Não se sabe em qual universo paralelo aquilo aconteceu, nesse momento do século, as probabilidades são baixíssimas, mas naquele aconteceu, num instante.
Estavam numa barraca de cachorro-quente, hoje conhecida como food truck de hot-dog e que, de todas as especialidades, o hot-dog era apenas uma entre pastéis, salgados, hambúrgueres e até strogonoff.
Ambos mexiam no celular, aguardando sua vez de pedir. Os seres humanos entram numa espécie de bolha ao ficarem com seus próprios aparelhos e há algum tipo de convenção social que aceita aquilo como um momento sagrado, uma oração quase. Ninguém deve atrapalhar alguém que está com seu próprio retângulo luminoso.
Quando o rapaz da barraca disse “próximo”, ele se adiantou e falou ao mesmo tempo que ela. Percebendo a interrupção, ele sorriu e gesticulou para que ela fosse primeiro. Ela sorriu de volta e pediu um número 7.
A tendência natural seria que ele voltasse os olhos ao celular, olhando para nada, na verdade, mas com os ouvidos atentos para que o “próximo” seguinte fosse realmente ele. Mas não naquele dia. Ele colocou o celular no bolso e olhou a lateral do rosto dela. Era loira, com uma pele clara e rosada, um nariz bem delineado e uma orelha tão miúda que talvez não escutasse bem. Ele gostou particularmente da maneira como seu queixo fazia uma curva antes de iniciar a descida pelo pescoço, delimitando bem cada área. Teve a impressão de que ela o olhou com a visão periférica, mas não teve certeza, mal sabia ele o quanto Deus dotou as meninas com esse poder. Dizem que é algo biológico, para vigiar crianças na pré-história, manter a segurança das aldeias de predadores que cercavam o local e para avaliar se os companheiros estavam realmente procurando no local certo do armário que elas enunciaram ou se estavam parados, olhando para o alto, antes de dizer “não achei, amor”.
– Você tem uma personalidade aventureira, uma exploradora nata, uma bandeirante urbana, mas sem o assassinato dos indígenas, espero!
Ela desconfiou que não fosse com ela no primeiro momento, mas não tinha como duvidar, tinha visto como ele paralisou a fitá-la, enquanto fazia seu pedido, e ele a olhava quando disse a frase. Ela esperou por alguns segundos, mas falou:
– Dos indígenas não, mas de outras pessoas eu não garanto nada! – a frase era dura, mas ela disse sorrindo, era, ao mesmo tempo, um teste e um convite para ver até onde iria o impulso dele e completou – Mas por que acha isso?
– Seu pedido! O 7 é o de 4 salsichas, prensado com purê, batata palha, catupiry, catchup, maionese e mostarda. Só um espírito aventureiro para encarar isso nesse calor – ele disse, apontando para o banner na barraquinha e encantado com os olhos dela. Eram castanhos, mas pareciam manchados de verde, a depender do ângulo. Aquilo o agradou e intrigou.
– Esqueceu que ele vem milho também e que esse catupiry é de mentira, é mais amido de milho mesmo – ao que o atendente da barraca olhou feio para ela, mas ela não se importou, sua atenção era toda dele.
Ele tinha um porte que a agradou logo de cara, um rosto quase comum, uma pele branca e queimada de sol, um nariz grande que ficava entre turcos, italianos e testadores de perfumes franceses. Seu cabelo era preto, mas alguns fios brancos apareciam raramente. Sua barba a atraiu também, ela preferiria um pouco mais cheia, mas a maneira como ela contornava o rosto do rapaz realçava seus lábios e sorriso. Ela gostou do sorriso dele.
– Nesse caso, você está quase comendo uma espiga de milho com condimentos.
– E 4 salsichas!
– Verdade, uma guerreira.
– E você vai pegar qual?
– O 11!
– Hambúrguer… Não sei se é gosto ou falta de personalidade.
– Pense bem, querida. Ele vem com cheddar e cebola caramelizada.
– Tem razão, é gosto, ninguém come cebola com cheddar por falta de personalidade.
– Vejo que você também lê pessoas. Trabalha com o quê?
– Sou psicóloga, atendo de tudo…
– Até guaxinins e cavalos? – ele interrompeu e ela gostou do jeito um pouco tonto dele, demonstrava criatividade e algum tipo de bondade ao mesmo tempo.
– Ainda não, mas já me apareceram alguns burros velhos. Estou me especializando em crianças agora.
– Ainda prefiro os guaxinins, no máximo eles nos arranham e mordem, muito mais fácil de lidar.
Ele gostara da velocidade com que ela lhe respondia e da acidez, mas sem perder o bom humor e o ritmo do papo, mantenho aquele brilho enigmático no olhar, ela era desafiadora e convidativa, tudo ao mesmo tempo.
Os lanches chegaram e ele sinalizou uma pequena mesa de metal, dessas comuns a bares antigos, para se sentarem. Com o lanche na mão, ela olhou para o local em que ele apontava e de volta para ele, quase não foi, mas aquele sorriso…
– Além das 4 salsichas, vai tomar coca, você não tem medo mais de nada.
– Tenho medo do desaparecimento dos bons bares.
– Quais?
– Ah, aqueles de luz baixa, mas que ainda é possível enxergar tudo e conversar, com um menu extenso, mas não pretensioso, com algumas mesas de madeira e outras de metal, como essa…
– Provando que ele cresceu organicamente e que não gourmetizaram o espaço, dando histórias para os bolinhos que são melhores que nossa vida!
– Exatamente, a coalhada que veio do Cazaquistão me deprime. Quer dizer que passei 10h da minha vida atendendo pirralhos que não têm pais com culhões o suficiente para dizer “não” para o filho, e a porra do queijo tem mais horas de voo que eu!
Ele mordeu o lanche, riu e engasgou ao mesmo tempo com a fala dela. Ela se divertiu com a cena e levantou as sobrancelhas, enfatizando a maneira como se impressionara.
– Desculpe – ela disse – me exaltei.
– Não tem de se desculpar, eu concordo. O bar perfeito tem de ter cerveja gelada, um garçom simpático, mas não intrusivo, e uma música leve de fundo, que esconda o papo das pessoas, mas que não nos impeça de conversar.
– Exatamente, por que diabos essa alucinação que as pessoas têm hoje com música ao vivo em uma altura que o garçom não escuta nem seu pedido? Não se dança direito, não se conversa, nem se escuta a banda.
– Sintomas da nossa era, queremos fazer tudo e não fazemos nada, olha ali um grupo de amigos jantando juntos e cada um segurando melancolicamente seu celular numa mão e o lanche em outra. Nem comem, nem conversam, nem veem o que querem no aparelho.
– Estamos perdidos, então?
– Acho que não, ainda há mulheres corajosas para pedirem um número 7 e homens com personalidade o suficiente para pegar um 11.
– Isso basta pra salvar o mundo?
– Para salvar, não sei. Mas com certeza para adiar o fim. E nessa guerra temos um aliado, conheço um bar não muito longe daqui que mantém um bom menu sem ser presunçoso.
– Tem música ao vivo?
– Pra dizer a verdade tem, mas não hoje, que é quarta-feira. O que me diz? Não paguei seu “jantar”, mas posso te pagar uma cerveja, ou outro drinque que preferir.
– Já que critica minhas escolhas, vai querer escolher por mim?
– Jamais – ele retrucou –, é que li num antigo livro asteca que cerveja pode ajudar na digestão do purê com batata palha.
– E o milho.
– E o milho, sem dúvida, aquele povo era especialista em catupiry de amido – ao que o atendente lançou mais um olhar torto aos dois que já partiam lado a lado.
A noite correu leve num dos últimos bons bares que existem, pelo menos às quartas-feiras, sem música ao vivo. Ela gostou do ambiente e do papo, começaram com a cerveja, que dá abertura para a leveza gelada em meio a assuntos mais triviais, descobriu que ele era professor universitário na área de comunicação.
Os petiscos finalizados, a cerveja já não parecia suficiente, pediram drinques, ela quis um Aperol Spritz, ele pediu uma caipirinha. A mudança de bebida trouxe coisas mais profundas à tona, falaram dos dois péssimos relacionamentos sérios dela, do divórcio de pouco mais de um ano dele e, estranhamente, de como ambos estavam traindo seus nutricionistas na barraca de cachorro-quente.
Ela ordenou um Negroni e ele pediu um Underberg, bem no momento em que selaram um juramento de nunca contarem nada sobre o hot-dog e o hambúrguer os médicos, nem sob tortura.
Foram embora, mas antes tomaram uma taça de vinho, que trouxe filosofias etéreas e críticas a uma sociedade sem jeito. Eram os dois últimos românticos do mundo, pelo menos naquela noite de quarta-feira quente com uma lua como um filete no céu.
Ele perguntou se queria que chamasse um Uber para ela, ao que ela replicou que morava perto que não precisava.
– Eu te acompanho, então.
E saíram caminhando. Ela olhou para o alto:
– Ela está crescendo ou encolhendo, afinal?
– Quem? – ele perguntou, olhando ao redor, com as mãos no bolso.
– A lua – disse ela apontando para o alto enquanto continuava andando – nunca sei se ela está crescendo ou diminuindo quando está só esse filete curvo.
– Também não sei! Mas isso importa? Sei apenas que ela está bela e que esse avermelhado de hoje no céu deixa a noite com um ar de sonho.
Ela riu e se virou pra ele:
– Ou talvez seja a cerveja! – nesse momento, seja porque ela baixou a cabeça muito rapidamente, seja porque o álcool havia batido, ela se desequilibrou.
Com uma agilidade não muito comum a um ébrio, ele tirou as mãos do bolso e a aparou rapidamente, segurando-a com uma mão em sua cintura e a outra apoiando o braço que ela havia esticado, buscando equilíbrio.
Ela o olhou nos olhos e, sob a luz da lua e daquele poste de luz – que em sua maioria eram brancas agora, retirando toda a beleza das ruas, mas que justamente aquele que se derramava sobre eles era amarelado –, ele teve certeza de ter visto as tais manchas verdes em seu castanho mel.
Ele sorriu e ela quase desabou novamente sob aquele relance.
– Chegamos – ela disse, parando em frente a uma porta de ferro pesada –, será que nos veremos de novo?
– Com certeza, eu sou um canalha traiçoeiro com meu nutricionista.
Ela riu, pegou na bolsa sua chave e tentou abrir, em vão, aquela porta de metal.
– Ela sempre emperra, mas nunca taaaaanto – disse, enquanto fazia força.
– Me deixe ajudar.
Ele girou a chave e deu um tranco com o ombro, levantando um pouco a maçaneta, como se apoiasse a porta. Abriu duma vez, mas uma lingueta de ferro presa no batente lhe cortou a mão. Não era fundo, mas sangrava bastante.
– Entre logo, vou cuidar disso.
Ele estava relutante, mas subiu os três lances de escada. O apartamento era modesto e ele percebeu que ela morava sozinha. Desinfectaram a mão com água oxigenada, fazendo graça de que o álcool dentro deles cuidaria do resto, e ela improvisou uma bandagem com gaze e esparadrapo.
Quando terminou, ela foi se levantar e teve outra tontura, ele a amparou e ela sinalizou o banheiro. Correram como puderam até lá e ela golfou um jato de cores estranhas na privada enquanto ele segurava sua cabeça.
– Deve ter sido o vinho.
– Hoje será difícil descobrir o que fez você passar mal, ainda suspeito daquele número 7, ou do Spritz, nunca confie num drinque de laranja, todo mundo sabe que ele sobrecarrega o fígado.
– Leu isso dos astecas também?
– Claro que não, sabedoria irlandesa. Venha, vamos tomar uma água. Você tem Epocler?
– Acho que não, só isso resolve?
– Claro que não, vomitar mais três vezes e tomar três litros de água também funciona. Ou envolver a cabeça em folhas de couve e se deitar com seus chakras alinhados com o Stonehenge.
– As pedras?
– Muitos acham que era um calendário, mas pesquisas recentes apontam que era um local de cura de ressaca, o maior mal do mundo, como todos sabem, que só perdia para cobras falantes, mas que Deus silenciou.
Ela riu e voltou ao banheiro para vomitar de novo.
Ao sair, viu aquele homem em seu apartamento e ela sozinha, bêbada, sem forças. Sentiu medo, que merda de sociedade, ela pensou, e ao mesmo tempo teve alívio quando ele perguntou se ela estava bem.
– Não sei definir.
– Te incomodaria se eu ficasse mais um pouco, só caso precise de mim?
Ela teve um calafrio, que não soube se era excitação ou medo, mas concordou.
Sem ela dizer nada, ele lhe deu mais água, colocou-a na cama e saiu do quarto.
– Aonde você vai?
– Estarei na sala, se precisar. Basta chamar – ele sorriu, e ela adormeceu com aquela doce memória e, estranhamente, com a janela e porta do quarto dando voltas ao seu redor. Talvez fosse parte do ritual do Stonehenge, e adormeceu rindo de si e do mundo.
No dia seguinte, ele estava cochilando no sofá quando ela se levantou, um tanto zonza. Ela o olhou e riu, ele dormia bonito, boca fechada, respiração calma. Ao que parece, tudo estava com na noite anterior.
Bem… nem tudo, a partir daquele dia, todos os aniversários de primeiro encontro seriam comemorados naquela barraca de cachorro-quente de catupiry duvidoso. E a partir dali conheceram tudo um do outro, exceto as frases loucas que inventavam na hora para provocar riso e só mentiram para os nutricionistas, eles não sabiam de tudo, afinal!

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