Era uma noite quente em São Paulo e, apesar de ser sexta-feira, o pub não estava tão cheio. O clima parecia leve, carregado de uma atmosfera divertida, quase como se as primeiras estrelas que estavam despontando no céu mostrassem um sorriso faceiro de quem deseja surpresas.
“Mania de chamarem de pub qualquer barzinho de esquina”, pensou João de forma irônica. Já não era um novato das noites, ele cantava em bares há três anos. Não era sua carreira principal, por assim dizer, ele era designer, mas sua paixão era a música.
Entre cantar para ser feliz e criar para pagar as contas, João ficava dividido entre o dia em frente a telas, adquirindo alguma lesão por movimento repetitivo, e soltar a voz em pequenos bares, recebendo aplausos, sorrisos, alguns olhares, pedidos de canções e, especialmente, bebidas, pois que o salário de um cantor semiprofissional se materializa, em grande parte, em cerveja quente.
Foi no intervalo de uma das músicas que João viu a bela menina. Não saberia dizer se ela já estava ali ou se havia chegado há pouco. O que sabia era que, de alguma forma, ela havia cintilado aos seus olhos naquele momento de breve silêncio em que o percussionista dá a última batida, enquanto as vozes ainda não se elevaram novamente em conversas animadas (um pouco pelo calor, um pouco pelas companhias, e muito pelo álcool).
João ficou como um tolo, com a mão que buscava sua cerveja quente parada no ar, suspensa, enquanto seus olhos pareciam hipnotizados. Ela ainda não lhe notara, tinha os cabelos lisos e escuros, um olhar naturalmente delineado, quase como uma mestiça de brasileiros e orientais.
Quando a garota fez menção de olhar em sua direção, João recobrou os movimentos quase que com naturalidade, mas havia ali novas intenções, movimentos mais abertos, amplos. Quando os olhares se cruzaram, ele sorriu em sua direção e anunciou:
– E agora uma para todos aqueles que admitem a fragilidade frente a elas – e logo começou a cantar “Garotos II – o outro lado”. Ela sorriu e ele quase se esqueceu da letra por um momento.
Recuperado, fez questão de cantar de forma mais romântica, fechando levemente os olhos quando percebeu que ela havia puxado o celular para gravar. João pensou por um momento se ela estaria sozinha, pois não havia mais ninguém naquela mesa, quem sabe estivesse esperando alguém?
Bem, uma oportunidade é uma oportunidade…
Após os aplausos ao final da música, João anunciou uma pausa, desceu do pequeno palco e foi direto à mesa dela.
– Ei, como você está?
– Cansada de estudar, na verdade…
João franziu levemente as sobrancelhas, mas logo se lembrou que o “pub” ficava próximo a uma faculdade. Como a garota havia dito a frase com um sorriso, ele se sentiu motivado a seguir.
– O que você está fazendo esta noite? – arriscou ele.
– Nada de mais, curtindo um show – respondeu ela e batendo de leve com o dedo indicador direito na tela de celular que havia acabado de gravar a performance de João.
– Ah, nesse caso, podemos desligar o celular, ficar offline e conversar um pouco? – propôs ele.
Ela hesitou, mas algo naquele convite inesperado a intrigou.
– Tudo bem, até que horas vai seu show?
– Tenho mais uma entrada apenas, mas deve ser de no máximo 40 minutos. Depois, podemos ir para outro lugar.
– Só se for um jantar rápido – concordou ela, ele assentiu satisfeito.
Já quase se virando para voltar ao palco, ele parou e disse:
– Qual é o seu nome mesmo?
– Eu não tinha dito ainda. Você não perguntou.
– Desculpe, é que seu sorriso roubou toda a capacidade do meu cérebro – ela sorriu novamente e mais largamente –, mas qual é seu nome?
– Larissela!
– Uau – e João sorriu de lado.
– O que foi isso? Esse riso? Tá me zuando? – indignou-se Larissela de mentira.
– Não, é que eu estava pensando no futuro.
– Como assim?
– Se só com seu nome eu já enrolei minha língua, nem sei o que vai acontecer quando chegar até onde eu quero.
– E quem disse que vai chegar lá?
– Uma coisa por vez, primeiro vou cantar e depois a gente janta – e saiu com uma piscadela.
Larissela se intrigou, mas gostou um pouco daquele atrevimento com humor que João carregava. Ele tinha um ar faceiro. Não sacana demais a ponto de dar nojo, nem inteligente a ponto de parecer arrogante ou tedioso.
O jantar foi mais do que rápido, pelo menos foi a sensação que os dois tiveram quando se deram conta de que já invadiam a madrugada. Entre risadas e confissões, eles falaram sobre si, suas famílias, sonhos. Cada gole um novo assunto, cada sorriso uma taça, e pelo menos duas garrafas de vinho se foram. Ela estudava medicina, tinha uma família mais rígida que, naturalmente, esperava muito dela. Pressionada entre responsabilidades, expectativas e seriedades, João era como um sopro doce de liberdade e criatividade.
Quando ele a deixou em casa, Larissela sentiu algo diferente, uma química incomum.
Nos dias seguintes, eles se viram mais vezes do que poderiam contar. “Lari”, como ele a chamava, começou a se questionar, “o que somos?”.
– Apenas amigos – respondia João, mas seus olhares diziam o contrário, bem como seus atos, os toques das mãos e os pequenos detalhes que acendem, pouco a pouco, uma fogueira no coração. Mas Larissela evitava pensar em João como algo a mais. Sabia com sua cabeça que não daria certo, apesar de seus lábios desejarem algo além.
João e Larissela se encontraram em um final de tarde, quando os raios dourados do sol pintavam o céu de tons suaves. Ela, com seus cabelos escuros presos em um coque despretensioso que se desmanchava pouco a pouco pela lisura de seus fios, folheava um livro de anatomia, enquanto ele afinava o violão. O cenário era uma praça próxima ao centro de São Paulo que, estranhamente estava sem viciados perambulando e com os poucos mendigos ao redor em um estado de calmaria, enquanto alguns adolescentes andavam de skate.
Se o cenário não era idílico, nem colorido, os olhares que se encontravam traziam todas as cores possíveis.
João, com um sorriso tímido, parou de dedilhar as notas no instrumento e fixou seu olhar em Larissela.
Aqueles olhos delineados e levemente puxados com um ar sagaz, os raios de sol marcando aquela pele clara, o cabelo se desmanchando pouco a pouco. Tudo era de um charme irresistível. Aproximou-se de Lari. Ela ergueu os olhos do livro e o observou com curiosidade. Ela gostava do seu ar divertido, quase como que pensando no próximo comentário espirituoso, os traços da sua barba rala, os cachos um tanto aloirados de seus cabelos. Não se incomodaria de escutar mais de perto, ao pé do ouvido, as canções que ele poderia cantar.
Ele, nervoso, gaguejou algumas palavras um tanto ininteligíveis, provavelmente arriscando algo sobre a beleza do entardecer e como a música parecia dançar no ar. Larissela riu, achando-o adorável.
– Canta pra mim! – lançou ela, apontando para o violão.
João assentiu e, recobrando seu domínio, começou a dedilhar a melodia de “Sozinho”, de Caetano. A voz saiu como um suspiro, envolvendo-os como um abraço caloroso. Larissela fechou os olhos, deixando-se levar pela canção. Era como se o mundo inteiro desacelerasse, e só existissem eles dois ali, naquele momento mágico.
Sem skates, sem mendigos, sem os craqueiros que provavelmente apareceriam no início da noite, solicitando uma tomada de políticas públicas sérias que têm de se debater entre uma internação compulsória, agressão pela polícia militar ou a eliminação constante de um efeito ao qual ninguém olha para a causa. Não. Não havia nada além da voz de João.
E apesar de estar cantando “Sozinho”, eles sabiam que nunca estiveram tão mais que si mesmos do que naquele instante.
Quando a última nota se dissipou, João olhou nos olhos de Larissela. Ela estava tão perto, seus lábios rosados convidativos. Ele sentiu o coração acelerar, mas não hesitou. Inclinou-se, e seus lábios se encontraram em um beijo. Quente, desejado, esperado.
O vento brincou com os cabelos deles, o coque se desmanchou completamente, ele colocou suas mãos na nuca dela, subindo seus dedos pelos cabelos como um carinho. Como queria tocá-la de forma íntima… por que demoraram tanto, afinal?
João sentiu que, mesmo que nunca mais cantasse, sua boca já estava consagrada ao pódio. E ela, por um breve momento, esqueceu tudo sobre anatomia, medicina e possíveis doenças transmissíveis pela saliva humana.
Depois de alguns minutos incontáveis, afastaram-se um pouco e notaram que o sol já havia terminado de se por. Ela riu e ele ficou curioso:
– Minha mãe queria que eu encontrasse o maior partido do mundo. Um homem rico, um médico, um advogado ou engenheiro, talvez. E aqui estou com meu cantor – João riu.
– E isso importa para você?”
– Vamos aproveitar o momento, mesmo que seja um pouco estranho – disse ela, sorrindo.
Do beijo ao afago, do afago ao toque intenso e, por pura necessidade, de seus próprios desejos – mas também ficando aliviados por decidirem partir quando os craqueiros chegavam e os mendigos levantavam –, saíram dali.
Foi a primeira de muitas vezes, que se transformaram em dias na cama, entre carinhos e sussurros de “te amo”, sabendo que aquilo poderia acabar a qualquer momento.
A realidade bateu à porta quando Larissela perguntou:
– Ei, tudo bem? Quem é ela? – apontando para uma foto de João com uma amiga no Instagram.
– É só uma amiga que está ajudando a promover uns trabalhos num barzinho –, explicou ele, mas Lari não parecia convencida.
Os pais de Larissela, Antônio e Beatriz, eram pessoas de princípios rígidos e tradições profundamente enraizadas. Pelo menos é o que diziam, afirmações talvez desmentidas pelo histórico do navegador do celular de seu Antônio e pelo carrinho de compras da Amazon de Beatriz.
Quando souberam do relacionamento entre sua filha e João, suas expressões se tornaram sombras de preocupação. Antônio, com seu jaleco impecável (um claro motivador da escolha de Larissela pela carreira) e seus óculos de aro metálico, franzia a testa, enquanto Beatriz, com seu cabelo preso em um coque austero, apertava os lábios (ao menos os anos haviam dado a ela a habilidade de fazer coques melhores do que a filha).
– Medicina é uma carreira séria, Larissela. – dizia o dr. Antônio, sua voz grave ecoando pela sala – Você não pode se distrair com um cantor. Ele não tem futuro garantido.
Era inútil dizer que João era também designer, seus pais nem sabiam que aquilo era uma profissão.
Dona Beatriz assentia, seus olhos fixos na janela. “Ela precisa de alguém estável, alguém que possa oferecer segurança. Não um rapaz que vive de aplausos e acordes”.
Larissela tentava argumentar, mas as palavras de seus pais eram como paredes altas e intransponíveis, as mesmas que Antônio tinha pedido para subir em sua casa, que às vezes assemelhava-se a uma prisão; o que fazia Lari pensar que talvez aqueles “cracudos” não tratados tivessem algo que ela não tinha, apesar das claras pedras no caminho.
Ela olhou para o vídeo de João que gravara no primeiro dia e se alegrou. Depois viu a foto de João com a “amiga”, lembrando-se do beijo no parque. O amor era uma melodia suave, mas enfrentar a desaprovação de seus pais parecia uma tempestade iminente, a qual o ciúme soprava um vento cortante sobre.
Quando Lari contava a João sobre como seus pais estavam sempre desaprovando o relacionamento, ele dizia:
– Faça como quiser! – e Lari não sabia identificar se havia indiferença, displicência, mágoa ou apenas uma tentativa de manter a paz. E tudo isso deixava a cabeça da garota cada vez mais confusa.
“Se é indiferença, pode ser que não se importe comigo, se é isso, pode ser que já tenha outra; mas talvez ele só queira ficar em paz e se sinta mal pela maneira como meus pais tratam nosso relacionamento… Mas que relacionamento, nem sei o que somos, afinal”.
Até que um dia, Lari pensou ter encontrado mensagens suspeitas no celular de João. “Você está me traindo?”, questionou ela.
– Não! Você está lendo demais nas entrelinhas – defendeu-se João, explicando, inutilmente, quem eram e os motivos daquelas trocas.
Eles brigaram, Larissela não sabia se as palavras que disse eram dela, de seus pais, de seu ciúme ou de ressentimento pelo fato de a vida ter colocado-a para amar um homem que ela nunca idealizou.
Com lágrimas nos olhos, ela apontou para a porta. João saiu.
Nos dias seguintes, ele tentou contato por mensagens, foi até a faculdade dela, mas não a encontrou. Seu lado lírico não o abandonava e enviou uma mensagem apenas com as palavras, “eu te chamo, te chamo, te chamo. Eu escrevo que te amo, te amo, te amo”.
Larissela visualizou, mas não respondeu.
Perderam-se um do outro, sabe-se lá quanto tempo, sabe-se lá o verdadeiro motivo. Tiveram casos nos anos seguintes, Lari saiu com um advogado algumas vezes, era um encontro arranjado por sua mãe, mas preferiu ficar sozinha.
O “bom partido” que Beatriz arrumara com uma amiga que partilhava as tardes de chá na casa-prisão era apático, sem brilho, ele não gostava nem de música. O advogado não tinha nome, ou se tinha, ninguém lembra. Para os pais da garota, nomes não importam, mas profissões, futuro, sucesso… seja isso o que for.
– Preciso focar nos meus estudos – escolhia Lari, e o motivo era tão bom que os pais assentiam.
João saiu com algumas garotas, nunca com a “tal amiga”, mas não parecia ter se empolgado com ninguém.
E o tempo fez seu trabalho, junto à sociedade moderna, de jogar para debaixo de um tapete as nossas vivências e sentimentos mais coloridos em prol da produtividade e sobrevivência. Se estamos em São Paulo, temos de ser úteis… para quem, para quê?
Num fim de tarde, Lari saía de uma prova dificílima a qual acreditava ter sido bem-sucedida e decidiu entrar no primeiro pub, ou bar, ou boteco (já que aqui é Brasil, porra!). Sentou-se como um dia havia feito, pediu uma batida de frutas vermelhas com vodka e abriu o celular para gastar um pouco do tempo útil de seus olhos, alheia a tudo, até de si mesma. Sentia-se cansada, exausta. Não sabia de quê, não sabia de quem.
De repente, escutou ao longe algumas notas que fizeram vibrar o martelo, a bigorna e o estribo, transmitindo as ondas sonoras do tímpano para a cóclea e seu cérebro decodificou tais sons de uma forma agradável. A anatomia parecia morrer pouco a pouco frente a arte. E uma voz masculina doce passou a cantar num ritmo quase divertido:
– Sempre começa com um “Ei, como você está?”. Que se torna “O que você tá fazendo nesse bar?”. Que vira “bora, desliga o celular”. E avisa seus amigos que hoje não dá…
Lari estava tão absorta em seu estado que só teve um sobressalto, quase um momento de epifania, quando escutou o trecho:
– Saiba que sempre te chamo, te chamo, te chamo. E escrevo que te amo, te amo, te amo…
Olhou para o palco e viu João. Seu coração fez movimentos descoordenados com seu estômago e parecia que seu corpo corria parado, desmanchava-se como seus coques ao vento. Não sabia expressar como era vê-lo depois de tanto tempo, “um ano, dois?”, ela não sabia.
Mais que isso, era aquela voz, e o olhar, e o sorriso… e a canção. Mesmo longe, ao compor sobre Larissela, João dava um jeito de mantê-la enroscada em sua língua, como tanto amava.
E a música terminava em um belo acorde e em uma frase que desaguava em reticências, pois para João o término sempre foi uma pausa e não um fim. Quando ele abriu os olhos e a fitou intensamente, faceiro, Lari sorriu. Era estranho, mas ela sabia, como soube da primeira vez, que, fosse cantada ou escrita, aquela história ainda não tinha acabado.
*Inspirada livremente na canção: belissimissima

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