Era noite e ele estava cruzando mais uma vez a praça da igreja que desemboca no metrô, ele não ia pegar aquela linha, mas sim a de ônibus, que ficava um pouco além, depois de mais duas ruas. De repente, as pessoas sumiram, já não era noite e sim dia. Uma tarde, para ser mais exato. O cenário era uma rua de bairro e não do centro de São Paulo. A seu lado não estavam estranhos, mas sim rostos familiares…
– Está cego, filho da puta?!
O esbarrão em seu ombro direito veio forte, era um homem que caminhava apressado na direção oposta com uma grande mochila de lona nas costas.
De repente, estava de volta à praça, mas o que acontecera?
Parou um pouco atordoado. Ele nunca parava. Não naquele ponto, não durante a semana. Sejamos sinceros, ninguém quase para nessa cidade, para nada!
Foi quando se deu conta de uma barraca de pastel que havia na praça. Daquelas com um óleo que não se sabe quando venceu, mas que continua sendo usado: contra o bom senso, contra as probabilidades da fiscalização sanitária, mas que, talvez por isso mesmo, dê um sabor todo especial ao produto.
O cheiro do óleo, foi isso que o transportou de repente para aquela tarde na casa de seu amigo, quando adolescente.
Seu peito se encheu duma saudade um tanto inexplicável. Olhou ao redor, mas não viu nenhum rosto familiar, seus amigos de infância não estavam à sua volta, contando moedas para comprar mais um cachorro-quente ou um pastel por cinquenta centavos. Hoje ninguém acreditaria que isso já foi possível. Bem, não precisam acreditar, ninguém precisava convencê-lo do que vivera. Ninguém precisava validar a nostalgia em seu peito.
Tantas lembranças disparadas de uma única vez. As tardes que pareciam, ao mesmo tempo, infinitas e curtas para falar tudo que era preciso com seus amigos; desvendar os segredos do universo, dos corações das garotas, do futuro, e do Resident Evil.
Como passavam rapidamente quando faziam campeonatos de futebol, fosse no velho Playstation (que era novo, pois só existia aquele), fosse na garagem, usando uma velha lousa de giz para anotar os pontos enquanto aquele amigo pentelho ficava atirando pedaços de giz para todos pisarem enquanto corriam.
Hoje seria insignificante quase, mas como descrever a satisfação de se sentarem largados nos sofás enquanto escutavam uma coletânea da Legião Urbana, passando o encarte de mão em mão para conferir a letra?
Ou quando tentavam, em vão, compreender a letra de Emerald Sword, ou qualquer outra de Rhapsody of Fire. Ninguém sabia inglês, ninguém tinha feito cursos extras, mas gostavam do ritmo, da guitarra, da emoção medieval que despertava neles, histórias épicas, todo um futuro ainda por ser vivido.
As canções, o futebol, as gargalhadas até perderem o fôlego – ah como as gargalhadas moldaram o caráter de cada um ali, talvez só tenham sobrevivido até aqui porque aprenderam a rir juntos, de si, uns dos outros, do que é bom e do que é ruim.
Cada conversa, cada jogo, cada dúvida do futuro veio à mente dele naquele momento, parado alguns segundos no meio da praça na qual as pessoas seguiam correndo. Por um momento se emocionou na comparação rápida do que achou que seria o futuro no passado e do que vivia hoje. “O futuro não é mais como era antigamente”, pensou cantarolando enquanto os olhos umedeceram levemente.
E o cheiro do pastel o invadiu por completo, pois foi isso. Aquele cheiro de pastel que lembrava a venda da moça simpática, ao lado da casa de seu amigo, onde compravam pastéis, cachorro-quente e Tubaína.
Hoje seu estômago já não suporta mais aquele tipo de fritura. Se comesse dois pastéis daqueles, teria dores e um enjoo terrível, mas aquele cheiro se fez atraente. O óleo usado foi como a madeleine de Proust, desencadeando lembranças quase tão sólidas como o agora.
As risadas, as músicas, os jogos – tudo parecia tão próximo, ainda que inalcançável. Ao longe, reconheceu uma canção que interrompeu seu devaneio, atirando-lhe a outro.
– “A riqueza que nós temos, ninguém consegue perceber”.
Ele abriu os olhos e viu a praça. O som vinha de uma pequena caixa de um vendedor de colares ali perto. Como ele gostava desses cordões, em algum ponto da sua vida achou que ele poderia encontrar o colar perfeito, uma espécie de amuleto. Hoje ele olhava com graça para a variedade de símbolos que as pessoas penduravam em seus pescoços.
Agora era homem feito também, como na música, e também tinha medo. Aquele medo que achou que teria partido ao crescer. Talvez tenha ido embora, mas foi substituído por outros.
Suspirou e olhou ao redor, ainda estava na praça da igreja, mas agora não era como um cenário de correria, e sim como um palco. As pessoas ao redor não eram apenas estranhos apressados; eram histórias em movimento, cada uma com suas próprias melodias e memórias.
Quantas dores estavam ali, sonhos não concretizados, futuros que não chegaram, ou vieram cheio de reveses?
Com um suspiro que carregava tanto a dor quanto a doçura do passado, ele decidiu que era hora de criar novas lembranças. Afinal, “a cada hora que passa, envelhecemos dez semanas”. Era preciso aproveitar o tempo, não correndo, mas deslizando sobre ele, observando.
Se um cheiro de pastel guardava tantas coisas nele e no mundo, o que mais haveria?
Teve um ímpeto criador, precisava transmitir isso de alguma forma, ainda não sabia como, mas faria.
Ele caminhou para fora da praça, sem pressa, observando com calma, talvez perdesse o ônibus, mas talvez o próximo estivesse mais vazio. Ainda estava nostálgico, mas também com um tom de esperança no coração, como na expectativa de quem aguarda pela noite de Natal. A esperança de que, embora o passado seja um belo lugar para visitar, é no presente que ele iria construir as histórias que um dia farão alguém suspirar de saudade.

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