Renan De Simone

A quem interessa a falta de tempo?

Estamos sem tempo!

Essa afirmação parece ser mais verdadeira que nunca na história da humanidade. E, geralmente, tendemos a nos perguntar “por que estamos sem tempo?”.

As respostas são as mais diversas. Mas talvez estejamos fazendo a pergunta errada.

Quem sabe a melhor pergunta seja “a quem interessa estarmos sem tempo?”. Pronto, está armada, em seis palavras, a teoria da conspiração.

Sim, pois dizer que interessa a alguém estarmos sem tempo implica dizer que nem todo mundo está sem tempo, apenas a maioria das pessoas está. Implicitamente, diz também que aqueles que parecem estar fora dessa lógica estão, de alguma maneira, controlando ou forçando situações para que essa grande massa esteja sem tempo.

E aí os motivos são, novamente, diversos.

Seria interessante, por exemplo, para a indústria farmacêutica, que nos vendem os químicos para forçar ao sono, já que não conseguimos dormir; vendem os estimulantes, já que temos dificuldade em acordar; vendem remédios para concentração ao longo do dia e a lista vai longe.

Dessa perspectiva, alguém diria que estou condenando todo o avanço da ciência, negando o bem que tal indústria já proporcionou. Outros diriam que sou apenas um comunista querendo denunciar os grandes conglomerados e donos do capital (sim, pois ao capital interessa bastante estarmos sem tempo, é verdade – pensar pouco ajuda a tomar decisões idiotas, o marketing sabe disso há muito tempo, “né, escassez?”).

O mais interessante é que, no momento em que vivemos (quantos recortes, afinal), há quem se levante para dizer que sou bolsonarista e negacionista porque afirmei que pode existir um interesse na indústria farmacêutica de que estejamos doentes (assim como interessa a garoa a quem vende guarda-chuva). Estou contra a ciência e, praticamente, dizendo que é melhor morrer do que tomar vacina – adicionando que a Terra é plana, que as minorias deveriam morrer e que o 08 de janeiro foi só uma manifestação pacífica normal.

Há quem diga que sou lulista, que quero entregar o país aos comunistas, destruir a família, os valores e princípios que constroem a boa sociedade e acabar com os empreendedores de bem que movem nossa nação, espremendo uma classe “média” já estrangulada a pagar para que os pobres possam ter algum retorno e se tornarem massa de manobra, enquanto os ricos permanecem ricos, pois que são aliados desse desgoverno (alô indústria do automóvel crescendo de novo).

Para mim, é engraçado. Simples assim. É engraçado que as pessoas tenham pegado dois idiotas como modelo de pensamento, duas figuras que menos contribuíram para as reflexões, e as usem como baliza (até moral) para definir a sociedade, dois manequins tão óbvios que chega a ser ridículo. Como se houvesse apenas dois lados (e logo esses dois…). Se assim for, o mundo seria uma moeda, e plana, e cada um, Lula e Bolsonaro, estaria de cada lado, mas, estranhamente, seriam a mesma moeda. Fica a dica para pensar.

Vamos um pouco além, por favor, levantar hipóteses sem respostas rápidas. Se não temos controle de quase nada em nossa vida urbana e “conectada”, que pelo menos nossa básica capacidade humana de elucubrar não seja entregue de forma tão rasa.

Deixando claro que não me coloco como dono de verdade alguma aqui, sou dono de dúvidas, ou melhor, locatário delas, pois que não são fixas e nem minhas.

Aponto aqui apenas as ironias do nosso tempo, algumas. Que me incomodam e divertem. Incomodam porque vivo essa lógica, essa realidade, estou na grande megalópole São Paulo e aqui temos recordes de trânsito, ansiedade, violência, insônia, poluição do ar e sonora, mas também temos arte pulsante, grandes centros de conhecimento, entretenimento (para todos os gostos)  e produzimos muito, como formigas, ou como abelhas, talvez, pois que nunca sabemos exatamente quem está vindo coletar o “mel” – correndo o risco de me alongar em possíveis justificativas, esses exemplos mínimos não são exclusividade de SP.

Mas isso também me diverte, pois vejo o absurdo, os paradoxos: a reclamação de quem não se sente amado, mas não consegue amar e se dedicar ao outro ou a si mesmo; de quem não se dá uma chance para ser feliz quando tudo parece óbvio; vejo quem insiste em relacionamentos naufragados porque não suportam a própria presença ou o fato de que o sonho que montaram na própria cabeça possa não ser real, ou não se concretizar dentro do “prazo” que elas se colocaram (e como a gente enlouquece com prazos).

Me diverte, talvez de forma até mórbida, o paradoxo de quem se acha feio e piora a situação com procedimentos estéticos (parabéns ao fenômeno das sobrancelhas tatuadas, cílios de vassoura, camisas apertadas que não nos deixam mover, as bocas de moela, as calças curtas e que danificam a circulação na panturrilha, meias que nos irritam o dia todo, que de tão curtas escorregam pelos calcanhares – “pode aparecer minha calcinha, cueca ou o que for, mas Deus me livre alguém descobrir que uso meias”); da ironia de estarmos sem tempo e gastarmos horas em um entretenimento que às vezes não nos leva a lugar algum (nem mesmo ao suposto alívio que poderia ou que buscamos); do fato de que brigamos por tanta coisa que não faz sentido e que nem deveria ter importância para nós enquanto deixamos assuntos relevantes morrerem na praia, aos nossos pés (basta dar uma olhada nas discussões ao estilo BBB que tanto mobilizam enquanto relações próximas e verdadeiras morrem dentro de casa, as amizades se esvaem)… E por aí vai.

Para manter a metáfora animal iniciada antes, vejo a vida da perspectiva de um peixe que está em um aquário, mas um aquário que foi colocado em frente ao espelho. Também estou no aquário e vivo tudo isso, mas posso olhar e ver refletido ali nossos absurdos, questões, nossa comicidade humana. Todos podemos se quisermos.

Tempo

E o tique-taque segue ali. Estamos sob a ditadura de Chronos, contando os segundos, minutos, tabelando experiências para tirar “insights”. Fazemos tudo apressadamente, não para descansarmos, mas para enfiarmos mais atividades no dia. O ócio é uma agressão. Nos cobramos tanto (e isso não é uma ode à preguiça, e sim um alerta a um possível equilíbrio).

O Kairós fica relegado a pequenas percepções, quando parecemos suspensos brevemente da mão de Chronos. Talvez até sob efeito de drogas, legalizadas ou não. Mas logo caímos novamente, uma desilusão.

Cronometramos os segundos vividos e buscamos mais tempo de vida, nos remédios, no estilo “fitness”, nos suplementos, nos procedimentos. Queremos enganar e disfarçar que envelhecemos e nos esquecemos do motivo pelo qual queremos tanto viver mais tempo. Sem perceber que, com tudo que fazemos ao longo desse período, para enganar ou fingir que a morte não existe, estamos exatamente desperdiçando o tempo que temos para viver.

Esperançosos de um Éon que seja eterno, consumimos a nós mesmos num agora infinito que não pensa, não para, não se entedia. Será que temos tanto medo do vazio que precisamos preencher a vida com um estilo barroco de que, mesmo os ínfimos instantes têm de estar entalhados com coisas a fazer, a ver nas telas, a produzir?

Correndo o risco de ser simplista e reducionista, como toda arte e comentário o são (uma pintura é um recorte também, por exemplo), digo para respirarem.

Não é um conselho budista, nem se aplica só a você. Tudo isso aqui provavelmente é para mim mesmo, lembra que estou no aquário?

Mas quando tudo parecer como uma carreta atropelando os momentos, quando a ansiedade for tão forte que parece que seu peito vai estourar, quando a respiração não parecer suficiente para puxar o ar aos pulmões, pare e olhe ao redor por um momento. Veja tudo da perspectiva do espelho do aquário, olhando de fora e dentro, simultaneamente.

Nos dias, frios, por exemplo, tenho cinco lances de escada da estação do metrô de Higienópolis para tomar vento e talvez ter sinusite; nos dias quentes, tenho a ventania destes mesmos cinco lances para ajudar a secar o suor do meu sovaco, é tudo uma questão de perspectiva.

A quem interessa eu estar sem tempo, será que essa meia hora a mais matará alguém? Então respire, nem que seja por 30 segundos, deixe de ver um “stories”, ou dois, ou três. Desligue o automático, olhe para o céu, cinza ou azul, sinta a temperatura do ar na sua pele, perceba como você está se sentindo, seja gentil consigo.

Lembre-se ou perceba melhor os momentos: o toque da pele de quem se ama, uma risada que deu sozinho(a) enquanto caminhava, o cheiro de um pão recém assado, ou mesmo a sensação quando uma nova ideia nos atinge ou quando compreendemos algo.

Se você “ganhou” algum tempo porque seu café já estava numa cápsula, porque inventamos o metrô, ou porque consegue falar com pessoas a distância pelo seu celular, use esse tempo de outra forma, crie espaços vazios, mesmo que pequenos. Ria de si, dos outros, do mundo, do suposto controle conspiratório…

Essa atitude não vai salvar o mundo, talvez nem o mude, mas se você colocar um mínimo de qualidade na sua vida, seja ela do tamanho que for, já terá valido a pena!

Comments

Uma resposta para “A quem interessa a falta de tempo?”.

  1. Avatar de Shirley
    Shirley

    Parabéns é isso mesmo nós e que deixamos o tempo passar sem perceber 👋👋👋

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