum texto, mas lembro de uma locadora perto de casa que era genial e simples: pizzaria na parte inferior e locadora no superior. Você chegava, encomendava sua pizza, subia, escolhia e alugava seus filmes e, na sequência, pegava a pizza.

 O contato humano, as conversas com atendentes, as recomendações de amigos na locadora (e no caso que mencionei, na pizzaria também), foram suprimidos pela curadoria algorítmica e pela comodidade do acesso instantâneo. O streaming oferece a liberdade do consumo imediato, mas às custas do ritual social e do engajamento comunitário. Além de que vemos o que muito já vimos em termos de algoritmo… O quanto isso é bom?

Será que não estamos aprisionando nossas mentes num ciclo de repetição e looping apenas do que achamos que gostamos? Sem dar chance para o diferente… E essa última frase cabe para tantas coisas.

Tempo e pressa

Essas mudanças não afetam apenas a forma como interagimos, mas também nossa percepção e uso do tempo. A promessa de economizar tempo com o micro-ondas ou com o streaming muitas vezes se revela ilusória. Aquecer rapidamente um prato pode economizar minutos, mas a repetição do processo para cada membro da família pode resultar em uma quantidade significativa de tempo gasto. Similarmente, a conveniência de consumir mídia em qualquer momento reduz as oportunidades de convivência e compartilhamento.

Além dos eternos “não sei o que assistir”, repetindo a rolagem na plataforma de streaming como numa rede social. Temos tanto à disposição que, em vez da oferta abundante ser bênção, às vezes se torna maldição.

A obsessão pela eficiência e pela gratificação instantânea não só pressiona o tempo, mas também o esvazia de significados profundos e divididos com outras pessoas. Ao “economizarmos” tempo, sacrificamos o tempo de qualidade, aquele que é utilizado para nutrir relações e construir memórias coletivas, afetivas.

Será que o problema atual da memória começa no Alzheimer, no TDAH, será que é culpa da Covid-19? Ou será que é porque estamos vivendo particionados, em pedaços, nunca estando onde estamos? Nunca inteiros…

No final, o que se perde é a riqueza das experiências compartilhadas, a profundidade das conexões humanas e a verdadeira compreensão de como o tempo pode ser um recurso de convivência e não apenas de produtividade individual.

O tempo é um recurso escasso e não renovável, e só de olhá-lo dessa forma já indica um erro em tratar a vida em termos econômicos e produtivos. Viver é diferente disso. Sacrificamos memórias e significados por quantidade.

É legal acumular, afinal, não? Talvez não.

Você lê pessoas?

Em suma, a tecnologia que inicialmente visa simplificar e aprimorar nossas vidas contribui para a atomização da experiência humana. Desde o micro-ondas, que promove refeições solitárias, até os computadores e celulares, que individualizam a experiência de mídia, passando pela decadência do cinema e o surgimento do streaming, percebemos um movimento constante em direção ao individualismo.

O tempo que “economizamos” com esses avanços tecnológicos muitas vezes não é realmente economizado, mas redistribuído de maneira que empobrece nossas experiências e nos distancia cada vez mais uns dos outros. Sei que o tempo sozinho e privacidade são importantes, assim como o são os tempos conjuntos, mas será que não estamos sacrificando um pelo outro?

Você sabe ler bem as feições das pessoas ao seu redor, seus amigos e familiares?

Perder afeto é perder formas de se comunicar, entender, acolher e diminuir, muito, a troca entre diferentes.

Em nossa busca incessante por eficiência, talvez estejamos perdendo a essência da convivência e a riqueza de estar verdadeiramente presentes uns com os outros. Mas essa é só a minha visão, né? E provavelmente não importa porque não é a sua.


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Uma resposta para “A culpa é do micro-ondas”.

  1. Avatar de Shirley
    Shirley

    verdade a tecnologia é boa mas afasta o ser humano um dos outros, deixando cada vez mais a solidão e a depressão tomar conta de nosso dia a dia, parabéns

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